Teresa Vendramini – A competência feminina no agronegócio do Brasil

por The Winners
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Teresa Vendramini vem de uma família de produtores rurais que há mais de oitenta anos se dedicam à atividade agropecuária. Filha de Vanderly Vendramini e Teresa Corpa Vendramini, nasceu no interior do estado de São Paulo, na cidade de Adamantina. Divorciada, tem uma filha, Fernanda, e dois netos, Antônio e Joaquim. Formada em sociologia e política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Teresa Vendramini adora ir ao cinema e viajar, para conhecer novos lugares, novas pessoas e diferentes culturas.

Assumiu os negócios da família em 2008 e se empenhou muito na gestão da propriedade e na busca por conhecimento no setor do agronegócio.

Se envolveu nas atividades da Sociedade Rural Brasileira (SRB) a partir de 2014 como uma das diretoras. Em 2020, foi eleita presidente da entidade. Era a primeira vez na história que a SRB passava a ter uma mulher na liderança.

Em seus discursos reforça que “o principal projeto de vida é o trabalho que realiza à frente da SRB, com foco no desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro“. Neste trabalho busca, acima de tudo, estar junto ao produtor rural, em defesa da segurança jurídica. Ela ressalta a importância do setor para a economia brasileira e defende projetos de educação e capacitação voltados ao homem do campo, para garantir o crescimento sustentável e manter a posição de liderança mundial que o agro brasileiro já vem ocupando.

Teresa vem se destacando ao ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade para divulgar e reforçar as práticas sustentáveis que o agro brasileiro já adota. Tais práticas se somam ao rigor que a legislação brasileira estabelece via Código Florestal, ao garantir, por exemplo, percentuais obrigatórios de preservação de mata nativa nas propriedades rurais. A chamada reserva legal chega a 80% no caso do bioma Amazônia. Neste cenário, Teresa lembra, sempre que possível, que hoje o Brasil preserva 66% do seu território. Ainda assim, acredita que há grandes oportunidades para seguir caminhando e avançando na busca deste equilíbrio entre a produção de alimentos e os benefícios sociais, ambientais e econômicos que o agro viabiliza à sociedade brasileira como um todo.

Em entrevista exclusiva para The Winners, ela reforça o papel do agronegócio na economia e no desenvolvimento do Brasil, os avanços em tecnologia e o futuro que nos espera.

Mostra a força feminina no setor e o caminho do futuro.

SÃO PAULO, SP, 02 10 2020: TERESA VENDRAMINI | 2020Fotos de Teresa Vendramini, primeira mulher a dirigir a Sociedade Ruralista BrasileiraDetalhes da sala dela e de objetos na Sociedade Ruralista Brasileira.Fotos: Roberto Setton02 10 2020

The Winners – Uma mulher produtora rural, ainda mais na pecuária, significa uma quebra de paradigmas mesmo nos tempos atuais. Conte como foi chegar a este mercado e ser a primeira mulher à frente da presidência da Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Teresa Vendramini – Minha família é de produtores rurais, há mais de 80 anos, então foi natural me colocar nesta posição. Eu gosto de falar que era o meu momento de assumir este legado e vir trabalhar com eles em uma propriedade rural. É muito diferente estar passando uma temporada na fazenda, como férias e datas comemorativas, de estar à frente do negócio. A gestão de uma propriedade rural é completamente distinta. Hoje existe um universo de informações e tecnologias, para isto foi necessário estar disposta ao aprendizado. Uma gestão de ponta exige conhecimento técnico e a liderança de colaboradores treinados e preparados. Eu não tenho formação na área, sou socióloga de formação, e na hora que entrei no negócio para a gestão da propriedade comecei a aprender e a me aprofundar sobre o setor. Fiz muitos cursos e seminários, procurei ter um aprendizado de consistência em entidades de ponta como a Esalq/USP e a Embrapa. Visitei muitas cidades e propriedades rurais para conhecer o trabalho in loco. Aprendi a importância de ter ao meu lado bons profissionais. No caso da pecuária, ter bons veterinários e agrônomos foi decisivo para o sucesso do negócio. Há profissionais que estão comigo há mais de 10 anos. Isto não apenas encurtou meu caminho na propriedade como possibilitou uma visão ampla. Neste momento, eu recebi o convite do Marcelo Vieira, presidente da Sociedade Rural entre 2017 e 2020, para que fizesse parte da diretoria. Eu aceitei com o desafio de montar um departamento exclusivo de pecuária na entidade, vi como uma oportunidade. Durante meu mandato trabalhei muito e colhi bons resultados. Isto abriu caminho para a posição atual. A conexão que estabeleci com produtores rurais em todo o Brasil foi um fator determinante para entender as necessidades do setor, durante 3 anos eu ouvi muito e aprendi com eles. Hoje reconheço que esta jornada foi fruto de trabalho e persistência e, principalmente, a compreensão de que trabalhamos unidos e pelo bem comum. Um trabalho consistente e que espero deixar como legado

