Rubens Hannun,presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, revela dados relevantes sobre as relações comerciais entre Brasil e os países árabes

por The Winners
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Em 2018, as exportações brasileiras aos árabes alcançaram US$ 11,45 bilhões e a perspectivas são animadoras. Até 2022, a previsão é de que a cifra atinja a soma de US$ 20 bilhões com a intensificação das ações de promoção comercial

Nesta entrevista concedida à The Winners, o presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Rubens Hannun, revela dados de grande relevância para as relações comerciais entre Brasil e os países árabes, cuja parceria configura atualmente a terceira posição mais importante para o comércio brasileiro. De acordo com Hannun, as exportações brasileiras aos árabes em 2018 somaram US$ 11,45 bilhões e conservam uma projeção de aumento, até 2022, da ordem de US$ 20 bilhões com a intensificação das ações de promoção comercial. Acompanhe a entrevista:

The Winners – Descreva a atualidade da parceria comercial entre os países árabes e o Brasil destacando dados de maior relevância nesta relação.

Rubens Hannun – O comércio bilateral entre o Brasil e os países árabes é de extrema relevância. Se considerarmos os dados de exportação do Brasil no primeiro quadrimestre de 2019, em seu conjunto, os 22 países árabes membros da Liga Árabe formam nada menos que a terceira parceria comercial do Brasil no exterior, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Não é pouco! Além disso, logo atrás da China, os árabes são o segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, que é o setor econômico mais importante do Brasil na atualidade. Para se ter uma ideia do tamanho desse mercado, em 2018, as exportações brasileiras aos árabes somaram US$ 11,45 bilhões. A pauta de exportações compreendeu basicamente açúcar, frango, minério de ferro, carne bovina e grãos, entre outros produtos. Os principais parceiros comerciais foram o Egito, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

A julgar pelos dados dos primeiros quatro meses de 2019, no entanto, temos um cenário muito mais promissor. Isso porque nesse período houve um incremento considerável no volume de comércio, de cerca de 15% nas receitas de exportação e por volta de 20% em volume embarcado, na comparação com os primeiros quatro meses do ano passado. Se as vendas continuarem no mesmo ritmo pelo resto do ano, podemos ter em 2019 um dos melhores anos da história do comércio bilateral Brasil-Países Árabes. Estudos feitos pela Câmara Árabe mostram também que as exportações brasileiras para os países árabes podem chegar a US$ 20 bilhões até 2022, com a intensificação das ações de promoção comercial.

As divisas geradas com o comércio, no entanto, não são os únicos benefícios que o Brasil aufere de sua relação com os árabes. Para se ter uma ideia, cerca de 160 mil trabalhadores de frigoríficos brasileiros têm emprego graças aos embarques de carne de frango halal para os países árabes. O Brasil também tem nos países árabes um importante fornecedor de combustíveis, insumos petroquímicos, fertilizantes e produtos fosfatados, sem os quais, aliás, o nosso agronegócio jamais seria competitivo como é. O fosfato que importamos do Marrocos, da Tunísia e da Argélia é fundamental para viabilizar a agricultura e a pecuária de corte no cerrado brasileiro.

Os árabes também veem no Brasil um importante mercado para seus investimentos. Fundos e empresas árabes têm ativos muito relevantes no Brasil. O fundo saudita SALIC é o acionista-controlador do frigorífico Minerva, atualmente o maior exportador de carne bovina do país. O fundo ainda tem participações em outras importantes empresas do agronegócio brasileiro, entre elas a BRF. A DP World é controladora da Embraport, que administra um dos maiores terminais do porto de Santos, por onde se escoa 40% das exportações do nosso país. A Qatar Holdings, dona da Qatar Airways, tem participações na Latam. Fundos catarianos também tem aportes em projetos de gás natural no Sergipe e em outras partes do país.

Há uma série de joint-ventures formadas entre empresas sauditas e petroquímicas brasileiras, por meio das quais os sauditas marcam presença no mercado brasileiro e as empresas brasileiras atuam com grande competitividade. O Brasil, da mesma forma, também tem relevantes investimentos nos países árabes. A BRF tem planta produtiva em Abu Dhabi e anunciou recentemente que fará aquisições na Arábia Saudita. A mineradora Vale também tem uma planta de pelotização de minério de ferro em Omã, que atende quase todos os clientes da empresa na Ásia. Então, os árabes são, muito além de um mercado consumidor para nossos produtos, um parceiro estratégico, com quem o Brasil tem a possibilidade de constituir alianças muito sólidas.

