Elias Awad: O maior contador de histórias empreendedoras do Brasil

por The Winners
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Entrevista realizada na edição #21 da Revista The Winners

Agostinho Turbian: Elias, você é uma pessoa realizada?

Elias Awad: “Há quase 15 anos eu me considero uma pessoa realizada pessoal e profissionalmente. Digo isso porque desde que escrevi o meu primeiro livro, em 2003, encontrei o meu propósito de vida.” Minha maior dificuldade quando decidi escrever esse texto foi encontrar o título adequado. Listei vários, dentre eles: “O rei das biografias no Brasil”, “A arte de contar histórias”, “O maior contador de histórias de sucesso do Brasil”, “O maior contador de histórias empreendedoras do Brasil”, “O ‘dono’ dos segredos dos gênios empreendedores brasileiros”, “Contar histórias, mudar vidas e transformar pessoas”.

Num país em que 75% são infelizes naquilo que trabalham e realizam, a história do escritor, biógrafo e palestrante Elias Awad, que atualmente escreve seu 22o livro, chamou-me atenção. O autor se especializou em escrever biografias dos principais empreendedores brasileiros.

Em sua vasta relação de biografados estão gênios empreendedores como: Samuel Klein (fundador da Casas Bahia), Celso Ricardo de Moraes (Kopenhagen e Chocolates Brasil Cacau), Mário Gazin (Gazin Holding, quarta rede de varejo no segmento em que atua no Brasil), Oscar Schmidt (principal nome do basquete brasileiro e homenageado com a inclusão de sua história e de seu nome no Hall da Fama do basquete mundial), Affonso Brandão Hennel (fundador da Semp Toshiba e Semp TCL), Armindo Dias (presidente do Grupo Arcel e do Royal Palm Hotels & Resorts), João Uchôa Cavalcanti Netto (fundador da Universidade Estácio de Sá), Mr. Fisk (presidente da Fundação Richard Hugh Fisk – Escolas Fisk e PBF), Julio Simões (fundador do Grupo Julio Simões – JSL Logística), Vicencio Paludo (fundador da Vipal
Borrachas), entre outros. Além desses nomes, ele também escreveu Sucesso em palavras: um conjunto de 16 biografias de destaques empresariais brasileiros, como as de Viviane Senna (Instituto Ayrton Senna), Alberto Saraiva (Habib’s), Chieko Aoki (Blue Tree Hotels), Guilherme Paulus (CVC), João Dória Jr. (Grupo Doria) e Sônia Hess (Dudalina). Todos foram lançados pela Novo Século Editora.

Encontrar o tal propósito exigiu que Elias Awad enfrentasse uma série de mudanças significativas. Inicialmente, ele se graduou em Administração de Empresas, e por seis anos foi executivo da área comercial de zinco do Grupo Votorantim. Aos 24 anos, estava infeliz na profissão e decidiu mudar: pediu demissão e iniciou na carreira de jornalista esportivo, graduando-se também na área. A felicidade reapareceu. Awad rapidamente chegou às rádios Eldorado e Gazeta e posteriormente foi contratado pela Band TV, trabalhando por muitos anos na equipe comandada pelo narrador Luciano do Valle. Passou também pelo SporTV, PSN e SBT. Cobriu alguns dos principais eventos esportivos, como Olimpíadas e Copas do Mundo.

Tudo ia bem, até que aquela sensação de infelicidade profissional voltou a bater. “Foi um grande dilema, porque eu estava cobrindo um clássico do futebol com o estádio do Morumbi lotado e pensei: Estou onde muitos querem estar, onde eu lutei muito para chegar, mas estou infeliz!”, disse.