 

 

TW – Você sempre foi atuante no setor e defende uma atualização do segmento. O que considera importante ser revisto e inovado?

TV – Acredito que temos um caminho a evoluir quanto à regularização fundiária. É urgente a aprovação de um projeto amplo neste tema para o Brasil. Durante décadas, famílias foram incentivadas pelos governos a migrarem para regiões distantes e iniciar atividades agropecuárias. Foi o trabalho destas famílias que permitiu o avanço da produção de alimentos no Brasil, não apenas de produtos voltados à exportação, que vem garantindo o superávit na balança comercial brasileira, mas também os itens básicos, que movimentam a economia local e garantem emprego e renda nas comunidades. No entanto, a titulação de boa parte destas terras nunca foi regularizada, e muitos produtores, especialmente os pequenos, não conseguem obter financiamentos e nem comprovar que cumprem as regras ambientais já que, sem acesso à regularização fundiária, sequer conseguem finalizar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Também considero necessário evoluir na questão do escoamento da produção para os portos centrais de abastecimento (interno e externo). Nossa infraestrutura e logística é deficitária e eleva o custo dos produtos, além de trazer prejuízo à segurança sanitária. Ampliar a conectividade no campo e massificar o acesso à tecnologia para os produtores menores é outra necessidade. Isso possibilitará desenvolvimento e integração. Mas as coisas são possíveis com ações conjuntas entre governo, entidade e setor privado. Discordo de ações isoladas que vêm sendo encaminhadas ao poder judiciário na tentativa de invalidar a legislação. O nosso Código Florestal Brasileiro, aprovado em 2012 após ampla discussão com a sociedade, precisa ser implementado de forma efetiva, permitindo também a fiscalização. Tudo isso deve ser à base para um avanço no tema.

 

 

TW – À frente da SRB, você pode liderar debates como o Programa de erradicação da febre aftosa no país. Quais são as pautas que considera prioridade para o agronegócio hoje?

TV – Defendo um conjunto de tópicos que devem caminhar juntos. Um setor tão amplo e com suas variáveis precisa unir meio ambiente, sustentabilidade, alimentos saudáveis, bem-estar animal, defesa sanitária, implementação e avanço de tecnologias de baixo carbono, como os sistemas de melhoria e erradicação da degradação de pastagens (ILPF, ILP) e, claro, crédito agrícola com juros compatíveis à realidade do produtor.

 

 

TW – O fazendeiro tem o desafio de enxergar a fazenda como empresa. Como você acredita que deve ser a gestão da fazenda? O que é possível implementar de inovação na gestão de uma propriedade rural?

