Tragédia global

por The Winners
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Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas

A trágica pandemia do Covid-19 que varreu o planeta todo vem colocando em evidência o velho tema da segurança alimentar, que andava meio esquecido. E, como consequência, ressalta a importância da atividade agropecuária, nem sempre reconhecida e respeitada como merece, dado ser ela o alicerce de qualquer programa que garanta alimentos de qualidade. E já não é sem tempo. Políticas globais destinadas a alimentar toda a população do mundo exigem a participação de governos e sociedades dos 5 continentes.

Aliás, há pouco menos de 20 anos, a própria ONU já se debruçara sobre este tema, ao especular que no ano 2050 seremos mais de 9,6 bilhões de terráqueos e, para alimentá-los a todos, seria necessário aumentar a produção global de alimentos em cerca de 60%. Essa previsão da ONU está ligada ao seu Apapel precípuo, que é garantir a paz universal, compreendendo que não haverá paz enquanto houver fome. Portanto, segurança alimentar seria condição basilar para acabar com a beligerância de toda gente.

A OCDE, respeitável think tank multilateral, passou a se preocupar com o mesmo tema, e há mais ou menos uma década lançou um estudo que vem sendo atualizado sistematicamente, apontando que em 10 anos, a oferta mundial de alimentos precisa subir 20% para ninguém passar fome.

Mas, para isso acontecer, a produção brasileira terá que crescer o dobro no período, isto é, deve aumentar 40%. As razões para essa expectativa são muitas, mas há três principais: nossa tecnologia tropical sustentável, a disponibilidade de terras, e a qualidade dos recursos humanos que temos em todos os elos das cadeias produtivas do agro.

De fato, os números comprovam essas informações. Do Plano Collor (15 de março de 1990) até hoje, a área plantada com grãos no Brasil cresceu 72%, enquanto a produção cresceu quase 5 vezes mais, 335%, resultado da tecnologia gerada em nossos órgãos de pesquisa e incorporados pelos produtores rurais. Se estes números já são extraordinários, por trás deles há outro ainda mais espetacular: se tivéssemos hoje a mesma produtividade por hectare de 1990, para colher a safra de grãos de 2020 (que diga-se de passagem, é recorde) seria necessário cultivar, além dos 65 milhões de hectares hoje utilizados, mais 100 milhões.

Em outras palavras, essa área gigantesca foi poupada de desmatamento. Tais cifras mostram a sustentabilidade de nossa produção rural. E não é exclusividade dos grãos. No mesmo período, a produção de suínos aumentou 296% e a de frangos outros 491%. Mesmo a produção de carne bovina, cujo ciclo é bem mais longo, também, cresceu, 111%.

E foi assim com as demais culturas importantes, como a cana de açúcar, o café, a laranja e demais frutíferas, o leite, as hortifrutigranjeiras, as castanhas, etc.

E a produção sustentável continua com novas técnicas que vão surgindo o tempo todos. O Plano ABC, de agricultura de baixo carbono, é um exemplo disso. Constituído de 6 diferentes programas, como Recuperação de Pastagens Degradadas, Fixação Biológica do Nitrogênio ao Solo, Florestamento, Utilização de Resíduos para Produção de Eletricidade, Agroenergia, o Plano tem na Integração Lavoura/Pecuária/Floresta seu carro chefe.

Também a agroenergia, nascida com o Proálcool nos anos 70 como resposta aos saltos nos preços do petróleo, é um modelo de sustentabilidade: as emissões de CO2 do etanol de cana representam apenas 11% das emissões da gasolina. Como toda gasolina aqui consumida tem 27% de mistura de etanol, e como temos os carros híbridos movidos a etanol puro, tem sido reduzida a poluição nas grandes cidades e as consequentes doenças respiratórias.

Outra questão levantada pela OCDE e pelo USDA para justificar o potencial que o Brasil tem de aumentar sua produção de alimentos em 40% em 10 anos é a disponibilidade de terras. Dos 850 milhões de hectares do país, somente 8% são utilizados com todas as plantações agrícolas, desde a alface até o eucalipto, passando por grãos, frutas, café, cana, algodão etc.