Nesse momento, aconteceu uma grande virada na vida de Elias Awad. Ele foi apresentado ao empresário Samuel Klein, que idealizava ter uma biografia. Na conversa inicial, o autor sentiu o peso de se relacionar com um empresário tão bem preparado quanto Klein: “O senhor Samuel me disse: ‘Elias, quanto maior o problema, maior a oportunidade’. Entendi que era isso que eu tinha pela frente: escrever a biografia do maior varejista da história do segmento no Brasil. Um grande problema a ser solucionado, devido à minha inexperiência, mas também uma enorme oportunidade profissional.”
É claro que quando damos um passo decisivo na vida, ou mesmo ao enfrentarmos um novo desafio, a insegurança se faz presente. O que não se pode fazer é deixar que ela nos vença. Mais uma vez, as palavras do empresário Klein foram decisivas na trajetória de Awad: “Eu estava assustado em estrear como biógrafo e já escrevendo a história de um ‘peso pesado’ como o senhor Samuel. Mas ele estava tão convicto de que eu poderia escrever o livro que pensei: Se o senhor
Samuel me escolheu e está seguro de que posso biografá-lo, quem sou eu para duvidar disso? Pois vou enfrentar e vencer esse desafio”. E assim aconteceu. Depois de quase 15 anos, Elias Awad escreve agora seu 22o livro, e a biografia de Samuel Klein está na sexta edição. Ao todo, as vendas dos livros do autor já ultrapassaram a casa dos 500 mil exemplares.

Alguns dos seus livros foram traduzidos para o inglês e o espanhol. Awad também fez pós-graduação em Liderança e Gestão de Pessoas e Equipes, além de se aprofundar na biografia sob o olhar da Antroposofia. Awad apresentou ainda por quatro anos o programa “Biografias”, na Rádio Eldorado (Estadão), onde mais de 200 empreendedores contaram suas trajetórias.

Após acumular grande experiência em trajetórias e histórias de sucesso, fica a pergunta: o que será que os grandes empreendedores têm em comum? Awad explica através de parábolas: “Para contextualizar, esses empreendedores são
perseverantes e estão sempre convictos daquilo que querem. Seria como se eles idealizassem pegar as estrelas com as mãos e realmente conseguissem. Muitos também querem, mas criam contra si situações de autossabotagem e dizem:
‘Meu braço é muito curto’, ‘Estrelas queimam’, ‘Isso é impossível’, e por aí vai”. Em sua trajetória de biógrafo, Elias Awad coleciona passagens que emocionam, ensinam, transformam, divertem e que são, como se costuma dizer, verdadeiras receitas de sucesso. Entre algumas das mais emocionantes, Elias Awad destaca os depoimentos de Samuel Klein, Affonso Brandão Hennel e Mr. Fisk, por causa de suas passagens pela Segunda Guerra Mundial. Klein, judeu-polonês que foi prisioneiro de guerra do exército alemão, viveu certamente essa experiência do lado mais difícil da história. “Eu me emocionei com as narrativas do senhor Samuel, como quando ele contou que aos seis anos levou uma pedrada que abriu sua testa, dada por um coleguinha de escola, que ainda disse: ‘Toma, judeuzinho sujo!’. Ou mesmo narrando as barbáries que os soldados alemães faziam com os prisioneiros. Certa vez, eu perguntei a ele: ‘Senhor Samuel, por que o senhor queria continuar a viver, mesmo passando por tanto sofrimento?’. Com um sorriso no rosto, ele disse: ‘Porque acreditava que o amanhã seria melhor!’. Então, se um prisioneiro da Segunda Guerra consegue enxergar e sentir isso, quem somos nós para pensar diferente? Temos que pensar sempre de forma positiva e perceber as oportunidades que se apresentam por trás das dificuldades!”, contou Awad.

O escritor relata outras passagens ocorridas na Segunda Guerra: “Lembro-me do Mr. Fisk, homem sempre contido nas emoções, chegar às lágrimas ao me contar sobre o show feito pela atriz e cantora alemã, Marlene Dietrich, durante um momento de trégua na Segunda Guerra. Ou mesmo do olhar observador do empresário Affonso Brandão Hennel, que aos 17 anos foi morar e estudar nos Estados Unidos em 1947, o que representa, sem dúvida, uma decisão que antecedeu ao seu tempo. Ele me contou que justamente em 1947 aconteceu o marco da consolidação da mulher no mercado de trabalho norte-americano. Como os rapazes foram defender o país, sobraram vagas de emprego e faltava mão de obra. Assim, as mulheres preencheram as vagas. Quando os jovens voltaram da guerra, não havia emprego suficiente para eles. As mulheres foram mantidas em seus postos, e o governo dos Estados Unidos absorveu grande parte da mão de obra excedente”. Com certeza, essa é uma tendência que se globalizou.

