Daniel Maranhão: Gestão consciente e estratégica com foco no desenvolvimento

por The Winners

Daniel Maranhão, CEO da Grant Thornton Brasil, possui mais de 30 anos de atuação no mercado de auditoria e consultoria. É bacharel em Ciências Contábeis e Administração, além de MBA e cursos de especialização pelas Universidades de São Paulo, da Califórnia, Oxford e Harvard. À frente da Grant Thornton Brasil desde 2014, foi o responsável por liderar o maior crescimento da empresa entre os 140 países onde ela atua, por dois anos consecutivos. Um profissional centrado em suas ações, que reafirma seu compromisso de atuar de maneira consistente em projetos relacionados à diversidade, inclusão, empreendedorismo e voluntariado, e que defende uma gestão pautada na maior digitalização e uso de tecnologias inovadoras em todas as esferas administrativas, pública e privada, apoiando avanços em municípios, nos estados e no país. Sua liderança está diretamente associada não apenas aos serviços da companhia global de auditoria e consultoria, mas também ao seu compromisso de auxiliar as organizações a evoluírem na sua maturidade em Governança e Sustentabilidade e de contribuir para o alcance das metas globais de desenvolvimento sustentável. Nesse espírito de construção mútua e rumo ao desenvolvimento da sociedade, ele concedeu uma entrevista exclusiva à revista The Winners, confira!

The Winners – Uma pesquisa realizada pela Grant Thornton, mostra que a média de empresários otimistas registrada em 2021 foi de 64%, a maior desde 2012. No entanto, o Brasil caiu para a 10ª posição no ranking de otimismo global de empresários. De forma prática qual o impacto desse resultado para o crescimento da economia em 2022?

Daniel Maranhão – Essa queda do Brasil no ranking global se deve ao aumento das expectativas positivas também em outros países. Em alguns, essas expectativas foram superiores às brasileiras. Isto mostra o comprometimento dos
empresários com a retomada da economia nos próximos 12 meses, no que acreditamos ser a pós-pandemia, graças ao avanço da vacinação ao redor do mundo. No Brasil, apesar da alta da inflação e da taxa de juros, os empresários esperam crescimento nos negócios. Terminamos 2021 com um cenário de revisão do PIB para baixo, mas o otimismo se manteve porque muitas empresas conseguiram se recuperar das perdas mais agudas da pandemia. Também há uma expectativa de maior investimento por parte do governo em infraestrutura, comum em ano eleitoral, e do setor privado, via concessões em saneamento básico e energia. Do ponto de vista do consumo, o Auxílio Brasil em 2022, acima da média do passado, pode gerar um resultado parecido com o de 2020, que impulsionou o consumo das famílias de baixa renda.

 

TW – Embora o levantamento International Business Report (IBR), realizado em 29 países onde encontramos a atuação da Grant Thornton, tenha constatado que os empresários brasileiros têm se importado cada vez mais com as práticas de ESG (ambientais, sociais e de governança) ainda existe muitas críticas entre intenção e realidade. Como um defensor do tema, como o senhor vê a questão?

DM – Fizemos uma pesquisa no final de 2021, em parceria com a XP Inc. e a Fundação Dom Cabral, na qual 75% dos participantes consideram ESG como prioridade e 86% concordam que a organização poderá sofrer impacto negativo
no futuro, caso não adote essas práticas. Apesar de faltar clareza sobre quais práticas são prioritárias para cada negócio e como integrar os aspectos ESG na estratégia das organizações, esse é um caminho sem volta. Nesse sentido, a Resolução 59, da CVM, com critérios para divulgação de ESG a partir de 2023, dá sinais importantes sobre o que o mercado espera das companhias. Além disso, as instituições financeiras observam o forte crescimento dos títulos de dívida corporativa das empresas ESG, com recorde de emissões de green bonds em 2021. Diante da procura por esses títulos, os bancos começaram a pressionar as empresas a se tornarem ESG. Portanto, a adoção dessas práticas é uma questão de tempo, pois os riscos da não adoção são grandes, podendo prejudicar a marca e, consequentemente, a perda de interesse dos investidores pela empresa.

 

TW – O senhor é conhecido por defender gestão responsável e boas práticas. Acredita que os acontecimentos mundiais dos últimos anos evidenciaram a necessidade para a manutenção da vida no planeta aliada ao consumo e atitudes mais responsáveis? Como unir esses pontos é possível?

DM – A pandemia e as catástrofes naturais nos últimos anos estão forçando organizações, governos e sociedade a dar mais atenção a aspectos tidos como não relevantes há alguns anos. As diretrizes mundiais pactuadas, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a Agenda 2030 da ONU, o Acordo de Paris, entre outras, nos apresentam um modelo relevante para direcionar os caminhos que necessitamos trilhar para construir o amanhã de forma consciente. Por isso, a colaboração entre os setores público e privado é de extrema importância para possibilitar o trabalho conjunto em pontos essenciais da gestão, com credibilidade, transparência, gestão de riscos e de custos, propósitos e projetos, automação e digitalização. A manutenção da vida no planeta e o consumo consciente permeiam todo esse processo, comprometido com metas e com uma rede de confiabilidade, no qual a projeção do futuro inclua soluções inovadoras a serem implementadas em grande escala, para uma gestão que se consolide no longo prazo. 

TW – Em um momento de discussão sobre sustentabilidade global, dados apontam que para 56,4% dos empresários brasileiros o sucesso financeiro e a sustentabilidade são igualmente importantes para os negócios, e temas como emissão de gases de efeito estufa e questões sociais são consideradas no gerenciamento da reputação da empresa. Mas de fato, como essas ações, ou falta delas, impacta na gestão de uma empresa?

