Museu da Língua Portuguesa: tributo à palavra eterna

por The Winners
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Matéria publicada na edição #19 da Revista The Winners

21 de dezembro de 2015. O Museu da Língua Portuguesa, um dos principais patrimônios culturais da cidade de São Paulo, é devorado pelas chamas de um incêndio de grandes dimensões. Implacável e descontroladamente, o fogo destrói tudo o que encontra em sua rota. A fumaça torna o ar irrespirável, e nuvens negras podem ser avistadas mesmo à distância. Incrédula, a população assiste à cena.

Todos os canais de TV e estações de rádio assim como a internet persistentemente revelam minuto a minuto novos detalhes da catástrofe. São Paulo, um dos principais centros urbanos da América Latina e do mundo, é hoje uma cidade enlutada, chorando a perda de um de seus principais marcos culturais – um monumento histórico de valor e significado inigualáveis. 2016-2017. Felizmente, esforços integrados entre ações governamentais e a iniciativa privada são direcionados para a reconstrução deste patrimônio cultural de valor inestimável.

EDP Energias do Brasil, Banco Itaú, Fundação Roberto Marinho são algumas das instituições envolvidas na recuperação da estrutura e do acervo do museu, dispondo-se a investir, juntas, um montante aproximado de 65 milhões de reais neste ambicioso projeto. Enquanto isso, vêm sendo organizadas exposições itinerantes em diferentes cidades brasileiras, visando a preservar os conceitos, os valores e o legado do Museu da Língua Portuguesa, museu este que tanto orgulha os cidadãos de São Paulo e que tanto impressiona os visitantes de todo o mundo.

Mas o que exatamente torna este museu tão especial, tanto num âmbito nacional quanto internacional? Por que uma língua deveria merecer um museu? O que faria de um museu algo tão inovador e tão cheio de vida? De onde se originaria a aura de magia e afeição que o envolve?

Museu: Morada da Incoerência(?)

O escritor francês, Paul Valéry, afirmava que os museus em geral padeceriam do mal de ser uma espécie de residências onde habitaria a incoerência (le musée souffre d’être “une maison de l’incohérence”) . Enquanto a realidade externa é cheia de vida, os objetos exibidos em museus e galerias parecem estar congelados e mortos, por terem sido removidos do contexto dinâmico ao qual pertenceriam em última análise.

Quando expressou estas ideias, Valéry obviamente não podia prever a natureza interativa das exposições e peças exibidas em muitos dos museus contemporâneos nem tampouco antecipava a atmosfera viva e animada criada pelos recursos tecnológicos de última geração. O Museu da Língua Portuguesa de São Paulo é uma prova inequívoca de que o rótulo de Valéry não apresenta mais validade universal. Os três andares do prédio que o sedia abrigam um ambiente tecnológico e interativo, o qual prova que as línguas são acessíveis aos nossos cinco sentidos. As exposições que aí se realizam são predominantemente visuais, e mesclam arte e tecnologia, convidando o visitante a se engajar em atividades que revelam os mistérios da língua portuguesa e de sua evolução. 

Filmes, atividades práticas – nas quais o público se diverte, combinando radicais a prefixos e sufixos, ao mesmo tempo aprendendo a etimologia das palavras por meio de visualização de imagens animadas projetadas numa tela ou monitor, palavras cruzadas, totens triangulares multimídia demonstrando aspectos dos sistemas linguísticos que influenciaram o português do Brasil são algumas das atrações apresentadas pelo museu.

Totens com monitores interativos são dedicados a línguas africanas, sul americanas, espanhola, inglesa e francesa, assim como a línguas faladas por imigrantes, lado a lado com o português utilizado em outras regiões do planeta. Um “planetário de palavras” projeta grandes clássicos da literatura portuguesa num teto e num chão iluminado, ao mesmo tempo em que outros sons e imagens bombardeiam os sentidos dos visitantes.

Estes aspectos, aliados a muitos outros proporcionam informações e entretenimento ao público visitante. Nesse contexto, a diversidade do português do Brasil e da identidade cultural brasileira são revelados, a partir de uma perspectiva multicultural e lúdica.

 

Um Edifício Histórico, Uma Língua Viva

Originalmente, o museu ocupava três andares (uma área de 4333m3) da Estação da Luz – uma estação de trem, localizada no centro de São Paulo. Construída no século XIX e na primeira década do século XX, a estação desempenhou um papel fundamental na vida econômica do país, atuando como a principal entrada da cidade. Aí chegava o café vindo de Santos, Trezentos mil passageiros chegam e partem todos os dias. Muitos deles são imigrantes.

Estas são algumas das razões pelas quais o edifício foi escolhido como um marco, abrigando representações vivas da língua portuguesa – uma língua com a qual muitos estrangeiros estariam tendo contato pela primeira vez. Além disso, os falantes nativos do português também poderiam ter contato com aspectos inusitados de sua própria língua, sendo surpreendidos e educados para compreendê-la de uma maneira interessante e criativa. A combinação entre uma estrutura arquitetônica histórica de um lado, e fatores linguísticos e culturais de natureza interativa e lúdica de outro, contribuíram para o desenvolvimento de um projeto original, único.

As línguas e a arte não podem ser morada da incoerência como havia decretado Valéry. São elementos dinâmicos que integram os intercâmbios culturais, captando a centelha ou chama vital do espírito humano. A poesia de Emily Dickinson expressa com beleza essa ideia: A WORD is dead \ When it is said \ Some say. \ I say it just \ Begins to live \ That day. (UMA PALA VRA está morta \ Quando é dita \ Alguns dizem \ Eu digo e reitero \ Ela começa a viver

O Museu da Língua Portuguesa não enuncia uma palavra morta. Ao invés disso, traz palavras à vida, tratando-as como se nascessem ou existissem pela primeira vez. Seu projeto confere à língua originalidade, beleza, arte, multiculturalismo, autocrítica, assertividade e magia.

Linguagem: Um Patrimônio Eterno

Para a civilização judaico-cristã, a Palavra não é apenas um dom divino, mas também a própria natureza do Criador bem como a origem de toda a Sua criação. No Princípio era o Verbo, e o Ver bo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Em qualquer parte do planeta, as palavras desempenham um papel fundamental na vida humana. Sem linguagem, não há produção nem interação cultural.

A comunicação verbal diferencia o Homem das demais espécies vivas. Isso equivale a dizer que a palavra é, ao mesmo tempo, divina e humana, infinita e finita, transcendental e terrena. Ao captar o espírito eterno e mágico embutido na linguagem rotineira e diária, ao expor o potencial criativo e artístico subjacente à interação corriqueira e tediosa, o Museu da Língua Portuguesa não apenas contribui para o conhecimento linguístico local, mas também para a transformação espiritual bem como para a verdade e o conhecimento eternos.

A reconstrução deste monumento de valor inestimável é fundamental, e certamente contribuirá para uma reafirmação da identidade brasileira e, ao mesmo tempo, para o aperfeiçoamento e desenvolvimento da cultura humana como um todo. Todos nós deveríamos, de alguma maneira, estar engajados nesta tarefa nobre e edificante.

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