Elias Awad

O mundo dos negócios também é extremamente abordado por Awad em seus livros. Passagens sobre liderança, criatividade, resiliência, perseverança, entre outras, recheiam as páginas das obras. O escritor relata uma das principais características em comum entre os grandes empreendedores: “Sem dúvida, é a convicção! Muitos tentam convencer os amigos e familiares de que estão certos em iniciar um negócio ou redirecionar a carreira. E é natural que eles digam: ‘Não faça isso, você vai se dar mal’. Os únicos que devem estar convictos nesse tipo de situação somos nós mesmos, que estamos prestar a dar um passo importante na vida e na carreira. O empresário Celso Ricardo de Moraes, a quem tive a honra de biografar, estava convicto ao mudar de ramo, em 1996, quando se desfez de um dos principais laboratórios de remédios do Brasil para investir na Kopenhagen e depois na Chocolates Brasil Cacau e firmar joint venture com a Lindt.

Muitos talvez não tivessem essa coragem. Mudar assusta e incomoda, mas vale a pena!”. Ah, as situações divertidas também acontecem, pois é preciso seguir o biografado passo a passo. Awad conta em detalhes: “Gosto de acompanhar os meus biografados em suas atividades e, quando possível, nas viagens. Isso ajuda a conhecer melhor o/a empresário/a e o
ser humano que representa aquele/a homem/ mulher de negócios. Certa vez, haveria uma feira do segmento e me perguntaram se eu tinha a certeza de preferir ‘me hospedar’ no mesmo local em que ficaria meu biografado. Fizeram e refizeram a pergunta. É claro que eu estranhei, mas respondi que sim. Foram quatro dias de viagens, e ficamos hospedados numa grande casa com toda a equipe de vendas, umas 80 pessoas, dormindo as quatro noites em colchões espalhados pelo chão. Só depois é que entendi o motivo de perguntarem tantas vezes… Mas foram dias maravilhosos,
em que conheci e aprendi a respeitar ainda mais meu biografado e sua simplicidade. Ele era meu ‘vizinho de cama’. Estou me referindo ao empresário Mário Gazin, fundador e presidente do conselho de uma empresa que fatura mais de R$ 4 bilhões por ano!”.

Uma das frases mais impactantes, sábias e amplamente comentadas no mundo dos negócios, diz que talvez nós não saibamos o segredo para o sucesso, mas que tentar agradar todo mundo é o segredo para o fracasso. Em conversas reservadas com seus biografados, Elias garimpou um riquíssimo material de aprendizado: “Os grandes empreendedores aprendem a dizer ‘não’ em suas tomadas de decisões. E, muitas vezes, um ‘não’ pode representar, em vez de uma negativa, a necessidade de um redirecionamento de projeto. Um dos meus biografados, João Uchôa Cavalcanti Netto, ganhou uma linda casa de presente do Amador Aguiar, presidente do Bradesco, para quem trabalhava na década de 1950. Pois ele teve a coragem de devolver a casa e não aceitar o presente, para ter liberdade de seguir sua vida profissional
fora do banco. Ele se mudou para o Rio de Janeiro, tornou-se juiz de direito e criou uma pequena escola, transformando-a na gigante Universidade Estácio de Sá”.

A palavra “não” tem também outra importância: saber lidar com ela quando a recebemos. Para muitos, receber um “não” representa o fim da linha. Awad traz um novo exemplo: “Os ‘nãos’ que recebemos são responsáveis pelos acasos e mudanças de rumo que acontecem em nossas vidas. Por exemplo, dois dos meus biografados, Vicencio Paludo e Armindo Dias, receberam duros e doloridos ‘nãos’ de seus respectivos pais. Vicencio, muito jovem e recém-casado, pediu ao pai um emprego em troca de casa e comida, mas recebeu um ‘não’. O jovem Armindo pediu 500 dólares emprestados ao pai
para trocar a dura vida na lavoura de Portugal pelo Brasil, mas também recebeu um ‘não’. Ambos seguiram firmes em seus propósitos. Vicencio Paludo sofreu bastante e conseguiu fundar a Vipal, uma das principais empresas de borracha do setor pneumático no mundo. Armindo Dias veio para o Brasil e, depois de muito lutar, foi o proprietário da fábrica de biscoitos Triunfo; decidiu então vender a empresa para a Danone e teve disposição para recomeçar e investir em hotelaria, na rede Royal Palm Hotels & Resorts. Ambos iniciaram seus negócios com mais de 50 anos. Nunca é tarde para começar! Nunca é tarde para empreender!”.

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