Os países árabes acumularam ao longo dos anos cerca de US$ 2,3 trilhões em seus fundos soberanos. Esse imenso capital vem sendo aplicado em diferentes países do mundo para fazer a transição das economias árabes para a era pós-petróleo e para atender a outras necessidades desses países, como o fornecimento de alimentos cuja produção não é possível localmente. Um exemplo desse tipo de iniciativa aqui no Brasil com o fundo Salic foi a participação nas empresas  Minerva e BRF. Nós acreditamos que esse tipo de aliança pode avançar muito mais. Acreditamos que o imenso capital disponível em fundos soberanos árabes, que é basicamente 40% de todo dinheiro alocado em fundos soberanos no mundo, pode ser investido no Brasil em projetos empresariais árabe-brasileiros para a produção de alimento ou em projetos de infraestrutura logística, num casamento de interesses, que envolveria a expertise do nosso país na produção de alimentos e a necessidade dos países árabes em obter alimentos para uma população conjugada de 450 milhões de pessoas, com algumas das maiores taxas de natalidade do mundo.

Nós, como entidade, temos procurado sensibilizar o empresariado brasileiro e também árabe para essas oportunidades. Seria uma forma do Brasil acessar recursos importantes e, para os árabes, um jeito de garantir a segurança alimentar de suas populações. O contexto para a efetivação dessas oportunidades existe de forma extremamente favorável. Os árabes têm esse imenso capital em fundos soberanos imediatamente disponível. O Brasil é, sem dúvida, a nação que vai alimentar o mundo no século XXI e a que fará isso da forma mais competitiva. Além disso, brasileiros e árabes têm historicamente relações muito produtivas do ponto de vista econômico, político e cultural. Também temos fortes laços culturais, já que acolhemos sucessivas ondas migratórias de países árabes. Hoje mais de 14 milhões de brasileiros têm pais, avós e bisavós nascidos em países árabes.

TW – Quais são as iniciativas que a Câmara de Comércio Árabe Brasileira promove para fomentar a expansão do comércio entre o mundo árabe e o Brasil?

RH – A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira foi fundada em 1952 e é membro da União das Câmaras Árabes, o braço econômico da Liga dos Estados Árabes. Somos o órgão de representação dos interesses econômicos dos países árabes no Brasil e, na via inversa, a entidade que advoga em favor dos interesses econômicos brasileiros nos países árabes, na melhor definição possível de um organismo bilateral, cuja missão é promover intercâmbio comercial, cultural e, dentro de um escopo restrito, também político, entre o Brasil e as nações árabes do globo.

A forma como fazemos isso é bastante variada e gostaria de explicar a partir de situações práticas. Recentemente promovemos uma visita de delegações empresais a uma série de feiras e eventos no mundo árabe, principalmente nas áreas de alimentos, cosméticos, construção civil, entre outras. Trouxemos empresas de alguns países árabes para expor seus produtos na APAS, feira do setor supermercadista realizada anualmente em São Paulo, ajudando-as ainda a encontrar compradores para seus produtos entre distribuidores brasileiros e redes de varejo de alimentos. Em parceria com o Ministério da Economia do Egito, organizamos em São Paulo um amplo seminário que, em essência, discutiu formas de ampliar os benefícios do acordo de livre comércio firmado entre o Mercosul e o país africano em 2017. Recentemente, recebemos uma delegação de membros do governo da Arábia Saudita interessados em estabelecer cooperações entre agentes do setor financeiro do Brasil e do país árabe. Esses são exemplos de iniciativas realizadas
nos últimos dois meses. Mas, como parte da nossa rotina, apoiamos empresas brasileiras e árabes prestando-lhes assessoria econômica, comercial e aduaneira para que possam, em resumo, efetivar negócios.