TV – O fazendeiro tem, entre seus desafios, a gestão da propriedade de forma cada vez mais rentável e profissional. É necessário avançar para um outro patamar. Vivemos preços históricos em setores como a pecuária de corte e a produção de soja e milho, mas também tivemos um aumento significativo do custo de produção. O produtor rural que não estiver adequado e preparado para uma gestão profissional, ou muito apurada, terá problemas em breve. O desafio de seguir a inovação é diário, e nos últimos anos, um fator competitivo decisivo. Nós tivemos um avanço relevante com a Embrapa, temos uma história de 40 anos de inovação, que deve ser ressaltada e mantida. Este salto de produtividade transformou nosso país em uma potência mundial agroexportadora. Ficou evidente que saímos de uma situação de dependência externa de abastecimento e nos tornamos um grande fornecedor mundial de alimentos. E de alguma maneira contribuindo para a segurança alimentar global. Em pouco menos de 40 anos, a produção agrícola brasileira aumentou 385%, enquanto a nossa área de cultivo aumentou apenas 32%, isto mostra o uso inteligente do espaço e da tecnologia no setor. Esses dados corroboram a afirmação de que avançamos de forma eficiente, sendo inovadores. Os produtores rurais devem ter este propósito, manter o crescimento de forma cada vez mais sustentável. Nós temos uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo, e isto é um grande desafio. Seguir este caminho e sempre usar práticas legais, alinhadas ao Código Florestal, é nisso que estamos sempre conectados.

 

 

TW – Produzir mais sem abrir novas áreas é o grande desafio do agronegócio. Como conseguiremos isso para atender à responsabilidade de alimentar o mundo com sustentabilidade?

TV – É necessário o cumprimento da lei e o respeito à legislação brasileira pelo produtor rural. Não tem outra forma de evoluir se não avançarmos em conjunto com a defesa sanitária e a sustentabilidade. O setor já vem no caminho evolutivo desde a década de 1970 com a revolução verde. O caminho seguiu nas décadas seguintes com a adoção do plantio direto em 1980 e com os avanços na biotecnologia, permitindo duas safras ao ano a partir da década de 90. Em 2000, avançamos com a agricultura de precisão e a importante integração entre lavoura, pecuária e floresta, um grande marco no setor. Em 2017, a tecnologia entrou de vez nas produções com a agricultura 4.0. Neste caminho de tecnologia que estamos seguindo, é possível regenerar as pastagens degradadas. As iniciativas voltadas a práticas sustentáveis são incentivadas pelo chamado plano ABC, com foco na Agricultura de Baixo Carbono, que oferece crédito subsidiado, dando oportunidade para o produtor se adequar e regenerar a terra. Seguindo este caminho, a agricultura e pecuária de baixo carbono vão garantindo produtividade, manutenção da fertilidade do solo e, com o reforço das novas tecnologias, avançam na proteção do solo e da água. Este é o reflexo de uma evolução trabalhada em conjunto com pesquisa, conhecimento e experiência prática. A preocupação com a redução dos impactos causados pelo uso de defensivos levou à mais pesquisas e ao uso de moléculas mais eficientes, biotecnologia e bioinsumos. A discussão sobre o uso racional de defensivos, adubos e fertilizantes é uma realidade em nosso país, que envolve pequenas e grandes propriedades. Encontramos o manejo adequado de pastagens e a conversão de áreas cada vez mais regeneradas, que garantem a segurança animal e da produção, consequente[1]mente, o que se vende está cada vez mais orgânico e livre de toxinas. Este conjunto evidencia uma tecnologia de ponta e reflete no aumento da produtividade e na qualidade dos alimentos.

 

 

TW – Hoje o agro é uma pauta conhecida da maioria das pessoas, mas ainda há muitas conclusões equivocadas sobre o trabalho desenvolvido no setor, principalmente nas grandes propriedades. Você acha que falta comunicar de maneira diferente o trabalho e o setor? O que considera importante pontuar?

