José Roberto Tadros: Leva o comércio no sangue, herdado de uma longa tradição familiar de empresários e negociantes

por The Winners

Descendente de imigrantes gregos, sírios e libaneses que chegaram ao Brasil no século XIX e criaram a empresa comercial que certificou ser a mais antiga do Amazonas, fundada em 1874, o atual presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), além dos negócios familiares, tem uma vida dedicada ao desenvolvimento do setor terciário. Advogado de formação e empresário vocacionado, Tadros desde cedo também desenvolveu a paixão pelas letras e pela história. Escreveu quatro livros, entre eles O Grande Amazonas em Marcha, além de ser coautor de uma quinta obra, intitulada Incentivos Fiscais para o Progresso do Amazonas. É membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (Alcear), do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e presidente da Academia de Ciências e Letras Jurídicas, entre outras instituições, em uma admirável capacidade de conciliar sua vida intelectual com as origens empresariais e a trajetória de líder sindical do comércio.

Foi casado durante 51 anos com Vânia Maria Thereza Novoa Tadros, falecida em 2020. Tem três filhos e quatro netos, cuja relação valoriza como um elemento fundamental, embora o fator distância seja também uma realidade, desde a eleição, quase por unanimidade, para a Presidência da CNC, em 2018. Sua administração à frente da maior entidade sindical empresarial do setor terciário tem sido marcada por grandes desafios. Mas Tadros, que também é presidente do Conselho Deliberativo Nacional do Sebrae, nunca desanimou, levando a Confederação, o Sesc e o Senac a ocupar uma posição de crescente destaque no cenário nacional. Uma característica marcante deste amazonense nascido há 75 anos em Manaus. Homem de fé, reflexivo, humanista, que se orgulha dos ensinamentos de seus antepassados e de sempre buscar fazer o bem, com trabalho, honestidade, honradez e espírito cristão. Conheça um pouco mais desse líder na entrevista exclusiva à revista The Winners

The Winners – Recentemente a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou que o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) subiu 1,4% em janeiro ante dezembro, para 121,1 pontos. Como o senhor avalia esse resultado para a economia em 2022?

José Roberto Tadros – Tivemos, a partir do fim do ano passado, o avanço da variante Ômicron, mas a vacinação tem garantido impactos menores da covid-19 na população, com sintomas mais leves e redução da letalidade. Esse sentimento de segurança vem contribuindo para que os empresários enxerguem uma pequena melhora nas condições econômicas, no curto prazo. Com expectativas mais favoráveis, mesmo no contexto de juros mais elevados, as intenções de investir no negócio e de contratar funcionários pelo comércio também aumentaram neste início de ano.

TW – Um dos legados de sua gestão à frente da CNC e no Conselho do Sebrae Nacional é defesa pela qualificação e educação. Como o senhor vê a atuação das entidades como apoio em políticas públicas para o desenvolvimento do país e de cada região?

JRT – Atuar pelo fortalecimento do comércio de bens, serviços e turismo e pelo desenvolvimento do nosso país é a própria razão de ser do Sistema CNC-Sesc-Senac. Esse trabalho engloba uma estrutura presente em todo o Brasil, em um esforço integrado com as Federações do Comércio, as Federações Nacionais, os mais de mil sindicatos empresariais do setor e os Regionais do Sesc e do Senac. Quando pensamos em desenvolvimento, é claro que devemos também pensar em educação, incluindo a profissional. O trabalho do Sesc e do Senac e também a atuação do Sebrae com foco nas micro e pequenas empresas são referenciais. A capilaridade desse sistema, o alinhamento com as necessidades do mercado, a excelência nos atendimentos prestados, tudo isso está a serviço do Brasil, que pode se orgulhar de ter um dos mais expressivos sistemas de desenvolvimento social do mundo. Estamos trabalhando com muito empenho para garantir que esse sistema siga contribuindo de forma efetiva para o crescimento do comércio e do Brasil.

