O ‘Projeto Integra’ traz um novo horizonte para a comunidade de trabalhadores brasileiros no Japão

por The Winners
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Naoki Sugiura, diretor presidente da empresa LEADLE Co (corretagem de seguros e títulos) e Inbound Japan Service Co (consultorias sobre recursos humanos, publicidade e marketing sobre oferta de empregos), fala sobre a iniciativa que promete oferecer um novo horizonte para a comunidade de trabalhadores brasileiros no Japão.

The Winners – Como surgiu a ideia do Projeto Integra? Por quais motivos?

Naoki Sugiura – A ideia do Projeto Integra surgiu da experiência como trabalhador e empresário do brasileiro Cláudio Akiyama. Através dele tomei conhecimento da realidade dos brasileiros que trabalham como trabalhadores temporários (Haken Shain), da sua situação de fragilidade.

Que por exemplo, quando perdem o emprego, os filhos correm o perigo de terem de abandonar a escola, porque os pais ficam sem recurso financeiro. De que as oportunidades dos que buscam a recolocação no mercado de trabalho diminui drasticamente após quarenta e cinco anos de idade, com isso comprometendo a aposentadoria.

As empresas japonesas em sua maioria grandes corporações que contratam estrangeiros (desde a segunda metade da década de 1990), obtiveram lucros graças a redução no custo da mão de obra utilizando a contratação dos trabalhadores temporários (Haken Shain).

Essas empresas contam com os trabalhadores estrangeiros (em especial), os brasileiros como alternativa para ajustar os custos de acordo com as demandas. Passaram-se trinta anos (30 anos) e os trabalhadores por contratos temporários (Haken Shain), não conseguiram obter crescimento como capital humano. Havendo muitos casos de trabalhadores acima de 40 anos sendo descartados por queda de produtividade e sendo considerados como recursos humanos descartáveis.

TW – Quais as principais dificuldades dos profissionais brasileiros no Japão?

NS – A grande maioria das empresas japonesas não exigem dos trabalhadores brasileiros, nível de qualificação profissional ou especialistas no mercado de trabalho. Por isso são raros as oportunidades para se obter qualificação profissional. Por outro lado, temos a exigência rigorosa por parte dos japoneses, no tocante àquelas pessoas qualificadas, sendo esse uma das causas da dificuldade de convivência no de trabalho.

Outro fator que se difere entre os valores culturais dos países é sobre etiqueta e regras. Essas diferenças têm dificultado a compreensão e comunicação entre japoneses e estrangeiros. Temos como exemplo: não comer andando na rua, cuspir na frente das pessoas; isso não são regras e sim, etiqueta.

Temos como exemplo de regras: Não jogar bitucas de cigarro ou, lixo na rua. E ainda existe outra questão, quando se trata dos estrangeiros turistas e japoneses. Naturalmente, os japoneses costumam tratar os turistas com generosidade e quando se trata que veio para trabalhar e é o seu vizinho, a exigência se torna embaraçosa entre ambos.

São exemplos como esse, que tem sido a barreira invisível entre os japoneses e os trabalhadores estrangeiros que aqui vieram.

TW – O Projeto já apresenta resultados práticos? Quais?

NS – Sim. Temos realizado seminários educativos para brasileiros, informando a opção de ser contratado como Sei Shain (funcionário efetivo) que ao contrário de trabalhadores temporários (Haken Shain), valorizam cada trabalhador como capital humano a qual ocorre aumento salarial proporcionalmente aos lucros da empresa.

Também temos realizado seminários voltados para as empresas japonesas objetivando o entendimento sobre como a empresa deve enxergar o trabalhador estrangeiro como capital humano inserido na empresa. E como resultado prático em menos de 1 ano já alcançamos 20 empresas e mais de 40 trabalhadores participando desse processo do projeto Integra. O processo de empregabilidade em que os empresários japoneses entrevistam pessoalmente os brasileiros e efetuam avaliações como os seguintes quesitos: caráter, habilidade e capacidade. 

TW – Qual o papel do projeto TENSHOKU SHIEN?

NS – Num cenário de baixa natalidade e envelhecimento rápido da população, pela primeira vez na história do movimento dekassegui, estamos criando estruturas para que as empresas japonesas, com falta de trabalhadores, considerem os estrangeiros que aceitam os desafios do emprego com carreira como recurso humano valioso, ou seja, como capital humano que contribui para o avanço da empresa.

De maneira concreta, para as empresas oferecemos consultoria sobre a Implantação do sistema de avaliações das habilidades, capacidades e experiências e conselhos sobre a reforma do sistema de remunerações.