Nessa atividade, em particular, temos o orgulho de contar com centenas de cases de sucesso envolvendo empresas de todos os tamanhos e segmentos de mercado. Para citar alguns exemplos, ajudamos recentemente o Exército egípcio, que é o maior importador individual de carne bovina brasileira no mundo árabe, a encontrar novos fornecedores de proteína no Brasil. No lado inverso, apoiamos o estabelecimento de uma grande construtora em Dubai de modo que ela se credenciasse a participar da construção de um grande empreendimento hoteleiro no emirado. Há centenas de casos parecidos envolvendo empresas de cosméticos, alimentos e serviços.

Quando há questões que podem prejudicar o comércio de alguma forma, nós também atuamos. Em 2017, quando foi deflagrada a operação Carne Fraca, em que alguns frigoríficos investigados foram acusados de práticas não-condizentes com padrões de qualidade, que, aliás, foram posteriormente refutadas, a Câmara Árabe atuou prontamente para oferecer esclarecimentos a agentes privados e estatais de países árabes potencialmente preocupados com a importação de carne imprópria para o consumo.

Na época, organizamos a visita a cinco países árabes do então ministro da agricultura, Blairo Maggi, para que a situação fosse devidamente esclarecida e a má impressão causada pela Operação Carne Fraca fosse desfeita. Naquele ano, por conta da operação, vários países decretaram embargo à carne bovina brasileira, o que prejudicou bastante o comércio do produto, cuja relevância na pauta de exportações é grande. Mas os países árabes não chegaram a interromper a compra de carne bovina do Brasil. Na verdade, chegaram a comprar até um pouco mais naquele ano e chegamos a ampliar bastante as vendas para o Egito. Esses são exemplos da nossa atuação em favor do comércio, que vai ficar ainda mais dinâmica agora que temos um escritório internacional em Dubai, inaugurado no começo do ano. Nossa intenção é que a câmara tenha uma presença internacional cada vez mais forte, seja por meio da criação de representações próprias, como o escritório de Dubai, ou pela interlocução mais próxima com câmaras árabes de outros países e entidades
assemelhadas.

TW – Em espectro global, quais países ou blocos econômicos representam parcerias comerciais estratégicas para as nações do mundo árabe?

RH – O Brasil é, para os árabes, um importante mercado consumidor para seus produtos de origem petroquímica, o país que fornece boa parte do alimento consumido por suas populações, a nação que recebe importantes investimentos de fundos soberanos e empresas árabes em seu setor produtivo, notadamente agronegócio e infraestrutura logística. O Brasil, sem a menor dúvida, é um parceiro estratégico para os árabes. Mas há outros parceiros com o mesmo status. Os árabes têm acordos de livre comércio já firmados como vários países do mundo e com os principais blocos econômicos, entre eles, a União Europeia. Isso quer dizer que os árabes representam não só um grande mercado consumidor de 450 milhões de pessoas, mas, muito além disso, um mercado ampliado que chega a 2 bilhões de consumidores, entre muçulmanos e não-muçulmanos. Temos buscado sensibilizar os exportadores brasileiros para essas oportunidades, ou seja, alcançar mercados, inclusive países com os quais o Brasil tem relacionamento comercial direto abaixo do potencial, por meio dos países árabes. As condições para isso existem. Primeiro porque os árabes, como comerciantes natos, têm grande tradição em reexportação de produtos, tendo à disposição uma infraestrutura em portos e estruturas de armazenagem extremamente funcional, já consolidada. Só para dar um exemplo, os Emirados Árabes Unidos reexportam todo o ano aproximadamente US$ 50 bilhões, ou seja, 20% de tudo o que o Brasil vende, a diversos países da Europa e da Ásia por conta de seus acordos bilaterais de livre comércio e de facilitação de investimentos. Há no mundo árabe outros hubs de exportação em processo de consolidação. A Jordânia e o Egito estão avançando muito nesse propósito e podemos muito bem utilizar nosso excelente relacionamento com esses países para alavancar ainda mais exportações para a Ásia e para a União Europeia.

TW – Com a realização do evento que levará uma comitiva de empresários brasileiros interessados em negócios com os países do mundo árabe (World Company Award- WOCA) em julho de 2019, na cidade do Cairo, no Egito, quais são as expectativas de incremento para novos acordos?