TW – O senhor sempre defendeu o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia como uma realidade para a economia e o desenvolvimento da América Latina. Depois de 20 anos de negociações falta muito pouco para que isso se tornar uma realidade. Como o acordo beneficia o Brasil?

JRT – A potencial ampliação do mercado consumidor para produtos brasileiros e a maior integração de novas cadeias de suprimentos, sem dúvida, são dois dos principais benefícios do acordo à economia brasileira. Desde que foi criado, há pouco mais de 30 anos, o Mercosul trouxe ganhos ao Brasil, como o aumento do volume de comércio, a formação de um mercado para bens industrializados e a livre circulação de pessoas, por exemplo. No acordo com a Europa, também teremos um choque de competitividade importante para a evolução da economia doméstica. Para isso, precisamos ter um bloco regional forte. O Mercosul precisa se unir cada vez mais para reduzir a pobreza das nações e melhorar o poder aquisitivo da sociedade. Foi com muito empenho que fechamos o acordo com a União Europeia, no qual fomos enfáticos ao destacar que estamos do mesmo lado.

TW – Como representante de setores fundamentais na sociedade brasileira como o senhor vê as questões necessárias para o crescimento do país, a exemplo da geração de emprego e renda, retomada de investimento e a importância do comércio e do empreendedorismo?

JRT – Nós avançamos na agenda de reformas, nos últimos anos, como a reforma da Previdência e a reforma trabalhista, que trouxeram mais racionalidade ao gasto público e às relações de trabalho. Essas reformas foram passos importantes para uma economia mais eficiente e dinâmica, com maior capacidade de gerar emprego e renda no longo prazo. Mas ainda precisamos percorrer o caminho de reformas estruturantes, adequadas à realidade dos grandes setores que mais contribuem para a atividade econômica atualmente, e que elas de fato reduzam o custo de operar no País, incentivando a criação de novos negócios, investimentos produtivos de longo prazo e a inovação.

TW – Em relação ao turismo, quais são as perspectivas para 2022? Quais foram os aprendizados dos últimos dois anos que fortaleceram o setor?

JRT – As atividades características do Turismo acumularam perda de R$ 463,8 bilhões, desde o início da pandemia de covid-19, em março de 2020, até novembro de 2021. Projetamos avanço de 22,5% no volume de receitas do Turismo em 2021 e de 1,7% em 2022. As expectativas para a primeira alta temporada após a flexibilização e a vacinação eram altas, mas foram frustradas com a rápida disseminação da variante Ômicron, que levou ao cancelamento de importantes eventos do setor, como o réveillon e o carnaval. Mas acreditamos que o setor terá condições de reaver seu pleno potencial de geração de receitas próximo ao fim de 2022. O setor empresarial se uniu, a Confederação apoiou e encaminhou demandas. Em junho de 2021, a CNC criou o projeto Vai Turismo – Rumo ao Futuro, que vem mobilizando o trade turístico em todos os Estados e no Distrito Federal para recomendar políticas públicas que estimulem o desenvolvimento sustentável de destinos turísticos brasileiros.

TW – A aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 5/2021 que prorroga até 2032 incentivos fiscais concedidos pelos estados e pelo Distrito Federal para empresas no âmbito da guerra fiscal entre essas unidades federativas resolvida pela Lei Complementar 160/2017 foi um marco importante para o setor. Como defensor do projeto, quais benefícios práticos são possíveis estabelecer para o avanço da economia?

