O caminho do renascimento: de volta para o futuro

por The Winners
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Jan Eichbaum, Cônsul Geral do Luxemburgo

Atenienses e espartanos não se davam bem. Os primeiros consideravam os segundos abrutalhados, enquanto estes viam os conterrâneos como arrogantes. Quando, porém, Dario invadiu a Trácia, eles se uniram.

Mais tarde, o império persa faria igual: diante do avanço de Alexandre, babilônios e egípcios, que não morriam de amores uns pelos outros, lutaram ombro a ombro. Moral do exemplo: se o preconceito é uma doença, o medo pode ser um bom remédio.

Hoje estamos entrincheirados para outra guerra. De um lado o planeta, de outro um inimigo, o Covid-19, bem menor, mas mais devastador que as tropas de Dario e Alexandre. Assim como na antiguidade, marchamos lado e lado. E com medo. Assim como antes, é uma boa hora para refletir.

Na atual fase da pandemia ainda há muita incerteza pela frente. Devoramos notícias, fazemos projeções e lavamos as mãos (pelo menos com intenção diferente da de Pôncio Pilatos). Tudo é necessário, mas trata-se de reações intuitivas.

Podemos ir mais longe nessa guerra, podemos aproveitar a situação para mudar paradigmas. Nosso cérebro é uma máquina de hábitos

Que o mundo será outro depois da pandemia, não há dúvida. A própria natureza se encarrega de apontá-lo: o desmatamento reflui, o azul reaparece nos céus de Wuhan.

Imagens de satélite da Nasa mostraram níveis de poluição diminuindo sobre a China, com o surto de coronavírus provocando uma desaceleração econômica. E a água dos canais de Veneza fica límpida após anos. Com menores emissões de carbono vemos um planeta que só existia na imaginação dos ambientalistas. Será um breve interlúdio ou o início de uma desaceleração responsável?

O debate está apenas começando.

Talvez governos e corporações acordem, também, para os benefícios do home-office, diminuindo o custo do aparato em prédios e estruturas caras, e dando ao funcionário público e privado a opção de administrar sua produtividade. Teremos, assim, um alívio no transporte público e ganho de mobilidade.

Ver cidades mais vazias (e mais amigáveis com o meio ambiente), parecia algo restrito ao mundo das distopias. Atualmente, basta abrir a janela.

Mesmo as relações internacionais se redesenham de alguma forma. O Secretário das Nações Unidas, António Guterres, pediu que os conflitos entre países, guerras civis e agressões como lançamento de mísseis fossem interrompidas durante o surto.

Há um tempo seriam palavras ao vento, agora nem tanto. Há possibilidade real de uma diminuição das mortes, das migrações forçadas e de que se faça algo pela saúde das populações vulneráveis.

O momento se presta para observar o que está sendo feito e de onde pode se obter re- cursos para um co-working global.

A União Europeia, a propósito, nos oferece um bom exemplo. Um de seus projetos, o Enrich, tem como objetivo estimular projetos de desenvolvimento além das fronteiras do Velho Mundo. Os gregos e persas de séculos atrás
já nos ensinavam: quanto mais lutamos entre nós, mais frágeis nos tornamos.

O consórcio, que reúne países como Luxenbourg, Alemanha, Portugal, Bélgica, Hungria, Áustria, Espanha e Turquia, busca facilitar a comunicação e agilizar projetos de pesquisa científica, inovação e negócios.

Seus diversos programas dão suporte tecnológico e recursos para trabalhos em áreas como urbanização, meio-ambiente, educação e energia. É uma troca de conhecimentos e práticas com parcerias no Brasil e países da América Latina.
Esse espírito de cooperação, antes visto como algo extravagante e desaconselhável, agora deve se expandir e se tornar uma tendência. O estado de exceção em que vivemos aponta para isso, pelo menos.

Olhar para dentro

Até aqui falamos de mudanças que afetam o cenário natural e as instituições. Além delas, porém, mudanças interiores estão ao nosso alcance.

Em uma quarentena não há noticiário, bate-boca de parentes nas redes sociais, bravata presidencial ou maratona da Netflix capaz de nos afastar por tanto tempo de nós mesmos. Tudo convida ao exame de consciência. Que ele venha, então. Que pensemos sobre valores, comportamentos e propósitos capazes de nos levar a um modo de vida mais significativo.