DM – Os aspectos ESG podem impactar de maneira significativa o modelo de negócios e a geração de valor de uma empresa. Quanto pode custar para uma mineradora, por exemplo, as consequências do rompimento de uma barragem? Qual o impacto na reputação de uma empresa acusada de manter trabalho análogo à escravidão? E a credibilidade de uma instituição condenada por fraude financeira? Incluir as principais questões de sustentabilidade na estratégia das organizações é fundamental para uma gestão de riscos e crise. As instituições financeiras e os Private Equities têm um papel importantíssimo na adoção das práticas ESG pelas empresas, por meio de Compliance em ESG para liberação de recursos e investimentos. Não podemos esquecer, ainda, do potencial do país de desenvolver ações contundentes e se
beneficiar do mercado de crédito de carbono, estimado em US$ 1 trilhão nas próximas décadas. Somente o Brasil pode gerar até US$ 100 bilhões até 2030, além de atrair investimentos e promover desenvolvimento de cadeias produtivas.

 

TW – Muito se fala sobre “financiamento climático”, na prática como funciona e quais os benefícios para as empresas?

DM – O financiamento climático foi um dos temas centrais da COP26, pois será essencial para suportar novas tecnologias e infraestruturas necessárias para a transição para o Net Zero, como o acesso à energia de baixo carbono, assim como viabilizar a inovação para alcançar as metas de controle da mudança climática do Acordo de Paris.
Outros acordos estão em discussão para desenvolver uma pauta sobre o clima, o mercado de carbono e a biodiversidade no país, incluindo ferramentas para avaliar riscos com base nas práticas ESG. As diretrizes desse movimento ajudarão
as empresas a entender o que precisam fazer para ter acesso ao capital. No entanto, se quisermos atingir o Net Zero, é importante que as decisões políticas incluam empresas de médio porte no centro da discussão e acesso a financiamentos, pois elas são responsáveis por grande parte da geração do PIB do país e pelo desenvolvimento socioeconômico regional, mas, em geral, estão um passo atrás na estruturação ESG, em função dos custos envolvidos.

 

TW – Nos últimos meses tivemos muitas polêmicas sobre criptomoedas. Mas quais são os mitos e verdades sobre o assunto? O que podemos esperar desse mercado?

DM – Apesar das longas discussões sobre segurança, volatilidade e falta de regulamentação, as criptomoedas já são uma realidade inquestionável, com movimentação crescente diante dos avanços do ambiente digital globalizado. Nesse sentido, a Europa e os Estados Unidos já estão consideravelmente mais avançados em relação à regulação e legislação das criptomoedas, além de países que aceitam moedas digitais em suas transações. No Brasil, a falta de regulação específica das moedas virtuais quanto a sua operacionalização ainda gera muitas dúvidas. No entanto, existem projetos de Lei no Senado e na Câmara dos Deputados para regulamentar essas transações digitais no país. Isto é essencial para criar um ambiente mais seguro para os investidores, assim como uma nova fonte de receita para o governo. O fato é que a cada dia mais pessoas e empresas são atraídas para este mercado: seja para contar com mais uma forma de pagamento, seja para ter uma nova forma de alocação de recursos em busca de valorização e lucro.

 

TW – Um reflexo positivo da pandemia da covid-19 foi o aumento da demanda global em tecnologia, isso ampliou a receita do setor e promoveu inovação e novos investimentos. Sabemos que esse é um caminho sem volta. Como o senhor vê as perspectivas do setor?

DM – A área de Tecnologia da Informação ganhou extrema relevância ao longo da pandemia da covid-19. Em pouco tempo, ela foi alçada de coadjuvante a um dos papéis principais. A adoção do trabalho remoto em diversos setores, as compras online, saúde digital e aprendizagem virtual exigiram soluções tecnológicas inimagináveis no cenário pré pandêmico. O comportamento do cliente mudou quase da noite para o dia e cada setor teve de se ajustar rapidamente. Com isso, avançamos em pouco mais de um ano o que talvez levasse cinco ou mais anos. Paralelamente, também surgiram novos desafios de, por exemplo, conter a crescente escalada dos ciberataques, que têm causado grandes
prejuízos para as empresas. Não podemos esquecer também da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), cujo não cumprimento é passível de multas para as empresas. Portanto, a perspectiva é que essa área continue crescendo, com mais investimentos principalmente em segurança da informação, para acompanhar as exigências e transformações do mercado.

 

TW – Durante sua vida pública o senhor recebeu diversas homenagens, e recentemente, foi homenageado no prêmio Personalidades do Ano em 2021 na categoria Compliance e Governança Corporativa. Como transforma esse reconhecimento em legado para o setor e futuras gerações?

DM – Acredito que esse reconhecimento é fruto da transparência e da ética que pautam minha vida profissional e pessoal. A transparência é a melhor base para qualquer tipo de relacionamento, pois possibilita melhor governança nas empresas, credibilidade nos negócios e confiança nas relações interpessoais. Como CEO da Grant Thornton Brasil, que
emprega mais de 1.400 pessoas no país, busco sempre transmitir essa conduta com clareza, para que nossas atitudes profissionais, baseadas nesses princípios, se traduzam em ações junto aos clientes, proporcionando uma melhor governança corporativa. Tenho convicção que o melhor legado que posso deixar para as futuras gerações é essa colaboração na formação de pessoas éticas, conscientes do seu papel como cidadãos e como profissionais, capazes de multiplicar essa conduta de transparência junto a outros jovens, em um processo cíclico. Isto influencia positivamente o crescimento contínuo e sustentável das empresas parceiras e clientes, e, consequentemente, fortalece a reputação da Grant Thornton ao redor do mundo

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