TV – Mesmo com a pandemia da Covid-19 assolando o mundo em 2020, o agronegócio brasileiro se mostrou forte na exportação, ampliou o número de países compradores e o número de produtos vendidos. Para 2021, temos uma estimativa de safra que deve totalizar 262 milhões de toneladas, um recorde de produção, ficando, provavelmente, 3,2% acima da produção de 2020. Nenhum outro setor teve este resultado, e o Brasil se consolidou na liderança mundial. Mas nada disso impediu que o setor continuasse a ser muito cobrado. A imagem externa é equivocada. É necessário mudar o discurso e intensificar uma comunicação positiva, uma maior união do próprio setor para mostrar os avanços. Contar a história faz parte de uma narrativa positiva, um setor que investe em tecnologia de ponta, para o aumento de produtividade e qualidade, e o cumprimento das leis, os ganhos. Ampliar a mobilização para combater os incêndios, reforçar a fiscalização quanto aos crimes ambientais e impedir que cada vez mais que eles sejam cometidos será um movimento positivo. Minha preocupação como presidente é posicionar a entidade e seus membros contra práticas ilegais, que não podem ganhar força e deteriorar um setor que gera tanta riqueza ao país. Devemos ser duros no combate a crimes ambientais. Como produtora rural, devo sempre ter esta ação e esta fala, assim incentivo a união do setor.

 

 

TW – Qual a importância do pequeno produtor no setor e como introduzi-lo às novas tecnologias? Como ampliar seus rendimentos e sua participação de mercado?

TV – Hoje os pequenos produtores representam 80% do setor, 77% dos pequenos têm áreas inferiores a 4 módulos fiscais, o que, na maior parte das regiões, varia entre 20 e 80 hectares. Poucos deles têm curso superior, e a gestão do negócio é feita pela família. Neste cenário, é importante ressaltar a participação expressiva desse grupo na produção da cesta básica. Segundo o IBGE, no censo de 2017, 70% do feijão, 34% do arroz, 87% da mandioca e 60% do leite, ambos produzidos no Brasil, vem do pequeno produtor. É necessário levar capacitação e tecnologia para este grupo de produtores, pois eles precisam estar adequados à nova demanda. Acredito que o cooperativismo é um caminho para atender a este segmento do agronegócio, além do incentivo à extensão rural, a programas voltados à educação no campo, amplamente ofertados pelo poder público no passado, mas que também podem ser viabilizados nesta união de esforços com o setor privado. Na SRB temos um trabalho junto aos produtores, temporariamente suspenso em função da Covid-19, para levar treinamentos e capacitação, e contamos com a participação maciça dos produtores e suas famílias. A regularização fundiária é uma pauta a ser trabalhada com este público, a qual permitirá sua expansão e será o caminho que levará ao acesso de crédito. É importante que entidades do setor atuem em conjunto na valorização destes produtores, com políticas públicas coerentes também com esta realidade.

 

 

TW – O Brasil já foi acusado de ser um “eterno fornecedor de commodities”. No entanto, os números do setor agro se mantiveram em meio à crise da pandemia da Covid-19 em 2020, alguns segmentos inclusive superaram seus resultados. Qual sua análise sobre o tema?