A vida é feita de tempo e agora perdemos a desculpa de não o ter. Uma fartura de segundos, minutos e horas nos desafia a deixar de lado as distrações, a olhar para dentro e a nos inspirar.

Podemos, por exemplo, sofrer o contágio das ações gentis que têm ocorrido desde o início do surto. Falo de gestos como o dos italianos que cantavam à janela para aliviar o desconforto dos vizinhos, https://www.youtube.com watch?v=BSWYSww-RlY, ou dos espanhóis que jogaram bingo da varanda para se distraírem, https://twitter.com/i/status/1239164977052819459, ou mesmo do aplauso de reconhecimento aos profissionais de saúde. Essas iniciativas logo se reproduziram mundo afora. Museus e orquestras abriram seus acervos para que confinados e
confinadas possam conhecê-los virtualmente.

https://www.mentalfloss.com/article/75809/12-world-class-museums-you-can-visit-online https://onlineorchestra.com/ https://www.digitalconcerthall.com/en/home
https://nyphil.org/playson
https://www.accuradio.com/

Escolas têm oferecido cursos, emissoras de streaming têm aberto seu sinal e contadores de histórias têm se apresentado on-line para ajudar pais a lidar com a inquietação das crianças.

O fato de as pessoas terem se manifestado através da música e de histórias talvez não seja uma coincidência. As artes engrandecem a imaginação, nos ajudam a lidar com emoções e levam a mente a novos horizontes. E, como nos casos acima, podem também abrir nossos corações para a diversidade e a empatia.

Cada vez mais observamos a importância da cultura em nossas vidas, seja em tempos normais, seja em tempos de desafios como estes. A letra do hino da União Europeia (o último movimento da nona sinfonia de Beethoven), tirada do poema “Ode à Alegria”, de Schiller, nos traz a visão de povos ligados pela fraternidade. É um sentimento que inspira os ideais europeus de liberdade, paz e solidariedade, exatamente o que precisamos nos dias de hoje. Felizmente essa aspiração nunca desapareceu. Ao contrário, foi passada de geração em geração, como se pode ver nessa canção dos Beatles:
“When you’ve seen beyond yourself, then
you may find peace of mind is waiting there. And
the time will come when you see we’re all one,
and life flows on within you and without you”.
http://www.listube.com/Artist/The%20Beatles/

O caminho está indicado. É preciso olhar para além de si

O bem estar da população, a qualidade no saneamento, na alimentação, na educação e na cultura tem que ser um compromisso de todos. Uma catástrofe na saúde nos fez trabalhar, pela primeira vez, como um organismo. Que aproveitemos a ocasião para olhar para quem está ao lado e é carente das necessidades básicas. A solidariedade faz mais bem a quem a exerce do que a quem a recebe.

Tempos de transição levam a mudanças concretas. É a hora, portanto, de rever conceitos, assim como os gregos e persas das (alerta de ironia) Guerras Médicas fizeram há séculos. Apego a bens materiais, consumismo, excitação ansiosa e abuso da natureza não têm sido de grande ajuda. Por que não tentar outro caminho?

O Covid-19 é só o primeiro de uma série de vírus que virão nos fazer uma visita. A circulação da vida moderna provavelmente abrirá a porta para outros. Ele próprio, aliás, pode sofrer mutações e ficar mais agressivo se não for combatido globalmente.

A partir de agora, um morador do Upper East Side não ficará cem por cento tranquilo enquanto o habitante de uma aldeia de Burkina Faso estiver sob ameaça de contaminação. Estamos aprendendo sobre interdependência na marra. Não importa. O altruísmo constrangido é melhor do que a indiferença aberta.

Para concluir, uma frase do escritor italiano (florentino na época) Giovanni Boccaccio: “Ter compaixão pelos que sofrem é uma qualidade que todos os seres humanos deveriam possuir, especialmente aqueles que um dia precisaram de conforto e o encontraram na ajuda de outros”. Boccaccio escreveu seu “Decameron” entre 1348 e 1353.

O livro reúne cem contos narrados por sete moças e três rapazes que se abrigaram numa casa nos arredores de Florença para fugir da Peste Negra. Em dez noites, seus personagens encontraram consolo na alegria, na arte, na comunhão e na sensibilidade. Quando a peste refluiu, a civilização ingressou num período de transformações até hoje admirado por nós. Ele se chamou Renascimento.

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