Para os trabalhadores, oferecemos orientações sobre a participação no projeto, informações sobre as condições oferecidas pelo empregador, assessoria para a elaboração de currículo e histórico profissional em idioma japonês, dicas sobre comportamentos na entrevista, acompanhamento na entrevista em caso da dificuldade no idioma, etc. Assim servindo de ponte entre as partes.

TW – Quais os meios de comunicação os trabalhadores brasileiros no Japão conseguem acessar?

NS – Nossa página www.aloshigoto.com, as do tenshoku shaien – empregos efetivos e Project INTEGRA no Facebook, na organização de seminários, participando em eventos educacional no consulado brasileiro e outros eventos na comunidade brasileira, palestras em escolas públicas brasileira e japonesa, encontros com políticos, autoridades locais e também em grupos comunitários. Uma infinidade de meios para se comunicar e é só buscar que encontrarão o que melhor se adequa.

TW – Muitos brasileiros que migraram para o Japão conseguiram progredir em outras carreiras?

NS – Nas associações de empresários japoneses nos quais participamos, não encontramos nenhum brasileiro residente como membro e com tais qualificações. Entretanto, acreditamos que por meio de nossas atividades, os empresários japoneses (os da minha geração), irão contratar, treinar para que os resultados sejam verdadeiramente bem sucedidos.

Eles serão aqueles com resultados econômicos com mais capacidade, conhecimento técnico, mais credibilidade social, conexão entre empresas japonesa e reconhecimento na sociedade japonesa. Eu acredito que dessa forma, vamos corrigir a distância entre uma da outra. Com certeza, aprofundando o relacionamento e isso se tornará, pessoas de sucesso.

TW – Que tipo de cursos vocês oferecem para os brasileiros?

NS – Seminários como Projeto de vida com salário vitalício; Desenvolvimento de capital humano para aumentar a renda anual; Investimentos com Planejamento financeiro; Planejamento de carreira; Explicação do sistema de bolsas de estudos para ingresso à universidade; curso preparatório para obtenção de certificado de qualificação profissional, palestras sobre abertura de empresas; etiquetas e regras de negócios no estilo japonês, etc.

TW – Como as empresas japonesas avaliam os trabalhadores brasileiros nesse momento?

NS – Como trabalhador descartável. A maioria das empresas japonesas tratam os trabalhadores estrangeiros (chineses, vietnamitas, filipinos e brasileiros), independentemente da nacionalidade, como custo de mão de obra ajustado por demanda, considerando que voltarão aos seus países de origem, em três a quarto anos. Assim, não houve nenhuma avaliação, assim foi durante esses trinta anos. No entanto, se daqui em diante reconhecer o imigrante estrangeiro como recursos humanos talentosos, que fazem parte do mercado consumidor no Japão, a visão de um simples trabalhador muda como um alvo para novas perspectivas.

Naoki Sugiura, diretor presidente da empresa LEADLE Co

TW – Na sua avaliação, falta comunicação ou diálogo entre os dois governos em prol dos brasileiros que trabalham no Japão?

NS – Há uma falta de comunicação entre os governos dos dois países nas questões de vistos atrelados a condições realistas de trabalho e questões de seguridade social, etc. Acredito que o mais importante de todos é a necessidade de discussão com empresas japonesas.

A menos que as empresas japonesas não aumentem a conscientização de aceitar os trabalhadores brasileiros como recursos humanos possíveis de aumentar o valor do capital humano, a sociedade não resolverá o problema do emprego de trabalhadores estrangeiros. O Japão pode se beneficiar em termos econômicos, em grande escala, mas está atrasado em termos de política de emprego para estrangeiros e de imigração. Eu acredito que há muito a aprender com o Brasil, historicamente um pais que sempre acolheu imigrantes.

Especialmente, na comunicação e isso tem a ver em corrigir o senso de distância. Explico: 1- A distância geográfica (o tempo de viagem entre Brasil e Japão), 2 -Distância econômica. (Relações comerciais e intercâmbio econômico). 3 – Distância política, (elevar o nível de amizade entre os dois países). 4 – A sensação da distância mental, (para se tornar amigos e até família). O Japão está longe de qualquer outro país em se tratando desses 4 tópicos mencionados. Porque o Japão é um país insular. No entanto, os tempos mudaram e a sensação de distância se tornou menor.

Os brasileiros que moram aqui são melhores nesse sentido. Eu sinto que os japoneses precisam aprender com essas informações. Acredito ainda, que o nosso papel através das nossas atividades não é por acaso. Já demos os primeiros passos, muito importante. Estamos quebrando paradigmas, seguinte em frente. Isso após trinta anos de presença de trabalhadores brasileiros no Japão.

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