TV – Temos que ter uma visão abrangente sobre o momento. A crise sanitária que o mundo vive é transformadora, onde a importância à vida nunca ficou tão evidente. O mundo se conectou à importância da saúde, mas principalmente da sanidade humana e animal e à interdependência entre elas. A demanda mundial por alimentos in natura cresceu e o Brasil teve vantagens competitivas. Foi o momento de demonstrar a consistência do sistema sanitário no campo brasileiro e em seus produtos. A eficácia de nossos protocolos ficou evidente a ponto de nós, como produtores, sermos surpreendidos de forma positiva com os avanços do Brasil neste quesito O país se mostrou pronto para atender à demanda mundial com credibilidade para continuar exportando e produzindo em segurança. A nossa defesa sanitária, dentro do agronegócio, caminhou muito firme e centrada, demonstrando sua força e sua competitividade. Somos a maior fábrica de alimentos a céu aberto. No meu ponto de vista, o lado positivo que precisa ser ressaltado é que o setor foi um grande gerador de empregos em meio à crise. Se olharmos pelo ponto de vista da sustentabilidade, onde o tripé social-econômico-ambiental é a base, o agro brasileiro mostrou sua importância na sustentabilidade econômica e social durante a pandemia da Covid-19. Fomos capazes de abastecer milhões de pessoas ao redor do mundo com segurança alimentar e geração de emprego. O Brasil tem hoje mais de 27 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, e a geração de emprego é fundamental para suprir a demanda um viés social e sustentável que foi evidenciado. Atualmente, 20% da população ocupada está no agronegócio, que envolve o setor primário, além de serviços e indústria. Este resultado mostra que se trata de um setor organizado e preparado, que investiu alto em tecnologia para atender ao desafio imposto ao longo dos anos. Mostramos o potencial na produção de riquezas em alto nível e sendo simultaneamente sustentáveis. Acredito que este papel do agro é um exemplo a ser seguido.

 

 

TW – A China é, sem dúvida, o principal mercado dos produtos brasileiros. Ainda é possível diversificar e abrir novas possibilidades e canais para o Brasil? De que forma você vê o cenário mundial e como inserimos o país neste contexto?

TV – A China é o principal parceiro comercial de fato, mas é importante considerar a história por trás deste cenário. Em 2018, a peste suína africana dizimou a produção de suínos na China e, desde então, eles estão reconstruindo o sistema de forma mais avançada e com o uso de novas tecnologias. Com isto, a demanda interna de grãos cresceu. Houve uma mudança estrutural na cultura do agronegócio chinês, o que levou o país a ser o maior importador de soja, milho e outros produtos. No entanto, eles também se tornaram grandes compradores de carne. Hoje são os principais compradores de carne bovina, suína e de frango exportadas pelo Brasil. As exportações do agronegócio como um todo alcançaram US$ 100,8 bilhões em 2020, alta de 4,1% em relação a 2019. O maior destaque foi o complexo de soja, com US$ 35,2 bilhões. No caso da soja em grão, por exemplo, a China comprou 73,2% de tudo o que o Brasil exportou. Atualmente, exportamos em grande escala também para outros mercados, como Hong Kong Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Egito, Arábia Saudita, União Europeia, Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai, Estados Unidos e México. E entre os produtos exportados não estão apenas grãos e carne bovina, somos grandes exportadores em setores como o algodão e a carne suína. Isto mostra que o país está diversificando seu mercado comprador e os produtos vendidos. Hoje o Brasil é um grande player mundial, fornecedor de alimentos com segurança e qualidade, que confirma sua vocação no setor de agronegócio e o transforma em geração de renda e desenvolvimento.

 

 

TW – Existe uma grande polêmica entre o agronegócio e o meio ambiente. O que você considera ser o grande equívoco desta polêmica? Como o país pode evoluir no assunto?

