Esse bicho chamado ESG

por The Winners
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Fiquei muito honrado com o convite da Revista The Winners para assinar uma coluna dedicada a um tema tão atual, mas cuja compreensão e alcance não são óbvios: ESG, sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (ASG em português, ambiental, social e governança). Na verdade, para saber o porquê dessa enorme relevância das práticas ESG basta entender que qualquer empreendimento humano enseja consequências, as chamadas externalidades, e que essas consequências têm que ser medidas e computadas na equação desse empreendimento. Neste primeiro texto, vou falar um pouco de base teórica, começando com dois economistas ingleses considerados os primeiros formuladores do conceito de externalidades: Henry Sidgwick (1838-1900) e Arthur Pigou (1877-1959).

Nos tempos deles, os trens eram movidos a vapor de água, produzido a partir da queima de carvão numa caldeira que ia montada na locomotiva. Além de muito vapor e fumaça, o resultado dessa operação era também muita faísca de carvão incandescente pulando para fora do veículo e queimando as plantações de trigo às margens da estrada de ferro. Observando esse fenômeno durante uma viagem, Sidgwick teorizou pela primeira vez que aquela externalidade negativa (a queima do trigo de um terceiro que não participava da relação econômica operador do trem – passageiro) não estava computada no preço da viagem, embora ela tivesse um custo para o proprietário da cultura em chamas. Mais tarde, Pigou foi ainda mais longe na caracterização das externalidades de um empreendimento, que podem ser negativas como no caso desse trem, ou positivas, como a captura de carbono consequência de um projeto de reflorestamento. Só mais um pouquinho de teoria para ajudar a entender a emergência do ESG nos tempos atuais: por muitas décadas as empresas foram geridas tendo como principal função social a criação de valor para os acionistas. Nessa “primazia do acionista” como ficou conhecida a vertente do liberalismo econômico da chamada Escola de Chicago, a empresa ter um bom desempenho financeiro é suficiente para ela prosperar. No entanto, hoje não é minimamente possível aceitar que a empresa ganhe valor para seus acionistas em detrimento do meio ambiente, dos seus empregados ou da qualidade de vida da comunidade onde está inserida Em agosto de 2019, sinais claros de mudança desse conceito de valor empresarial veio do Business Roundtable (BRT), organização que reúne os CEOs das principais corporações americanas,
como PepsiCo, Apple, Black Rock e Walmart.

Numa declaração conjunta, as empresas se comprometeram a agregar valor para todas as partes com que se relacionam (“stakeholders”), incluindo clientes, funcionários, fornecedores e comunidades onde desempenham suas atividades. Foi cunhado, assim, o termo “capitalismo de stakeholders” ou “primazia dos stakeholders”. Pois bem, juntando tudo isso, podemos dizer que o ESG é o sistema pelo qual a empresa tenta reunir, contabilizar e informar às partes relacionadas seus ativos intangíveis, ou seja, os aspectos sociais, ambientais e de governança de suas atividades. Será um prazer enorme explorar esses conceitos com vocês nas próximas edições.

Eduardo Marson Ferreira, CEO e co-fundador da Global Forest Bond, startup de precificação e monetização de florestas preservadas e Conselheiro de empresas. Foi CEO do Airbus Group Brasil, da Helibras e da Fundação Ezute. Membro do Conselho de Administração da Desenvolve SP, banco de fomento do Estado de São Paulo e membro titular do Grupo de Acompanhamento da Conjuntura Internacional do Instituto de Relações Internacionais da USP, do Conselho Consultivo BNPetro e da Câmara Ambiental de Mudanças Climáticas da CETESB – SP

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