Lady Di: A princesa que jamais morre

por The Winners
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31de agosto de 1997. A Princesa Diana, não resistindo a graves ferimentos, acaba por morrer após um acidente automobilístico num túnel em Paris. Relata-se que, no momento em que se deu o desastre, o Mercedes da Princesa estava sendo perseguido por paparazzi. Ao tentar se esquivar de fotógrafos indiscretos dirigindo motocicletas, o motorista perdeu o controle sobre o carro, que bateu num poste, destroçando-se contra uma parede.

A notícia chocou a população do Reino Unido e do mundo, ao mesmo tempo deixando em todos uma sensação de espanto. Seria isso de fato possível? A Princesa Diana – nascida a 1 de julho de 1961 com o nome de Diana Spencer e conhecida como Lady Diana depois de seu pai ter herdado o título de conde Spencer – era um autêntico ícone internacional. A Inglaterra em particular e o mundo como um todo subitamente se viam despojados da presença carismática desta jovem representante da realeza, mergulhando em profunda tristeza.

Mas por que o público da Grã-Bretanha e de outras partes do planeta se enlutava por Diana, como se ela fosse uma parenta ou uma amiga íntima sua? O que tornava esta Princesa – que já havia se divorciado de seu Príncipe (tendo, assim, sido, de certa forma, excluída da família real) – uma criatura tão especial?

Lady Di não foi apenas uma pessoa incomum e uma figura chave na História do Reino Unido. Ela foi investida do poder de se tornar um mito internacional e uma heroína intemporal, vivendo um conto de fadas. Assim sendo, é impossível
discorrer sobre ela bem como a respeito de suas ações, sem considerar alguns dos mecanismos pelos quais se constroem os mitos.

Lembro-me que, logo após a morte de Lady Di, minha filha, que na época tinha sete anos de idade, expressou sua incredulidade, perguntando-me: “Mamãe! Princesa também morre”? Sua pergunta intuitivamente apreendia uma das
características de todos os mitos: Eles não têm idade, são eternos, imunes à deterioração e aos fatos históricos. As pessoas em todas as partes do mundo pareciam partilhar deste espanto e incredulidade infantis. Não podiam aceitar a
morte de sua amada heroína. Na Grã-Bretanha, toneladas de flores foram depositados em frente ao Palácio de Buckingham, como se a aquele edifício, que antes havia sido o lar de Diana, tivesse agora se convertido num altar, sobre o qual se depositavam ofertas a uma divindade.

Além de serem atemporais, eternos, os mitos demandam padrões estéticos, os quais, frequentemente, endossam dicotomias maniqueístas: O bem é visto como feio; e o mal, como belo. Diana era uma jovem linda e estilosa. Seu
corte de cabelo, sua postura, suas vestimentas e gestos eram admirados e imitados por toda a parte. Desta forma, ela atendia perfeitamente aos requisitos embutidos nas estruturas míticas, sendo unanimemente encarada como um modelo de perfeição estética. Por esta razão, ninguém poderia aprovar o comportamento do Príncipe Charles, quando este passou a demonstrar publicamente seu amor por Camilla Parker – uma mulher “feia” de andar apressado, “desengonçado”, que fugia totalmente aos padrões de beleza e de moda estabelecidos por nosso tempo.

Como poderia a “bruxa feia” dos contos de fada derrotar a “bela princesa”? Esta pergunta inconsciente certamente embasava o julgamento público das atitudes e escolhas do Príncipe.

A figura de Diana endossava as fundações míticas também pelo fato de aparentar doçura e fragilidade (não tendo a postura independente e casual de Camilla). Além de ter sido traída, a Princesa era depressiva, bulímica e tinha tendências suicidas. Em outras palavras, sua fragilidade clamava por compaixão, simpatia e empatia. Ninguém poderia jamais recusar-se a amá-la, deixando-a desamparada.

