Covid-19: como o mundo pode derrotar este inimigo?

por The Winners
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Milton Luiz de Melo Santos, Economista e recém curado da COVID-19

Quando eu nasci, abril/1951, o mundo passava por grandes transformações, após o cataclisma gerado pela 2ª Grande Guerra Mundial.Todos os países, notadamente aqueles mais envolvidos no conflito, mobilizavam-se para reconstruir as suas economias e cicatrizar as enormes feridas abertas no seio de suas populações.Um dos acontecimentos mais significativos, em prol da recuperação dos países envolvidos no conflito, foi, ainda durante a guerra (1944), a Conferência de Bretton Woods ( em New Hampshire), que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os EUA, Canadá, países da Europa Ocidental, Austrália e Japão.

Ainda como medida adicional, foram criados o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento – BIRD (conhecido como Banco Mundial) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, posteriormente.

Todavia, a iniciativa de maior repercussão financeira para os países aliados, foi a edição do Plano Marshall (General George C. Marshall, à época, Secretário de Estado do Presidente Henry Truman), em abril de 1948, uma ajuda econômica dos EUA de US$ 14,0 bilhões da época (equivalentes a pouco mais de US$ 100,0 bilhões atualmente), que foram entregues para ajudar na recuperação dos países europeus que se juntaram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Os objetivos dos EUA, do ponto de vista econômico, eram reconstruir regiões devastadas pela guerra, remover barreiras comerciais e modernizar a indústria, melhorar a prosperidade europeia e impedir a disseminação do comunismo. A proposta teve como base montar uma estrutura para oferecer serviços sociais e criar empregos.

Com os investimentos, a produção industrial e agrícola registrou crescimento acima da média do período pré-guerra.É consenso entre os estudiosos desse período, que o sistema de Bretton Woods, com a criação de instituições internacionais destinadas a assegurar a estabilidade da economia mundial, incluindo a promoção do livre comércio e a adoção do Plano Marshall, com os seus fundamentos na economia Keynesiana, foram fatores institucionais determinantes para soerguer as economias comba-lidas dos países envolvidos no grande conflito mundial.

Ou seja, a chamada Era de Ouro do capitalismo, período que contempla os anos de 1945 a 1970, foi uma combinação de várias iniciativas, que envolveram adoção de políticas keynesianas, especialmente gastos do governo (estímulo fiscal), em uma primeira fase e numa fase seguinte, a inserção de reformas de livre mercado e da desregulamentação, que estimularam sobremaneira a economia e a criação de empregos. Ela terminou, com o colapso do acordo de Bretton Woods em 1971, a crise do petróleo de 1973 e o “crash” da bolsa em 1973-1974, o que levou à recessão da década 1970.

Durante esse período, houve crescimento econômico elevado em todo o mundo; em particular, a Europa Ocidental e países da Ásia Oriental, com um cresci-mento anormalmente elevado e sustentado, juntamente com o pleno emprego.Mas, por quê faço essa digressão, se o que interessa a todos, neste momento, é saber como o mundo, e em especial o nosso país, vai recuperar-se das terríveis consequências causadas pelo fenômeno COVID-19?

Vivemos tempos de guerra, onde o inimigo tem uma capacidade destrutiva jamais imaginada pelos melhores estrategistas militares, sendo que o ataque à humanidade deixou claro que a interdependência dos países é real, e não política.

As experiências vivenciadas pelos primeiros países contaminados pelo vírus, vem sendo aprimoradas pelas demais nações, à medida em que a contaminação vai se espalhando por todo o planeta.O arsenal de medidas empregado pelos EUA, durante e após o término da 2ª Guerra Mundial, produziu efeitos positivos incontestes sobre as economias dos países devastados pelo conflito, gerando um novo ciclo de crescimento mundial.

E agora? Contra esse inimigo, o que devem fazer os governantes para reduzir ao máximo a letalidade da pandemia e recuperar as atividades econômicas o mais breve possível?

