Os efeitos da Covid-19 na educação

por The Winners
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Hubert Alquéres, Presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo

Se a pandemia do coronavírus tivesse ocorrido há dez ou quinze anos o que seria da aprendizagem de um bilhão e quatrocentos milhões de estudantes que agora tiveram suas aulas suspensas em todo o planeta?

Certamente haveria uma perda incalculável por ser muito mais difícil mitigá-la com as ferramentas disponíveis à época. A realidade hoje é outra. É possível dar continuidade ao processo de ensino/aprendizagem para boa parte dos estudantes por meio de modernas atividades remotas, graças às intensas e profundas transformações tecnológicas que vivemos nos últimos anos.

De um lado, educadores e gestores têm à mão plataformas e aplicativos, de outro, estudantes podem ter acesso a diversos conteúdos educacionais em decorrência da democratização da internet. Mesmo nas camadas mais carentes, a maioria dos jovens ou de suas famílias está conectada, especialmente via smartphones.

A chamada revolução 4.0 incidiu sobre a área da educação, redefinindo o papel da escola. Ambientes rígidos, como as salas com cadeiras enfileiradas e aulas expositivas, nas quais o professor tinha o monopólio do saber e da informação, fazem parte do passado.

Hoje os espaços são móveis e boa parte do conhecimento – e até da inteligência – está nas máquinas. Nesta nova realidade o papel do professor é o de facilitador da aprendizagem, curador do conhecimento e, principalmente, o de despertar nos estudantes o prazer por uma das habilidades que mais irão necessitar durante suas vidas: aprender a aprender. O protagonista do moderno processo de aprendizagem é o estudante. Cabe ao professor construir e orientar o caminho para ele assumir esse papel.

Hoje formamos jovens para profissões que ainda não existem, mas que serão uma realidade quando completarem seu ciclo educacional. Eles terão de enfrentar um mundo volátil, instável, complexo e ambíguo, sempre sujeito a um turbilhão de acontecimentos. O tsunami planetário provocado pela Covid-19 diz muito sobre estas características do mundo moderno.

Em consequência, tão importante quanto o conteúdo acadêmico passam a ser as habilidades sócio emocionais que farão a diferença na vida desses jovens. A missão do educador é contribuir para o desenvolvimento de resiliência, empatia, autocontrole e auto regulação e prepará-los para compartilhar ideias e conhecimentos.

Tais habilidades já são uma exigência do mercado de trabalho que se organiza de forma inteiramente diferente da era da produção em linha, que tinha uma estrutura hierárquica rígida. Requer uma mão de obra que saiba trabalhar em rede e em equipe, capaz de conectar as partes e o todo, e com espírito de liderança.

Houve outra mudança fundamental: ter bom ambiente de trabalho. Aprendizado e remuneração não são suficientes para o moderno profissional. Tão importante quanto é ter responsabilidades sociais. Só assim se sentirá realizado profissional e pessoalmente.

De outro lado, as modernas empresas começam a se estruturar em um tipo de capitalismo de partes interessadas, constituídas por seus acionistas, fornecedores e consumidores. Elas não mais se guiam apenas pela lógica do lucro. A ele agregam valores sociais e ambientais.

Uma das consequências das transformações que o mundo está passando é a “descoberta” do trabalho online, que já vinha crescendo antes mesmo da pandemia em função do uso da robótica e da inteligência artificial. Com o surto, esse tipo de trabalho deu um salto exponencial. E quando a crise passar, o mercado de trabalho não voltará a ser o mesmo, muitas de suas atividades continuarão a ser realizadas a distância.

Fenômeno semelhante se vê na Educação. É possível superar estes tempos de pandemia também com atividades remotas ou semipresenciais. Desde que as escolas se preparem para isso e que os professores estejam capacitados. Igualmente importante será envolver os pais para que parte do que é desenvolvido na sala de aula possa ser transferido pelo jovem
para o seu lar e incorporado aos seus valores.

Ressalte-se que atividades a distância não se limitam àquelas ligadas à tecnologia, as exclusivamente digitais. Ao contrário, elas precisam ser equilibradas com as práticas “sem tela”, de aprendizagens que não necessitam dos meios digitais.

Não sem razão, diversas escolas particulares já começaram a desenvolver estas atividades desde o primeiro dia da quarentena. A legislação nacional também foi flexibilizada para que a modalidade pudesse ser adotada e contabilizada dentro da carga horária mínima a ser desenvolvida neste ano pelas escolas. E as redes públicas adotaram o mesmo caminho.

Na maior delas, a rede Estadual de Ensino paulista, foi o próprio governador João Doria quem comandou o lançamento do Centro de Mídias do Estado de São Paulo, que se constituirá na plataforma de ensino de aprendizagem à distância para a rede pública.

Ainda assim, as limitações e a iniquidade da educação digital têm sido diariamente debatidas por especialistas. Os gestores têm enormes responsabilidades e devem optar por tecnologias mais acessíveis. As Secretarias de Educação vêm trabalhando nessa linha e muitas escolas privadas estão apoiando seus estudantes menos favorecidos.

A atual fase de paralisação das aulas oferece uma oportunidade para experimentação de novos modelos e novas maneiras de usar o tempo de aprendizado.

A necessidade de explorar como os estudantes podem aprender em lugares e momentos diferentes ajudará a entender melhor o potencial das soluções de aprendizagem digital e aproximar comunidades, lares e escolas. Os estudantes estão acostumados a um horário escolar e carga de trabalho fixos, mas novas soluções podem ser investigadas para oferecer agendas mais flexíveis e maior autonomia. Isso deve ser equilibrado com a orientação de seus professores para garantir que se mantenham envolvidos.

Capacitar professores para aproveitar ao máximo os avanços digitais também é essencial. Eles terão oportunidade para testar diferentes soluções e entender como a tecnologia pode ser usada para promover um aprendizado mais profundo dos estudantes. Eles precisam ser incentivados a pensar criativamente sobre seu papel como facilitadores da aprendizagem e curadores de conhecimento.

As diferentes soluções implementadas e seus efeitos devem ser cuidadosamente documentadas para que ideias e lições sobre sua eficácia possam ser compartilhadas e replicadas em outras escolas ou redes de ensino.

Atividades educacionais remotas estão sendo adotadas de forma massiva nessa transição. Vêm para completar, não para substituir o ensino presencial que continuará sendo importantíssimo. Vencida a tormenta é possível que muitas escolas adotem uma linha híbrida, composta do ensino presencial e à distância.

Há que se pensar no dia seguinte, quando a pandemia passar. Desde já todos estão se reinventando, o mercado de trabalho, as relações sociais e os ambientes de negócios. Tudo será diferente depois do fim do confinamento. Natural que aconteça o mesmo com a educação.

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