TV – É muito importante esclarecer que os produtores rurais são os que mais dependem do meio ambiente, se houver danos ele será o mais prejudicado. Os danos de imagem que o setor vem sofrendo, nacional e internacionalmente, prejudicam a compreensão da realidade, pois transformam a força e riqueza do setor em vilão. A polêmica é um equívoco, o Brasil tem um dos códigos florestais mais rígidos do mundo, que contêm regras para conservação e responsabilidade do produtor. É um marco regulatório para conservação ambiental que foi aprovado em 2012, vigente há quase 10 anos. A sociedade brasileira concordou e chancelou este código. No caso da Amazônia, onde está o centro desta discussão, o código obrigava o produtor a preservar 80% da área de sua propriedade, não podendo sofrer alterações em seu ambiente nativo, uma grande ação de preservação. Os 20% restantes são livres para o cultivo e produção. Os números mudam em algumas regiões, como em São Paulo, onde a preservação obrigatória da propriedade é de 20%. O fato é que estamos diante de um avanço em política ambiental, que mostra o amadurecimento do setor e da legislação. Sem falar que temos um dos sistemas de energia renovável mais eficientes do mundo. Nossa energia é limpa, com fontes renováveis como hidráulica, eólica e solar. Além dos avanços na bioenergia, proveniente da biomassa, esse tipo de energia pode ser utilizada para produzir combustíveis, eletricidade e calor, sendo considerada uma alternativa às fontes de energia convencionais, que vigoram na matriz energética mundial por serem de qualidade e ambientalmente correta. A evolução é contar nossa história, mostrar internamente e ao mundo as melhorias da nossa produção, o uso de alta tecnologia que permite a baixa emissão de carbono. Assim, é possível evidenciar os avanços e principalmente os pontos positivos do setor.

 

 

TW – Muito se fala sobre commodities ambientais e a métrica do carbono, mas na prática, como funcionam? Em que posição o Brasil se encontra? Como trabalhar melhor este potencial?

TV – A realidade do mercado de carbono no Brasil é antagônica à nossa potência. O Brasil é o sétimo do mundo em geração voluntária de créditos de carbono; apesar de termos uma matriz energética limpa e a maior floresta tropical do mundo, estamos atrás de países como Peru, Colômbia e outros da América do Sul muito menores. É necessário trabalhar em uma agenda, favorecendo o acesso do Brasil às inúmeras oportunidades deste mercado. Do ponto de vista do produtor rural, destaco que os obstáculos encontrados para efetivamente ter acesso a este mercado são enormes. Os custos dos projetos são elevados, envolvem coleta e análise de solo, medição do carbono, certificação, infraestrutura e fertilidade do solo etc. Outro ponto importante é como se organiza a distribuição dos rendimentos obtidos no mercado de carbono dentro da cadeia produtiva. Posso citar como exemplo o projeto RenovaBio, que vem permitindo a emissão de títulos chamados de CBios por parte das usinas que processam a cana-de-açúcar. Explicar o mercado de carbono é algo complexo, mas de forma simplificada podemos dizer que ele se caracteriza pela venda dos créditos de carbono entre um país que os detém, ao ter reduzido sua emissão de gases causadores do efeito estufa, como o dióxido de carbono, para um país que precisa diminuir suas emissões, mas não atingiu suas metas. Ao produzir o etanol e reduzir o uso de combustíveis fósseis, o setor sucroenergético está contribuindo neste cenário, por isso emite os CBios e obtém recursos através deles. Mas a grande discussão no momento é quanto deste valor vai ficar com o produtor rural e quanto fica com a indústria. Quer dizer, ainda temos um longo caminho de debates por aqui. Entendemos que os recursos deveriam ficar majoritariamente com o produtor, proprietários e responsáveis pela conservação das vegetações nativas em suas propriedades, por exemplo.

 

 

TW – Com o crescimento do setor, novos investimentos e oportunidades são naturalmente crescentes. Com a otimização das produções, as agtechs ganharam espaço. De que modo você enxerga esta inovação, vantagens, desvantagens e possibilidades?

TV – A crise mundial da Covid-19 teve o lado positivo de impulsionar a inovação e o acesso à tecnologia. Com isto, as agtechs foram um ganho ao setor. Eu vejo as tecnologias muito presentes na vida do produtor rural, do pequeno ao grande. Sua contribuição na produtividade é um ponto importante e tem sido ressaltado. A competitividade métrica é possível por meio de tecnologias. As startups são um incremento grande no agronegócio brasileiro, os aplicativos específicos são ferramenta de trabalho para o produtor. Encontramos a presença de startups no controle de pragas e doenças que permitiram uma evolução de técnicas e recursos na propriedade. Os aplicativos climáticos favoreceram o crescimento das safras de maneira inovadora. Interessante neste contexto é avaliar as necessidades e o uso destas ferramentas. Estamos promovendo na SRB um debate sobre o assunto como forma de mapear e ajudar os produtores no acesso às tecnologias. O produtor faz parte deste mundo tecnológico, e isto favorece o setor, seu crescimento, contribuindo com a melhora da produção. A inovação é uma vantagem competitiva, de possibilidades infinitas.