Cada país, de acordo com as suas características, como, por exemplo, a pirâmide populacional (contingente de idosos muito significativo, em relação à população total), densidade demográfica, capacidade de atendimento de seu sistema de saúde, etc., tem buscado reduzir ao máximo, o nível de contágio do vírus, para atender adequadamente aqueles que tem de recorrer aos serviços hospitalares.

O Brasil, por se encontrar quase no final da fila dos países contaminados pelo vírus, tem o benefício de aprender com os erros e acertos dos outros. A adesão da população ao distanciamento social estabelecido pelas autoridades governamentais, foi e está sendo decisivo para “achatar” a curva de contaminação, tão temida pelas autoridades sanitárias.

Porém, como ficarão essas economias depois de passada essa primeira onda do vírus? O sistema produtivo e econômico, certamente estará desmantelado, com alguns setores muito próximos da falência e um contingente expressivo de trabalhadores sem emprego.

A ameaça de um colapso econômico e um caos social é hoje o grande desafio do mundo. A engenharia de política econômica que foi adotada após a 2ª Guerra Mundial, com o fito de levantar as economias devastadas pela Guerra, no caso presente, “mutatis mutandis”, pode ser objeto de algumas adaptações para “ligar o mundo, de novo, na tomada fazendo um rebooting para uma nova realidade pós-virus”.

Assim está fazendo o governo americano, com o seu plano de mais de US$ 2,0 trilhões para acudir a economia, em especial os segmentos menos favorecidos, como as micro e pequenas empresas, bem como a massa de pessoas desempregadas.

Os países do bloco europeu, cada um à sua maneira, também vem fazendo uso da presença forte do Estado, com a emissão de dinheiro para socorrer a sua população e sua economia.

Ou seja, as preocupações outrora justificáveis com o equilíbrio fiscal dessas economias, neste momento de guerra, não faz sentido algum, pois o que é prioritário é estancar a elevada taxa de crescimento de óbitos decorrentes da ação do vírus e, em seguida, promover a recuperação econômica e social utilizando todo o ferramental disponível pelo Estado.

Aqui, no nosso Brasil, o Governo Federal demorou um pouco a sair daquela letargia inicial, onde ainda não se avaliava com precisão toda e magnitude da pandemia e, finalmente, começou a se mover na direção correta, ou seja, abrir mão dos parâmetros de controle fiscal e acionar os mecanismos legais que permitem a injeção de recursos na economia, mesmo que com aumento da dívida pública.

As diversas Medidas Provisórias, Leis, Decretos e Resoluções do Conselho Monetário Nacional, recentemente editadas, formam um conjunto de normas que, com a anuência do Congresso Nacional, dão o suporte legal e operacional para que essas medidas consigam produzir os efeitos desejados junto à população.

O socorro financeiro, através de crédito subsidiado para as micro, pequenas e médias empresas é vital nesse momento, a linha de financiamento, com recursos do Tesouro Nacional, para as empresas não demitirem os seus empregados, atenua um pouco a pressão social sobre um grande número de trabalhadores, e a alocação de recursos a fundo perdido, para atender a um contingente de mais de 60 milhões de brasileiros que vivem na economia informal, compõem, entre outras, o conjunto de medidas absolutamente indispensáveis para projetar uma luz sobre o futuro de nossa economia, após a “debacle” provo-cada pelo infame vírus chinês.

Precisamos, mais do que nunca, de uma liderança firme e equilibra-da, para imprimir uma gestão profissional, de sorte que essas medidas produzam os seus efeitos para aqueles extratos da sociedade mais fragilizados, o mais rápido possível.

Não tenho dúvidas que a humanidade, mais uma vez, saberá encontrar os melhores meios para sua sobrevivência pois, como diz o escritor Yuval Noah Harari, a grande vitória do vírus ocorrerá se não formos capazes de nos unir em prol de uma sociedade que saia desse turbilhão mais forte.

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