JRT – A CNC acompanhou desde o começo toda a tramitação e cada etapa de aprovação desse projeto. Fizemos reuniões com as Fecomércios nos Estados impactados diretamente pela medida, ouvimos atacadistas que estão na ponta e sentiriam de fato essa mudança e compartilhamos a visão do comércio com os parlamentares, tanto deputados como senadores. Enviamos um ofício ao presidente da República, Jair Bolsonaro, pedindo que mantivesse a integralidade do texto aprovado pelo Congresso, considerando a relevância do tema – que contribui para o setor produtivo brasileiro e, consequentemente, para o crescimento do nosso país. É um avanço para a movimentação da economia, além da observância aos princípios constitucionais da igualdade e da capacidade contributiva. Com a ampliação
dos incentivos e benefícios fiscais vinculados ao ICMS, destinados à manutenção ou ao incremento das atividades comerciais por mais dez anos, ganha o setor atacadista e de distribuição, segmento fundamental para o abastecimento nacional, com geração de emprego e renda. O projeto significa uma correção histórica, concedendo ao comércio o mesmo prazo de isenção que foi determinado para a indústria.

TW – Quais projetos da CNC e do Sebrae para se adaptar às novas tecnologias podem ser destacadas? Como o senhor vê o futuro?

JRT – As medidas decorrentes dos protocolos de prevenção à covid-19, que determinaram, entre outras ações, o distanciamento social, representaram uma espécie de prova de fogo para a infraestrutura de comunicação das empresas e do País. A implantação do regime de trabalho em home office forçou as empresas a se adequar a
uma nova realidade. O crescimento do e-commerce, que já vinha aos saltos, manteve-se em patamares elevados, com as pessoas incorporando hábitos de consumo que levariam anos para adotar. A capacidade de adaptação das empresas, dos trabalhadores e dos consumidores brasileiros foi um dos destaques, mas o que tornou viáveis as soluções adotadas foi o uso intensivo da tecnologia. E nós temos tido a preocupação de não apenas nos adaptar, como Sistema, a essa nova cultura da inovação, mas também ajudar a disseminar essa cultura para as empresas.

TW – Falando um pouco do “Tadros escritor”, o senhor tem planos para novas publicações? Pode falar um pouco sobre o assunto e sua paixão pela literatura?

JRT – Desde tenra idade, dediquei-me muito aos livros. Com o passar do tempo, eu fui me inclinando para certos assuntos, certos temas, que foram se transformando em livros. Passei a participar de entidades culturais no Amazonas. Sou membro da Academia Amazonense de Letras há uns 12, 14 anos; do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas desde o início dos anos 1970. Sou presidente da Academia de Ciências e Letras Jurídicas, membro da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas. Não sei se o tempo hoje, me dedicando à Presidência das entidades, me proporcionaria disponibilidade para isso. Mas minhas grandes paixões sempre foram a leitura e a preocupação com a cultura. De maneira que eu espero, sim, ter ainda anos de vida e tempo suficiente para escrever algo mais sobre a realidade que nós vivemos, o cotidiano e os meus pensamentos. É uma forma de legar aos meus pósteros a minha passagem pelo mundo.

TW – Após esses anos dedicados à vida pública, como o senhor vê o futuro do País? Quais os pontos de avanço e os pontos de atenção?

JRT – Vejo o futuro do Brasil com confiança. Estamos passando ainda por um momento muito difícil com a pandemia, que trouxe muita dor e enormes consequências para nossas vidas, para a economia do País e do mundo. Mas o potencial
do Brasil é realmente imenso, e tudo o que precisamos é valorizar os consensos já estabelecidos e
evitar que os dissensos sigam gerando os grandes impasses que historicamente têm nos impedido de avançar. Transformar esses consensos em boas práticas e políticas públicas eficazes, que favoreçam e estimulem o País a mostrar o melhor de si. Por exemplo, a necessidade de uma reforma tributária é um mantra repetido e reconhecido por todos. Ela é importantíssima porque vai ajudar a destravar o Brasil. Talvez se todos pudéssemos visualizar o País que resultará de uma legislação tributária mais moderna, racional, enxuta, menos onerosa, não perderíamos nem mais um minuto para dar essa chance a nós mesmos e às futuras gerações de brasileiros.

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