O Brasil do Jeca Tatu

por The Winners
0 comentário
Artigo escrito pelo economista Roberto Luis Troster

Monteiro Lobato, um ilustre paulista, nacionalista apaixonado, acreditava que o Brasil podia fazer melhor. Autodenominou-se uma voz do sertão para dizer às gentes da cidade, os problemas do país. Inconformado fez campanhas pelo petróleo brasileiro, por melhorias na saúde, por divulgação da cultura, por sustentabilidade na agropecuária e pela criação da siderurgia local, entre outras. Em algumas, teve sucesso notável. Também deixou uma vasta obra literária. Seu legado mais importante foi sua influência no pensamento nacional de que é possível melhorar o país sonhando. Seu conto mais inspirador foi Jeca Tatu.

É um exemplo emblemático de superação da estagnação. Teve uma tiragem da ordem de 20 milhões de exemplares e há relatos de que modificou a vida de muitos. É verossímil fazer um paralelo entre essa história e o Brasil de hoje.

O personagem era dono de um sítio no interior. Possuía os recursos para uma vida com fartura, mas não os aproveitava. Tirava apenas para seu sustento, sua produção era bem aquém de seu potencial. Contrastando, seu vizinho, um italiano, produzia em abundância e melhorava seu padrão de vida a cada ano que passava.

Nas últimas décadas, o Brasil, país do Jeca Tatu, teve um desempenho bem aquém de seu potencial e abaixo da média dos demais países emergentes. Possui os recursos: gente, capacidade de produzir, riquezas naturais e acesso a mercados, mas não usufrui de todo seu potencial.

Um doutor diagnosticou o problema do caipira, a ancilostomose. Popularmente conhecida como “amarelão”, é causada pelo bicho do pé. Após convencê-lo da causa de seus males, com prescrição da adoção do uso de botinas e de tomar o remédio receitado, curou-o.

Jeca Tatu deu a volta por cima. Mudou tanto que deixou o doutor fascinado, tamanha a mudança, e espantou até o vizinho italiano, que, admirado, admitia nunca ter visto um sítio produzindo tanta abastança. O Brasil é capaz de fazer o mesmo.

O “amarelão” do Brasil chama-se obsolescência. Evolui-se aqui, mas a uma velocidade menor que no resto do mundo. O país não se adapta à rapidez necessária. Há medo de mudanças. Com isso, a defasagem aumenta a cada dia que passa.

A obsolescência é dissonante com uma característica típica do país: a ginga, o jogo de cintura dos brasileiros. Não surpreende a ninguém o desempenho espetacular nesse quesito. Em concursos de publicidade, em soluções empresariais, em novos produtos e em adaptações a situações difíceis, o Brasil é campeão, não tem rival.

Mas justamente a característica mais forte é a menos utilizada para promover o crescimento.

Pelo contrário, o rebolado tupiniquim é abafado pelo medo à mudança. Num mundo em transformação, a uma velocidade cada vez mais rápida, a obsolescência é a regra aqui. Ilustrando o ponto, no ranking de competitividade do Banco Mundial, o Brasil está caindo de posições.

Está em 124º, num conjunto de 190 países, atrás de vizinhos como Colômbia, Peru e Uruguai.

O motivo é que os demais países se adaptam mais rapidamente às mutações no ambiente empresarial. Há avanços aqui, mas são mais lentos. É triste, é como ver um aluno talentoso e aplicado ser reprovado. É inadmissível.

O quadro institucional do Brasil é das décadas de 1930 e 1960, complementado com a Constituição de 1988. Tem partes obsoletas, urge sua adequação aos novos tempos. Registram-se alguns avanços nos últimos anos. São tiros na direção correta, mas não fazem parte de um projeto estruturado. 

Falta um sonho, um documento coeso identificando as oportunidades e os problemas a serem superados e detalhando as soluções, as definições de como chegar lá, seu sequenciamento e a quantificação das variáveis. Falta o conto o Brasil Jeca Tatu, livrando-se da aversão a mudanças. A realidade mudou e o país pode se transformar e avançar.

Com isso, trabalhadores e empresários farão acontecer da mesma forma que o Jeca Tatu ao se livrar do “amarelão”. O país não pode continuar emperrado por decisões tomadas no passado, é anacrônico.

A realidade é outra: o mundo mudou, e a ordem do dia é atualizar políticas, instituições, regras, privilégios e obrigações. Soltando travas do passado, o Brasil do futuro virará o Brasil do presente.

A parte mais importante é imaginar o Brasil do Jeca Tatu, apontando os setores a serem privilegiados e as projeções das principais variáveis macroeconômicas. Tem que ter um horizonte definido (2030?) e uma quantificação de metas, custos e resultados esperados para que possam ser aferidos por todos os cidadãos, que irão analisar sua consistência, abrangência e a viabilidade.

Tem partes como a da educação, do meio ambiente, de segurança, de direitos humanos, da saúde, do tamanho e da eficiência do estado, da reforma política, de medidas para combater a corrupção, da burocracia, da cultura, da questão urbana, da moradia e da inclusão, que é a mais importante de todas.

O Brasil tem índices de concentração de renda e de exclusão social e econômica incompatíveis com a generosidade de seu povo.

A redução da pobreza implica em ações de curto e longo prazo. As imediatas aliviam os estragos da miséria celeremente com programas específicos. As mais duradouras objetivam eliminar suas causas promovendo o acesso à educação, saúde, alimentação, trabalho digno, justiça e financiamentos.

O crédito é responsável pela exclusão econômica de cinco milhões de empresas e 63 milhões de cidadãos com anotações de atraso de pagamentos. A causa é uma só e fácil de ser corrigida, a obsolescência da intermediação. É possível fazer com que tenha um papel importante para o crescimento. Impõem-se uma modernização de seu quadro institucional.

A gestão fiscal deve ser consistente intertemporalmente e combinar adequadamente a dinâmica do endividamento com o volume e composição de gastos e receitas do setor público. A tributação é uma colcha de remendos, pode ser modernizada, corrigindo distorções e injustiças.

Resumindo. O cenário internacional é favorável e o potencial é fato. Monteiro Lobato escreveu: “Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira.”

O momento é de sonhar o Brasil do Jeca Tatu.

You may also like

Deixe um Comentário