Por que?

por The Winners
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Stefan Bogdan Barenboim Salej, Enviado especial Embaixador para América Latina e Caribe durante a presidência da Eslovênia do Conselho da UE

A humanidade progride através de soluções para as crises que enfrenta. E a administração das crises é indispensável para formatar o nosso futuro. Mas, sem dúvida, é fundamental saber o que aconteceu e porque aconteceu. Que estamos vivendo em tempos complexos, com milhares de mortes provocadas pelo coronavírus, todo mundo sabe. Mas, é absolutamente necessário, para podermos saber como viver o nosso futuro, entender porque e como isso aconteceu. Qual a raiz e qual a origem do problema. 

Impressionante é que num século em que a predominância da tecnologia foi mais rápida do que nos séculos passados, numa sociedade tão sofisticada, a pandemia tenha sido uma surpresa. Surpresa para quem, cara pálida? Para o cidadão comum, sim, mas para os governos, com seus aparatos de inteligência, pesquisa e tecnologia, é inacreditável. A velocidade da infecção e a sua extensão surpreenderam o mundo inteiro, mas até agora só se sabe que o vírus começou a se espalhar na China.

Aliás, os chineses reagem com um violência desproporcional a qualquer discussão sobre a origem do vírus. Podem reagir quanto quiserem, mas o fato é que ele veio da China. E o mais impressionante na história é que as sociedades tão poderosas e ricas como os países que compõem o Grupo dos 7, das mais ricas economias, estavam totalmente despreparadas para evitar a morte de milhares dos seus cidadãos.

Conclui-se que de nada adianta todo o poderio militar, econômico, tecnológico, financeiro, politico de um país como os Estados Unidos, se um miserável vírus vindo da China mata mais de 100 mil dos seus habitantes em 3 meses e desemprega 40 milhões. Sem falar dos outros países.

O fato é que os políticos que nos governam não estavam preparados para enfrentar esta crise. E até muito recentemente nem os pesquisadores estavam prestando atenção a este vírus. Até dezembro do ano, passado nenhum país destinou verbas para a pesquisa do coronavírus.

E a conclusão é que nenhum país estava preparado para esta pandemia. Às vezes se tem a impressão de que estávamos mais preparados para uma invasão de marcianos ou de discos voa-dores do que para uma pandemia desta proporção. E claro que os governos, que já andavam mal e perturbavam o mundo com suas políticas, só podiam reagir da forma que sabiam reagir e como reagiam a tudo o que acontecia: mal. Os milhões de desempregados e milhares de mortes surpreenderam os governantes pelo mundo afora.

E aí vem a discussão (ou melhor, a ação) do papel dos governos. Para os governos que estavam em crise, a pandemia só piora a situação. Mesmo para os que estavam em uma situação melhor, há uma piora da situação econômica e social. Na absoluta maioria dos casos, os líderes políticos estão lidando bem mal com a crise, e as mortes em número maior podem ser sim debitadas a eles. E aí vale a pena lembrar a gestão nas empresas, que também de repente não sabe como reagir a uma nova situação.

Em resumo, a crise mostrou todas as vulnerabilidades, seja dos países ou das empresas. Da noite para o dia, sem piedade. E as-sim, estamos perante uma nova realidade completamente diferente da que vivíamos até agora. E esta realidade, para a qual temos que nos adaptar e com ela construir o futuro, deve começar com a resposta a por que e como isso aconteceu. Não vamos ter tempo para discutir isso daqui a 100 anos, como estamos fazendo com análises da gripe espanhola.

Porque se não soubermos as origens, não poderemos evitar os desastres futuros. Para começar, os chineses podem espernear, gritar, ameaçar, fazer o que quiserem, mas o fato é foi que lá que começou a pandemia. E se quiserem ter a credibilidade do mundo, têm que ajudar a desvendar o mistério da origem do vírus.

