O setor de saúde no Brasil demanda tratamento

por The Winners
0 comentário
Claudio Lottenberg, Presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein

A saúde da população de um país é um direito social adquirido ao longo da história. No caso do Brasil, ela é até assegurada pela Constituição de 1988. A saúde não depende, portanto, do governo do momento ou da orientação política das autoridades. Dito isso, cabe a nós – a comunidade médica e científica – buscar a eficiência e a efetividade dos tratamentos para garantir o acesso universal à saúde, seja ela financiada pelo setor público e ou privado.

O sistema de saúde no Brasil é, em parte, vítima de uma tendência que, em si, é positiva. Ao longo dos últimos anos, políticas públicas aumentaram de forma expressiva a expectativa de vida do brasileiro. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o brasileiro que nascer neste ano viverá, em média, 76,7 anos, bem mais que os 69,8 anos de quem nasceu em 2000.

E seremos cada vez mais longevos. A expectativa de quem nascer em 2040 é viver 79,9 anos. Mais adiante, nossos bisnetos que vierem ao mundo em 2060 deverão viver, em média, mais de 80 anos (de acordo com a projeção atual, 81,2 anos).

A notícia é excelente, claro, mas o aumento da população idosa aumenta a pressão sobre um sistema de saúde que já enfrenta desafios enormes. É nessa faixa etária que os cuidados com saúde tendem a ser mais intensos, devido à maior ocorrência de doenças crônicas, que se tornam mais comuns à medida que a idade avança.

A saúde disputa espaço nos gastos públicos de natureza social, sempre inferiores às várias demandas. Atualmente, o Brasil gasta com saúde o equivalente a 9,2% do PIB (Produto Interno Bruto). O maior problema, no entanto, não é o volume total de recursos, mas a maneira é feita a divisão. Há uma evidente desproporção entre os sistemas público e privado.

O setor público, que atende 75% dos pacientes, usa apenas 50% dos recursos. Quanto ao setor privado de saúde, mesmo dispondo de mais e melhores condições, encontra-se aquém de suas possibilidades. Profissionais que atuam no sistema de medicina particular concordam que não há motivo para satisfação. Há erros, redundâncias, fraudes e utilização excessiva de exames caros.

Num momento em que a inflação do país se encontra abaixo da meta de 4% ao ano – em parte devido à desaceleração decorrente do isolamento social para combater a pandemia do coronavírus – a inflação médica assistencial de dois dígitos é o retrato de uma realidade que provoca danos à maioria.

O que fazer para mudar? A meu ver, a transformação virá com a maior utilização das ferramentas de qualidade previstas pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI), instituição de referência situada em Cambridge, no Estados Unidos, que apoia processos de melhoria de organizações de saúde em diversas regiões do mundo.

O IHI preconiza a adoção de um sistema de governança que estabelece mudanças na abordagem, estruturação e monitoramento dos serviços de saúde. Em primeiro lugar, é preciso foco na qualidade, segurança e eficiência dos serviços, de maneira que se atenda da melhor maneira as necessidades do paciente.

Em segundo, deve haver redução do custo per capita dos serviços de saúde, o que se obtém com foco no conhecimento científico para garantir a eficácia da aplicação dos recursos. Em terceiro, há uma abordagem populacional a ser levada em conta, com a multiplicação de experiências individuais bem-sucedidas e a adoção de estratégias de atendimento ajustadas às especificidades dos diversos grupos.

Tenho defendido também que o conceito da saúde deve ser ampliado. Questões como cidades sustentáveis e nutrição devem ser incluídas na agenda do debate nacional sobre saúde, da mesma maneira que a premente necessidade da transformação digital.

O mundo digital trará a transparência necessária, dará visibilidade às redundâncias, permitirá mudanças estruturais que levam à melhoria de processos. Defendo ainda a necessária inclusão da telemedicina como parte da prática assistencial.

A telemedicina nasce com o advento da telefonia, avança com os modernos mecanismos da transmissão de imagens e hoje se engrandece com aplicativos e ferramentas que ajudam até na propedêutica assistida.A atual política de distanciamento social tem impelido muitos profissionais da saúde a praticar a telemedicina. Os resultados têm sido animadores.

Casos de menor gravidade podem ser resolvidos remotamente. Casos mais graves pelo menos são objeto de uma triagem inicial, o que economiza tempo e recursos, ambos escassos e preciosos.É um exemplo de que a introdução das mudanças necessárias pode melhorar o quadro geral da saúde no Brasil.

You may also like

Deixe um Comentário