 

 

TW – Você já declarou que sempre buscou conhecer melhor o perfil das mulheres do agro: o que pensam, o que temem e o que buscam. O que pode comentar sobre este tema?

TV – Segundo o levantamento da CNA, feito com 1.840 sindicatos rurais no Brasil, apenas 89 mulheres estavam na presidência. Isto representa menos de 5% da participação neste segmento. Esta realidade motivou que muitas mulheres estivessem ao meu lado quando cheguei na presidência da SRB. Vejo que já estamos caminhando, não tão rápido quanto gostaríamos, pois somos um país muito patriarcal. O resultado, embora pequeno, mostra- -se significativo se olharmos que as mudanças estão acontecendo. Existem grupos organizados pelo país, eu faço parte de vários, e a preocupação de acesso ao conhecimento é um ponto central nos debates. Cada vez mais as mulheres estão se aprimorando e estudando. A necessidade não é apenas de questões básicas e técnicas da propriedade, como também de gestão, economia, mercado. É necessário se posicionar e demonstrar conhecimento. A presença crescente das mulheres no agronegócio é um caminho sem volta. Já evoluímos muito e seguiremos conquistando espaço com competência e eficiência.

 

 

TW – A sucessão familiar e a manutenção do homem no campo sempre foram desafios deste setor. Qual seu olhar e receita para isso?

TV – De fato, a sucessão e a permanência no campo são pautas desafiadoras. O campo tem mudado muito ao longo dos anos, e o processo de sucessão familiar vem sendo mais estruturado nas propriedades rurais. Com o avanço da tecnologia, permitiu-se que as novas gerações fossem inseridas na gestão das propriedades, como também a gestão passou a ser feita de qualquer lugar, envolvendo pessoas, processos e controle de todas as atividades. Não há receita, pois cada núcleo familiar tem uma dinâmica diferente, um modelo de gestão único. Deixo aqui algumas dicas:

  • Sem profissionalização não há continuidade;
  • O campo está mais atrativo e tecnológico, consequentemente exigindo mais liderança e preparo;
  • O processo de sucessão deve ser iniciado o quanto antes, preparando a família, os gestores e sócios para a perpetuação dos negócios.

 

TW – Qual sua visão para o agronegócio nas próximas duas décadas? Como o produtor se manterá na atividade?

TV – Na minha opinião, o futuro da atividade é totalmente ligado à tecnologia. Percebemos um futuro de fazendas conectadas: lavouras, animais, equipamentos e pessoas. Este conjunto de novas ferramentas e possibilidades vai contribuir na tomada de decisão na gestão das propriedades. O produtor deverá ter uma gestão mais “afiada”, assertiva, e a tecnologia possibilitará isto. Vejo um futuro diferente de 20 anos atrás, onde a conectividade é necessária. Entre pautas de DNA, nanotecnologia, 5G, o agronegócio está inserido no futuro e a adequação do produtor rural é inevitável.

 

 

TW – Qual legado o Agronegócio deixará para o Brasil?

TV – Quando olhamos para um setor que é responsável por 26% do PIB brasileiro em 2020, vemos um agronegócio como líder mundial na exportação de alimentos e fibras. Este futuro é de avanço tecnológico e de consolidação de um trabalho mais sustentável e integrado. Nosso legado para o país é a possibilidade de inovar e se atualizar, melhorando a qualidade de vida das pessoas, gerando emprego, apresentando alimentos cada vez mais saudáveis e cooperando no combate à fome mundial.

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