A solução da crise ampla e irrestrita que a pandemia provocou, num país como o Brasil, é mais difícil e complexa do que em algumas outras partes do mundo. A brutal realidade sócioeconômica do país, escondida abaixo do tapete, apareceu com uma tal força que permitiu que os líderes políticos passassem a fazer o que lhes interessa: aumentar o poder politico para garantir seu futuro, sem sequer saber qual o futuro que o país pode ter.

O papel dos governos mu-dou de uma hora para a outra. A economia de mercado, que dominava a gestão do estado, cedeu a prioridade a soluções sociais, sejam elas de cunho econômico ou social. Ou os dois. Não é só o problema da mortalidade das pessoas, das empresas, dos empregos, são todos juntos.

E isso leva à mudança do modelo de gestão, da economia de mercado para um modelo social para qual o governo não estava preparado e não quer estar preparado. Mudou tudo. Os empregos não só desaparecem como estão transformando radicalmente o seu desenho existente até agora. Porque as empresas, em todos os setores, não serão mais iguais. E os empregos são consequência dos modelos que as empresas adotam.

O uso de tecnologias será mais intenso e o consumo será diferente. E o que vamos fazer com milhões de sub-empregados, sem perspectiva de um emprego de subsistência? No Brasil, esse lumpenempresariat, economia informal e as vezes empreendedora, representa mais de 100 milhões de pessoas, que se contrapõem a 30 milhões de empregados com carteira assinada.

Neste mundo diferente que estamos enfrentando e no qual vamos viver, os problemas que encontraremos serão diferentes do passado. Na área de políticas públicas, a negligencia com saúde pública, que de um lado nos deixa sobreviver com TBC, Zica, dengue, AIDS etc., terá que mudar. De que adianta estarmos indo para Marte e a Lua, se um Covid-19 derruba o mundo em que vivemos?

Erramos em identificar as prioridades da nossa geração, com escolha erradas dos políticos que nos guiam e administram nossos países. E esse erro está custando milhões de vidas.E as soluções para isso residem em fortalecer as sociedades democráticas e não o contrário, como alguns estão fazendo, destruindo-as.

O mundo experimentou durante a Segunda Guerra Mundial o combate contra o nazismo através da manutenção firme de sociedades democráticas que, como o Reino Unido e os Estados Unidos, venceram os países do Eixo. Mas, também naquela época, como agora, desprezou-se o perigo do nazismo, que não só matou seis milhões de judeus, mas ainda milhões de pessoas, e os países só reagiram quanto eles foram ameaçados, sem entender que a ameaça a um era a guerra a todos.

Assim, vamos agora enfrentar de forma abrangente a questão da solidariedade e cooperação. De um lado, temos o individualismo de salvar a si próprio, salvar a sua família, seu emprego, sua existência, e, de outro lado, sem uma solidária ação em comunidade, nada vamos salvar.

Ou seja, nem do ponto de vista médico, procurando vacina ou outro meio para resolver o problema de saúde, nem do ponto de vista social e econômico, faremos isso sozinhos. A solidariedade, e em especial com um governo despreparado e no melhor caminho para destruir ao invés de construir, será fundamental, inclusive no plano internacional.

Ninguém vai resolver nada sozinho. A questão da sobrevivência, da vida, se coloca com mais veemência perante a nossa geração. Nós temos que ter a responsabilidade, como sociedade, de re-solver bem, porque senão a pergunta que vem é, haverá outra geração?

Nossa responsabilidade, inclusive em dialogar, como cidadãos, com os políticos que nos guiam (esperemos que não para a morte, mas para a vida) é enorme. Uma sociedade que escolhe a morte como normal não sobrevive. A vida tem seu curso normal e nenhum governante tem direito de nos impor seu encurtamento pelos seus interesses ou os dos grupos, sejam econômicos ou outros, que representa.

O Brasil tem na sua herança cultural, diversidade e extensão, com riquezas naturais, uma extraordinária oportunidade de se reorganizar, de firmar seu futuro, com responsabilidade de suas elites políticas, porque o povo sempre foi maravilhoso, trabalhador e acima de tudo, brasileiro. À vida. L’Chaim.

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