RH – Eventos como o World Company Award (WOCA) são de extrema importância para o Brasil e para as empresas brasileiras que buscam expandir sua atuação nos países árabes, pois, neles, contatos são feitos e negócios são efetivados. Vale ressaltar que o fato de ser realizado no Egito será salutar para incrementar o comércio do Brasil com o país e com os demais árabes. O Egito é o único país com o qual o Brasil, por meio do Mercosul, tem acordo de livre comércio em vigor no mundo árabe, que, aliás, desde sua celebração, vem promovendo um incremento significativo no comércio bilateral. Em 2018, o país árabe do norte africano, que historicamente sempre foi o terceiro comprador de produtos brasileiros entre os membros da Liga Árabe, ultrapassou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, de forma que hoje é o maior parceiro comercial do Brasil na região. Seu exército, que está entre as dez maiores forças militares do mundo, é o maior importador de alimentos brasileiros no mundo árabe. Faz compras regulares para alimentar sua tropa e para distribuir alimentos à população de baixa renda em volumes expressivos. Além disso, o Egito é um país cuja economia cresce a taxas superiores às do Brasil; que está se industrializando rápido; que está ampliando sua infraestrutura, com o Novo Canal de Suez, sua nova capital administrativa, uma cidade inteligente e planejada, e a maior hidrelétrica do mundo,
em Assuã; que busca atrair investimentos com a criação de zonas francas estrategicamente posicionadas no meio da principal rota de comércio entre a Europa e a Ásia; e cuja população é a maior da Liga Árabe (98 milhões de pessoas), com altas taxas de urbanização e natalidade, além da perspectiva de demanda aquecida pelos próximos anos para alimentos e outros produtos. Soma-se a isso o fato de o país recentemente ter facilitado a importação de frango dos países-membros da Organização Mundial de Saúde Animal, o Brasil entre eles.

TW – Sobre os possíveis entraves nas relações comerciais entre brasileiros e árabes, identifique e analise o cenário e o que pode ser aprimorado.

RH – Certamente teríamos muito a ganhar se fizéssemos avançar os acordos de livre comércio que estão parados. Temos apenas um acordo em vigor, o Mercosul-Egito, desde 2017, que já está entrando na segunda lista de produtos com isenções. Mas há outros, como o Mercosul-Jordânia, Mercosul-Líbia, Mercosul-Líbano, parados por sensibilidades tanto do Brasil quanto dos parceiros árabes, além do Mercosul-Conselho de Cooperação do Golfo, que sequer chegou a ser rascunhado por sensibilidades do setor petroquímico brasileiro, que teme uma concorrência desleal. Seria muito importante efetivar esses acordos para alavancar o comércio. Além disso, dado o imenso potencial de investimentos de fundos soberanos árabes no Brasil, seria estratégico efetivar mais acordos de não-bitributação de investimentos, como o
que recentemente firmamos com os Emirados Árabes Unidos. Outra ação que consideramos essencial é retomar as visitas de alto nível à região, isto é, visitas de presidente da República e de ministros de Estado. A última já tem vários anos. O comércio bilateral vem se desenvolvendo. Mas poderia ter crescido mais se houvesse mais interações regulares, de chefes e ministros de Estado, com a intenção específica de avançar em agendas bilaterais comerciais.

TW – O que mudou sobre a imagem que o Brasil projeta entre as nações árabes depois da posse do novo governo brasileiro?

RH – A imagem do Brasil no bloco é ainda a de um país amigo. De forma geral, nossa interlocução com o governo tem sido positiva. Não temos tido problemas para marcar audiências e já tivemos encontros com o Ministério da Agricultura, com o Itamaraty, na APEX, com o Ministério da Economia e até com o vice-presidente Mourão nesses primeiros meses de governo. Em todas essas visitas, colhemos a impressão de que o governo está muito consciente da importância do comércio com os países árabes e de seu imenso potencial futuro. Tanto que há a perspectiva de uma visita presidencial em breve a país árabe, o que certamente será benéfico para as relações comerciais do Brasil com os países da região.

TW – Em 2018, após a realização do Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, qual foi o principal legado deixado pelo evento?