E mais 21% do território estão com pastagens. Assim, todas as fazendas brasileiras ocupam menos de um terço do território, o que abre uma possibilidade muito grande de ampliação da área agricultada. Embora tenhamos a legislação florestal mais rigorosa do mundo, inibindo o desmatamento, será possível acrescentar à área atual mais 15 milhões de hectares nos próximos 10 anos, dos quais dois terços virão da conversão de pastos em agricultura, e um terço de desmatamento legal nos cerrados.

O que o agronegócio já vem fazendo mostra que é possível crescer 49% em 10 anos. No ano 2000, o agronegócio brasileiro exportou 20,6 bilhões de dólares. No ano passado, este valor foi de 96,8 bilhões. Este avanço faz do setor o grande responsável pelo saldo comercial na balança comercial, de maneira sistemática, crescendo ano após ano.

Em 2019, o saldo comercial brasileiro foi de 46,7 bilhões de dólares, mas o do agronegócio foi bem maior, de 83 bilhões. Há nesses números uma interessante revelação: em 2000, 18,3% das exportações foram para Estados Unidos e União Europeia, mas no ano passado isso caiu para 7,4%. Claro que essa queda foi apenas relativa, uma vez que as exportações para aqueles países também cresceram em número ab-soluto. Mas cresceram muito mais para os países emergentes, notadamente os asiáticos.

A China, por exemplo, que em 2000 havia comprado 2,7% de tudo o que o agro exportou, em 2019 aumentou sua participação para 32%.Com esses resultados, o Brasil está em primeiro lugar no comércio mundial de soja, de carne de aves e bovina, de café em grão, de açúcar, suco de laranja. Segundo em milho e crescendo em carne suína, algodão, flores e orgânicos. Mas pode crescer muito mais em pescados, lácteos e frutas, entre outros produtos, inclusive porque novos hábitos alimentares que já vinham ganhado dimensão importante nos últimos tempos, poderão crescer muito mais rapidamente quando a epidemia do Covid-19 tiver passado.

Mas terá que resolver alguns problemas recorrentes para atingir seu objetivo de aumentar em 40% as exportações de alimentos em 10 anos. Entre os principais estão:

– Investir em logística e infra-estrutura.

– Política comercial ampla e pro-ativa. Podemos exportar para o mundo todo, sem depender de um único país e sem discriminar nenhum.

– Política de renda: deve ser ampliado o seguro agrícola, acopla-do a um moderno sistema de crédito rural e garantia de preços mínimos, em um conjunto de políticas públicas que garanta a estabilidade da atividade no campo, única forma de sustentar a segurança alimentar das populações urbanas.

– Inovação tecnológica: esse é um processo dinâmico que carece de uma estratégia de longo prazo e recursos financeiros suficientes.

– Defesa sanitária: o coronavírus é a prova mais recente de que a régua da sanidade humana, animal e vegetal deve subir.

– Modernização legislativa: são necessárias reformas profundas em legislações obsoletas, o que já vem ocorrendo lentamente, tendo em vista a desburocratização e agilização da máquina pública. E mais do que modernizar as leis, é fundamental que o Estado esteja equipado para que tenha capacidade de fazê-las cumprir, de modo a eliminar, por exemplo, o desmatamento ilegal na Amazônia e em outros bio-mas nacionais, a coibir queimadas criminosas, a punir exemplarmente invasões de terras, seja por garimpeiros, seja por madeireiros, seja por qualquer agente que opere às margens da lei.

Com uma estratégia calcada nesses pontos e elaborada em conjunto com o setor privado, com apoio ao cooperativismo e ao associativismo, o Brasil terá amplas condições de ser o grande campeão mundial da segurança alimentar.

Aliás, nos primeiros 5 meses de 2020, o Brasil foi um dos únicos países grandes produtores agropecuários que aumentaram suas exportações, e de forma significativa. Com isso já deu uma clara demonstração de que, mesmo sob uma crise sem prece-dentes na idade moderna, tem capa-cidade de abastecer fartamente sua população é ainda gerar excedentes exportáveis que permitem alimentar mãos de um bilhão de pessoas pelo mundo afora.

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