Empreendedora, substantivo feminino de alto impacto

por The Winners
Eliane Santos Vieira, 55 anos, é jornalista, especialista em Gestão de Pequenos Negócios pela FGV-SP, vencedora do Troféu Mulher Imprensa 2011, especializada em empreendedorismo e consultora na área de comunicação do Sebrae em São Paulo desde 1992

No final de 2021, mais de 10 milhões de brasileiras estavam à frente de um pequeno negócio, número 1,5 milhão maior que o registrado em meados de 2020. Sinal claro que o ato de empreender foi o escolhido por essas mulheres como forma de gerar trabalho e renda, próprio e para outras mulheres durante a pandemia da Covid-19. Sim, a sororidade também está presente no mundo dos pequenos negócios liderados por mulheres. Está comprovado que ao melhorar suas condições financeiras, a mulher investe mais na educação dos filhos, apoia sua comunidade, assiste seus familiares. E também contrata outras mulheres, que vão reagir da mesma forma, alimentando o ciclo virtuoso do desenvolvimento verdadeiramente sustentável. Esse é um dos motivos que nos levam a acreditar que empresas fundadas durante a pandemia tem um perfil que sinaliza movimento interessante e promissor não só para o mundo dos negócios, mas para a sociedade em geral. O Brasil é o sétimo país com o maior número de mulheres empreendedoras no mundo, sendo que 72% das mulheres são totalmente ou parcialmente independentes financeiramente e 70% possuem sócias mulheres.

Ou seja, o jeito de empreender nesta era que emergiu transformada pós-Covid, ou seja, mais conectada, inovadora, multifacetada, vai ganhar cada vez mais contornos do jeito feminino de empreender, em que resiliência, criatividade, atuação em rede, busca de conhecimentos e coragem são imperativos e chaves do sucesso. Outros destaques que apontam nesta direção: 43% das mulheres que começaram a empreender na pandemia declararam que o fizeram movida por um sonho. E mesmo com todos os efeitos perniciosos da pandemia, menos da metade das empreendedoras pensam em desistir. E mais: a participação de jovens (de 18 a 30 anos) à frente da própria empresa subiu de 6% para 25% durante o período da pandemia. Mais que números, são histórias de vida que reforçam os indicadores e passam a inspirar outras mulheres a iniciar a jornada empreendedora. O sonho de empreender e a perseverança foram fundamentais para Isla Oliveira, enfermeira de profissão, doceira de coração, de 25 anos.

Isla Oliveira – Ateliê de Doces

Ela decidiu que era hora de ir além após os resultados positivos das vendas de brigadeiros no condomínio onde mora e abriu o Ateliê de Doces com o apoio do marido, Tercio Fillipe. Seu desejo de empreender também veio da flexibilidade que um negócio próprio pode trazer, permitindo a ela conciliar todas suas tarefas com a ajuda do marido. Ela conta que
começou a empreender cedo, vendendo doces no colégio, e a vontade de ter o próprio negócio só crescia. Com apoio da Prefeitura, da Secretaria da Mulher investiu em capacitação – ela faz parte do time cada vez maior de mulheres que dedicam mais de 27 horas do mês para aprender mais sobre gestão e comportamento empreendedor – concretizou o sonho, aprimorou técnicas de vendas, aumentou produtividade, conquistou novos clientes e ganhou rentabilidade. Mas nem tudo são flores. Mesmo com toda essa força, as adversidades continuam gigantes, em especial quando se trata de remuneração.

Mesmo tendo escolaridade média superior a dos homens, o rendimento mensal é significativamente menor: no último trimestre de 2021, 54% das mulheres tinham um rendimento mensal de até 1 salário-mínimo, contra 40% dos homens. No auge da crise, cerca de 70% das empreendedoras recebiam até 1 salário-mínimo, enquanto 50% dos homens registravam o mesmo valor. Além disso, esbarram na questão cultural, que coloca à prova a capacidade técnica, de gerir uma empresa, de liderar colaboradores, de fazer acontecer que podem não impedir o surgimento de uma empresa, mas retardam, e muito o crescimento dos empreendimentos liderados por mulheres. Exemplo disse é a presença feminina dentro de ecossistemas de inovação, que ainda é pífio. No Brasil, 4,7% das startups foram fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% por homens e mulheres. A mineira Priscila Faria é protagonista neste seleto grupo, liderando a startup Recicla Club, de gestão de resíduos. Com 27 anos, ela tem garra e determinação que a motivam a não fugir do combate e superar os desafios diários. E ela precisa disso, porque atua numa área muito masculina, como ainda são os segmentos
automotivo, alimentício e de desenvolvimento de tecnologias industriais. Foi esse perfil arrojado e combativo que a levaram a vencer no ano passado, o Planeta Startup, reality show da tevê brasileira que premiou com R$ 1 milhão startups lideradas por mulheres

Priscila Faria – startup Recicla Club

Segundo o Fórum Econômico Mundial (FEM), serão necessários 136 anos para que a igualdade entre homens e mulheres seja alcançada globalmente. E de acordo com um estudo do Mckinsey Global Institute, promover a igualdade de condições de atuação, significa incremento de 30% do Produto Interno Bruto. Estamos falando na possibilidade de acrescentar R$ 2,6 trilhões aos R$ 8,7 trilhões resultantes da soma de todos os bens e serviços finais produzidos pelo Brasil em 2021. Portanto, não há tempo a perder. Homens e mulheres andando lado a lado é imperativo para
trazer resultado efetivo no bolso e no caixa, das empresas e dos países (PIB), e promover o desenvolvimento verdadeiramente sustentável mais do que fazer bonito em rankings mundiais, nas redes sociais. Não é favorecimento, é crescimento. Diante desse novo cenário, com mais mulheres à frente de um empreendimento, é urgente não só o debate que revelem as profundezas da desigualdade, mas também a ação, com o ajuste dos marcos legais e a conexão de esforços e recursos que assegurem as mesmas condições de competitividade dos homens e quebrem o pernicioso paradigma cultural que hoje ainda persiste em colocar as mulheres na segunda classe. Será um divisor de águas na vida das empreendedoras, um impulsionador fantástico do empreendedorismo de alto impacto, um gerador inigualável de riqueza.

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