RH – Foi um marco nas relações Brasil-Países Árabes, porque no evento iniciamos a construção do futuro dessa relação bilateral, como deixa claro o tema central “Construindo o Futuro”. Tivemos a presença de mais de 700 lideranças empresais brasileiras e árabes, discutimos oportunidades, possíveis cooperações e temas centrais da relação bilateral Brasil-Países Árabes. Para tanto, o evento foi dividido em painéis temáticos que procuraram sintetizar as discussões mais importantes: Segurança Alimentar e Logística; Inovação e Tecnologia; Investimentos; Energias Renováveis; Halal; Imagem, Branding e Turismo.

No painel de Segurança Alimentar e Logística, pudemos discutir as oportunidades de cooperação entre o Brasil e os países árabes para equacionar a necessidade dessas nações por um fornecimento constante de alimentos, tendo em perspectiva que os árabes têm grandes contingentes populacionais e recursos limitados em solos aráveis. No painel de Investimentos, pudemos discutir aspectos relacionados às finanças islâmicas e as oportunidades de investimentos envolvendo fundos soberanos árabes, que possuem em torno de US$ 2,3 trilhões. No painel de Inovação e Tecnologia, foram apresentadas as diversas iniciativas existentes nos países árabes para fomentar inovações e desenvolver tecnologias. Os árabes sabem que a era do petróleo terá um fim e preparam a transição de suas economias com sólidos investimentos em geração de inovação e tecnologia, que já começam a aparecer na forma de cidades sustentáveis e inteligentes, além de polos de desenvolvimento tecnológico que serão, num futuro breve, celeiros de inovações.
O painel de Energias Renováveis seguiu detalhando as iniciativas árabes no desenvolvimento de energia limpa, uma grande preocupação na região e uma importante estratégia de desenvolvimento.

O painel Halal debateu as inúmeras oportunidades existentes com esse tipo de produto. Vale ressaltar que o halal não é só o produto cuja fabricação respeita os princípios do islã. O halal é cada vez mais associado a um estilo de vida, a produtos mais saudáveis, de maior qualidade, que podem ser consumidos por muçulmanos e não-muçulmanos e que vão muito além da proteína animal, segmento no qual o Brasil é líder inconteste. Nesse painel discutimos ainda as inúmeras possibilidades para o Brasil nesse mercado, que compreende nada menos de 1,8 bilhão de consumidores ansiosos por fármacos, cosméticos e serviços com características halal, além do alimento, é claro. No painel de Imagem, Branding e Turismo também debatemos as oportunidades de promoção do turismo pelos meios digitais e como atingir de forma mais assertiva os consumidores árabes, numa espiral de agregação de valor. Com a presença do então presidente da República, Michel Temer, e de ministros do Estado brasileiro e das principais lideranças do empresariado árabe, de forma que questões muito importantes da relação bilateral acabaram por ganhar projeção nacional.

O evento, com sua proposta de discutir o futuro das relações Brasil-Países Árabes, teve continuidade numa série de ações da nossa entidade, de forma que não se limitou a um momento de discussão e debate. Já no final de 2018, a Câmara Árabe tratou sobre segurança alimentar, por exemplo, na 6a Conferência Árabe para Investimentos em Segurança Alimentar, em Fujairah, nos Emirados. A entidade também está desenvolvendo um estudo sobre o tema em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Universidade de São Paulo (USP).

Na seara logística, a Câmara Árabe vai organizar em conjunto com a União das Câmaras e a Universidade de Alexandria, no Egito, um fórum sobre logística e transporte, que será realizado em dezembro. A entidade também planeja a realização de um fórum sobre finanças islâmicas. A ideia é explicar melhor no Brasil como funciona o sistema financeiro nos países árabes e islâmicos. Na frente Energias Renováveis, a Câmara Árabe vai participar pela segunda vez da feira WETEX, nos Emirados Árabes Unidos, feira especializada no segmento, para aproximar as empresas brasileiras do mercado árabe.

TW – Existe algum tipo de promoção da cultura brasileira de forma a aumentar o apelo do produto nacional entre as nações árabes?

