José Luiz Gandini: A vocação e a inovação que construíram um legado

por The Winners

A origem italiana estampa o rosto de José Luiz Gandini, deixando claro sua ancestralidade e sua vocação empreendedora. Nascido no interior de São Paulo, na conhecida cidade de Itu, herdou do pai, José Carlos Martini Gandini, o talento que
o fortaleceu no setor automobilístico nacional, da mãe, Maria de Lourdes Milanez Gandini, o carisma de um bom vendedor. Em 2021, o Grupo Gandini completou 70 anos de atuação bem-sucedida no mercado em setores diversificados. Formado por um conjunto de empresas administradas de forma independente pelos irmãos José Luiz, Eduardo e Fábio, o grupo reúne empreendimentos no setor automobilístico, imobiliário, tecnológico, agropecuário, hoteleiro e de seguros. A história de sucesso desta família, oriunda da Itália e estabelecida em Itu/SP, no início do século XX, começou com a venda de carros, em 1949, quando José Carlos Martini Gandini, aos 16 anos, passou a trabalhar como gerente do Posto de Serviços Studebaker, situado na Praça Duque de Caxias. Ao longo dos anos a empresa cresceu, e a família uniu seu talento ao setor automobilístico até concretizar a fundação da Kia Brasil, em 1992, marcada com a importação e a comercialização dos modelos Besta e Ceres até a mudança de portfólio da Kia Corporation. Hoje a empresa é sinônimo de qualidade, referência em automóveis premium no Brasil. Com o passar do tempo, José Luiz Gandini ganhou reconhecimento no cenário nacional e tornou-se um líder do setor. Empresário de posição firme, foi presidente da Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores) por 5 mandatos e deixou um legado de conquistas e defesa ao mercado. Um homem que aprendeu não apenas a conquistar seu espaço no mundo empresarial, mas a cultivar os bons momentos com a família e os amigos, se diz amante da boa gastronomia, aliada aos roteiros turísticos. Descobriu no setor náutico um hobby agradável, que cultiva nos momentos de lazer. Casado com Leila Schuster, Gandini é pai de Gustavo, 26 anos, e Maria Laura, 22. Focado nos negócios, herdou do pai a veia comercial e não decepcionou. Tratou com maestria a gestão dos negócios e a sucessão da família. A Kia Brasil segue os padrões internacionais e está em constante inovação, um orgulho para esse empresário, que retrata na entrevista exclusiva uma perspectiva para 2022. Confira!

The Winners – Atualmente, o senhor é conhecido em todo o país como o grande empreendedor e o rosto da Kia em solo brasileiro. Mas como foi o início dessa jornada?

José Luiz Gandini – Um início cheio de desafios, porque o consumidor brasileiro não conhecia a marca Kia, embora os nossos vizinhos – Uruguai, Paraguai e Chile – já tivessem um histórico interessante sobre as marcas sul-coreanas. É relevante resgatar que o mercado interno brasileiro ficou fechado por muitas décadas até a abertura do país feita por Fernando Collor de Mello. Desafios, de um lado, mas de outro cheio de oportunidades, porque o Brasil abriu seus portos. Havia muitos produtos que o consumidor brasileiro estava ávido por conhecer. Foi por esse motivo que a Kia Brasil emplacou de forma contundente o modelo Besta, que, aliás, virou sinônimo de van.

TW – O mercado de carros importados no Brasil é um exemplo de atuação em nichos, com modelos que atraem não pelo preço, mas pela tecnologia, conforto e sofisticação, voltado ao consumidor que procura por algo novo. Nesse conceito, como foi a evolução da marca no Brasil e como se adaptar às mudanças de mercado, por exemplo, carros elétricos?

JLG – Excelente pergunta, que me dá a oportunidade de mostrar a experiência da Kia Brasil. Como disse, no início eram apenas a Besta e o Ceres, veículos de trabalho. Com a chegada do designer alemão Peter Schreyer (ex-Audi e criador
do Audi TT) à Kia Corporation no início da década de 2000, a história da marca deu uma virada espetacular. Uma realidade é ter uma rede de concessionária que vende e administra o pós-venda de veículos de trabalho; a outra é vender e administrar veículos premium. A Kia Brasil, que chegou a ter 182 concessionárias em todo o território nacional
nos anos 2010, teve de dar uma guinada para o posicionamento de produtos premium. Agora, estamos prestes a dar outro importante passo com os veículos híbridos e elétricos, mas principalmente com os novos conceitos mundiais de mobilidade.

TW – Segundo a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), as vendas de carros importados no Brasil registraram queda de 7,4% em comparação ao ano anterior. Foram 25.421 unidades contra 27.439 emplacamentos de importados em 2020. Já a produção nacional acumula, no mesmo período, 47.755 unidades licenciadas contra 31.046 unidades de 2020, alta de 50,9%. Como o senhor vê esse cenário e o que precisa ser feito para novos ganhos de mercado?