Como heroína de conto de fadas, Diana era obsessivamente seguida por paparazzi, ávidos de detalhes íntimos a serem partilhados com o público. Isso acabou por desencadear os eventos trágicos que culminaram no falecimento da Princesa. A morte física, no entanto, não resultou no fim do mito. Pelo contrário: Sua ausência física conferiu um poder ainda maior às representações de sua perfeição e realeza. Sua juventude, carisma e generosidade tornaram-se uma imagem intocável, que jamais poderia ser maculada.

Porém, a Princesa de conto de fadas não foi tão somente um mito falso e vazio. Em vida, ela havia expressado seu desejo de “permanecer nos corações das pessoas”, minimizando sofrimento daqueles que careciam de amor, e aliviando o fardo da doença, da fome e do abandono em diferentes áreas do mundo às quais pudesse se dirigir. Tendo ela própria sofrido
muito, Lady Di empatizava com o sofrimento humano, onde quer que ele se manifestasse.

Ela se tornou uma proeminente filantropa, engajando-se incansavelmente em ações de assistência humanitária em diferentes partes do mundo e contribuindo para aumentar a consciência relativa a questões sociais de difícil solução. Colaborou com mais de 100 órgãos de assistência humanitária. Porém, não parou por aí. Insistia em que a monarquia deveria estar em contato direto com o povo. Levou a realeza ao nível do público, visitando pessoas oprimidas pelo sofrimento em diferentes regiões do planeta. De maneira inquestionável, contribuiu, com suas ações, para alterar a face
milenar da monarquia.

Em hospitais de países africanos, abraçou enfermos contaminados pelo vírus HIV; e na Índia e no Nepal, tocou leprosos com suas mãos. Suas ações contribuíram para dissipar a noção de que a Aids e a lepra seriam transmissíveis pelo toque, o que teve um significativo impacto na eliminação do estigma associado a estas enfermidades. “O HIV não torna as pessoas perigosas. Pode-se dar-lhes um aperto de mãos ou abraçá-las. Deus sabe o quanto elas precisam disso” – disse a Princesa diante das câmeras.

Seu trabalho como ativista “anti-minas” chamou a atenção para a crueldade da guerra. Não apenas visitou amputados em Angola, mas também teve a coragem e ousadia de arriscar a própria vida, caminhando por um campo do qual recentemente haviam sido retiradas inúmeras minas.

Diana também criou fundos de apoio a familiares de criminosos confinados no sistema prisional britânico. Engajou-se também na causa da ortotanásia, lançando uma campanha pela dignidade na morte e pelo alívio do sofrimento aos doentes terminais. Lady Di se tornou “England’s rose” (a rosa da Inglaterra) – rosa que “cresceu no coração do povo” (grew in people’s hearts) tanto na Inglaterra quanto no exterior. Elton John, seu amigo íntimo, em parceria com Bernie Taupin, alterou a letra de uma canção composta anteriormente — “Candle in the Rain” (Vela na Chuva) –, de
maneira a homenagear a Princesa:

Goodbye England’s rose;
may you ever grow in our hearts.
You were the grace that placed itself
where lives were torn apart.
You called out to our country,
and you whispered to those in pain.
Now you belong to heaven,
and the stars spell out your name.*

 

Bernie Taupin e Elton John

Por todas as suas realizações, por seu carisma e amor pela humanidade – que foram apagados tão repentina e precocemente – Lady Di ressuscitou no brilho eterno das estrelas. Seu nome certamente inscreveu nos céus, quando
ela foi acolhida no repouso eterno. E sua vela e sua chama seguirão brilhando para sempre.
Como num conto de fadas.

 

* “Adeus, rosa da Inglaterra; / Possas tu crescer em nossos corações / Tu foste a graça que se postou / onde vidas são rasgadas / Tu chamaste pelo nosso país / Tu cochichaste aos sofredores / Agora tu pertences ao céu / E as estrelas declinam teu nome”.

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