RH – Existe e já identificamos quais seriam as mais eficazes. Em 2018, a Câmara Árabe realizou uma ampla pesquisa de imagem no Brasil e em cinco países árabes que concentram a maior parte da população do bloco e com quem o Brasil mantém as mais expressivas relações bilaterais comerciais. A pesquisa foi realizada pela rede Asfour, de empresas de pesquisas de mercado, sob a coordenação da brasileira H2R. Identificamos muitos pontos de intersecção entre a imagem do Brasil entre os árabes e a imagem dos árabes entre os brasileiros. Vou me limitar às mais relevantes ao comércio. A
primeira delas é que o Brasil é para os árabes, além de uma nação amiga, um país reconhecido pela excelência na produção de produtos halal, ou seja, que respeita os princípios do islã e que estão cada vez mais associados a pro-
dutos saudáveis, de qualidade e relacionados a um estilo de vida particular. Essa conexão com o alimento pode ser explorada e se estende não só para o açúcar, o frango e a carne bovina, os produtos brasileiros mais consumidos no mundo árabe, mas também para o café. Futuramente pode ser estendida a outros produtos halal, como cosméticos, produtos de higiene e beleza, medicamentos, mercados que o Brasil apenas explora superficialmente no momento. Além disso, os árabes se identificam muito com o futebol brasileiro, de modo que esse aspecto da nossa cultura é muito forte no imaginário desses povos, mais até que o Carnaval, a festa pela qual o Brasil é mundialmente conhecido.

A pesquisa identificou também um grande potencial para o turismo. Nada menos que 40% dos brasileiros disseram estar dispostos a fazer turismo em um país árabe. Eles associam esses países a locais de luxo, modernidade e de experiencias culturais que não teriam em nenhum outro lugar. Um potencial turístico expressivo existe do lado dos árabes, cada vez mais fascinados pela exuberância da Amazônia, das praias e das demais paisagens brasileiras. Essas são algumas das intersecções que identificamos nessa pesquisa de imagem mútua que, se bem exploradas, podem ajudar na consolidação da identidade do produto brasileiro ou da marca Brasil no mundo árabe.

TW – O que pode ser dito sobre pontos em comum para o turismo entre brasileiros e árabes? Que tipo de interesse mútuo de fato se pode notar em relação ao desenvolvimento deste setor?

RH – A pesquisa de imagem mútua encomendada ano passado pela Câmara Árabe deixa claro que existe potencial. O primeiro passo é intensificar a promoção do turismo nas duas regiões. E isso deve ser feito a partir das identificações mais comuns dos brasileiros em relação ao mundo árabe e dos árabes em relação ao Brasil, florestas de um lado, deserto pelo outro.

TW – Com base na conjuntura político-econômica contemporânea, em sua percepção, o que se pode projetar para os próximos dez anos a respeito das relações comerciais entre Brasil e países árabes?

RH – O potencial de crescimento das relações Brasil-Países árabes está claro. Fizemos recentemente um estudo, entregue a autoridades-chave da administração federal, segundo o qual as exportações brasileiras para os países
árabes podem aumentar dos atuais US$ 11,45 bilhões para até US$ 20 bilhões nos próximos quatro anos, apenas com ações de promoção mais assertivas.

Muito mais pode ser alcançado se questões estruturais forem resolvidas, como a efetivação de acordos de livre comércio e de facilitação de investimentos para favorecer a realização de aportes de capital árabe no Brasil em projetos produtivos conjuntos. Há também um potencial ainda maior de comércio a ser explorado por meio dos países árabes que alcançam consumidores e mercados atualmente inviáveis diretamente para o Brasil. Mas isso depende, é claro, de uma estratégia para posicionar globalmente o Brasil como expert na produção de itens halal e do estabelecimento de alianças com países árabes para fazer nosso produto chegar a novos mercados.

Depende ainda de uma estratégia global de promoção do Brasil como expert em produto halal. Os árabes conhecem muito bem nossas qualidades. Boa parte dos países islâmicos também. Mas ainda é fato que muitos brasileiros sequer sabem que somos o maior exportador de itens halal do planeta hoje, mesmo tendo entre nós 14 milhões de brasileiros cujos pais, avós e bisavós nasceram em países árabes. Ainda muito há por fazer. A começar pela divulgação da importância dos países árabes para o Brasil no comércio e seu potencial em diversas outras áreas.

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