JLG – Com o imposto de importação de 35% e a paridade da principal moeda de transações comerciais internacionais, o dólar, não teremos chances de retornar aos grandes volumes do passado. Em 2011, chegamos a comercializar 80 mil unidades. Hoje essa realidade inexiste. Teremos de trazer automóveis diferenciados da concorrência em design, tecnologia, motorização, algo muito diferente dos concorrentes.

TW – Em um cenário tão controverso como foi 2020 e 2021, como a empresa se aproximou dos clientes em um momento de adversidade como o enfrentado? Quais foram as superações e as lições aprendidas? Quais as inovações que serviram de lição?

JLG – Seguimos todos os protocolos de segurança sanitária impostos pela pandemia por Covid-19 e, agora, pela variante Ômicron. Aprendemos a trabalhar on-line, oferecer mais serviços aos clientes, de modo a superar todas as suas expectativas.

TW – O setor automotivo no Brasil teve perdas significativas em 2021, da saída da Ford no país à crise global de suprimentos e ao consequente fechamento de fábricas. Como o senhor avalia esse cenário e sua possibilidade de recuperação?

JLG – Na qualidade de importadora, a Kia Brasil é impactada pelas próprias condições de produção da Kia Corporation coreana. A recuperação virá quando a Kia coreana conseguir normalizar a sua produção. Além disso, temos de nos ater ao fluxo de transporte marítimo. Hoje, os preços dos contêineres quase quintuplicaram e os prazos das rotas marítimas estão amplificados por conta dos volumes de transações comerciais entre o Brasil e o resto do mundo.

TW – Com o ESG (Environmental, Social e Governance, ou seja, práticas corporativas com responsabilidade ambiental, social e de governança) em pauta, como o assunto altera a indústria automotiva? Quais as principais mudanças?

JLG – Em se tratando de portfólio de produtos, a Kia Corporation está empenhada em liderar a transição para a mobilidade limpa, com a introdução de novos veículos eletrificados. No Brasil, lançamos recentemente nosso primeiro SUV híbrido, o Kia Stonic, que inaugura esta nova fase de nosso portfólio. E nas questões sociais e de governança corporativa, tanto a Kia Corporation como a Kia Brasil seguem fielmente os preceitos demandados pela sociedade brasileira.

TW – O senhor foi presidente da Abeifa por 5 mandatos (1998-2000 / 2006-2008 / 2010- 2012 / 2016-2018 e 2018-2020) e em todos eles se destacou por sua posição firme na defesa do setor frente ao Governo e às questões de impostos. Quais são as maiores contribuições que o senhor acredita ter deixado no conjunto de sua gestão?

JLG – Quaisquer atividades empresariais demandam relacionamento consistente com o Governo Federal e, sobretudo, com a sociedade, que representa o consumidor final. Pois bem, entendo que pude deixar um legado nesse sentido. A nossa administração conseguiu estabelecer vínculos maduros com representantes governamentais, construiu laços positivos com as demais entidades da cadeia automotiva brasileira e, finalmente, agiu com muita transparência com a sociedade.

TW – Falando um pouco de seu lado pessoal, ao viajar costuma unir a paixão pelos carros com os destinos turísticos? Pode-se encontrar bons destinos a serem feitos de carro? Quais seriam eles?

JLG – Carros, motos, barcos, aviões… são meios imprescindíveis ao ser humano para fazer e contar histórias, são essenciais para qualquer pessoa. Todos os destinos são válidos, mas no Brasil não poderia me esquecer de um passeio pela Serra do Rio do Rastro e uma visita às Cataratas do Iguaçu. No exterior, não esqueço de um safari feito na África.

TW – Hoje a Kia Brasil é uma empresa consolidada, mas continua sendo uma empresa familiar? Como são tratados os assuntos “sucessão familiar” e “gestão”? Quais são os conselhos que o senhor deixa?

JLG – Essa questão já vem de meu pai, José Carlos Martini Gandini. A construção da sucessão familiar sempre foi muito sólida. Iniciei com 13 anos. Neste momento, já estamos preparando mais um processo de sucessão. Estou preparando meu filho, Gustavo Gandini, para isso. Terminou a faculdade, morou em San Diego e em Berkeley, nos EUA, fez UC Berkeley e já assumiu a Diretoria de Operações da empresa. O filho de minha esposa, meu enteado, Klaus Freitas, também está sendo preparado. Cursou Business em San Diego, nos EUA, e hoje está sendo capacitado em nossa empresa de distribuição de peças originais.

TW – Atualmente, a Kia ocupa a segunda posição desse mercado, com 22,3%. Já houve no passado intenção de instalar fábrica no Brasil. Quais os planos da empresa para uma expansão de mercado? O que podemos esperar da marca para os próximos anos?

JLG – Em 1996, chegamos a anunciar a intenção de instalar uma fábrica no Brasil. Por motivos alheios à nossa vontade, não foi possível. Logo depois, uma unidade da Kia Corporation foi instalada no México. Perdemos o investimento para o México quando estava certo para o Brasil. Agora, voltamos a pressionar a Kia Corporation para uma operação no Brasil, mas as condições mercadológicas dificultam essa decisão por parte dos coreanos.

You may also like

Deixe um Comentário