Charles Delogne – Cônsul Geral da Bélgica

por The Winners
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Com seu sorriso e simpatia peculiar, sempre presente em eventos e solenidades, e com um follow up extraordinário, Charles Delogne, Cônsul Geral da Bélgica, nos concedeu essa entrevista exclusiva.

Prestes a retornar ao seu país de origem, em julho próximo, completa quatro anos de enorme lista de serviço no posto. Dedicado e um brasilianista por amor, no mundo consular é um detentor de muito respeito. “Acredito no Brasil, precisamos dar um tempo para as coisas se normalizarem e se estabilizarem, mas sigo confiante neste país fantástico”.

The Winners – Há quanto tempo o senhor é Consul Geral da Bélgica no Brasil?

Charles Delogne – Assumi minhas funções em São Paulo no dia 8 de setembro de 2015, há quase quatro anos.

TW – Antes, serviu a sua pátria em quais países?

CD – Servi na OTAN, na Ucrânia, na União Europeia, na República Democrática do Congo, na ex-Iugoslávia, em Angola e agora no Brasil.

TW – Qual a sua formação acadêmica?

CD – Possuo um Mestrado em Ciências Políticas e outro em gestão financeira.

TW – Este ano, o senhor retorna a Bélgica depois de uma extraordinária temporada no Brasil. Que lembranças levará na sua bagagem?

CD – O que me impressionou em minha chegada a São Paulo foi a acolhida espontânea e sorridente dos brasileiros a nós, estrangeiros. Depois, descobri essa cidade gigantesca cujas atividades não param nunca é um pouco assustadora num primeiro momento.

Vindo da África, me surpreendi favoravelmente com a qualidade dos serviços públicos. Enfim, apreciei muito sua riqueza cultural principalmente no campo da música clássica.

TW – Qual o fluxo de visitantes belgas no Brasil? E do Brasil na Bélgica? Esses números têm qual histórico em 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018?

CD – Não possuo estatísticas que me permitam responder com precisão a sua pergunta. As relações turísticas bilaterais sofrem com a ausência de uma linha aérea direta entre o Brasil e a Bélgica.

Mas, os brasileiros que encontrei e que estiveram na Bélgica ficaram encantados com o país. Entendo que sua satisfação passa pelo viés gastronômico já que nossas tradições gastronômicas se assemelham muito com a brasileira.

TW – Como é, em termos numéricos, a balança comercial Brasil-Bélgica?

CD – O volume de nossas trocas comerciais é muito sensível à evolução da conjuntura econômica brasileira. Em 2018, as exportações belgas para o Brasil totalizaram 3,2 bilhões de euros, enquanto as importações belgas do Brasil foram de 2,4 bilhões de euros.

Isso faz do Brasil o 19º cliente da Bélgica e seu 26º fornecedor. O superávit comercial a favor da Bélgica foi de 784 milhões de euros em 2018. O volume do nosso comércio de serviços é de cerca de 560 milhões de euros e deixa um excedente de 90 milhões de euros para a Bélgica.

A Bélgica é um dos maiores investidores históricos do Brasil. De acordo com as estatísticas do Banco Central do Brasil, em 2015, o investimento direto belga no Brasil foi de US$ 989 milhões (13º lugar no ranking geral, 4º lugar entre os Estados membros da União Europeia).

Em resumo, nosso relacionamento econômico bilateral é forte.

TW – O que o Brasil compra da Bélgica e o que a Bélgica compra do Brasil?

CD – Em 2018, os produtos químicos representaram 35,8% de nossas exportações para o Brasil, seguidos por máquinas e equipamentos (19,1%) e equipamentos de transporte (12,7%).

Nossas importações do Brasil são constituídas por 26,3% de produtos alimentícios, 13,5% de metais básicos e 10,6% de pedras preciosas. No setor de serviços, transporte e viagens são responsáveis pela maior parte do intercâmbio.

Em particular, as relações portuárias desempenham um papel muito importante em nossas relações econômicas bilaterais.

TW – O senhor é católico e esteve na festa da padroeira Nossa Senhora Aparecida em 2016, o que isso representou para o senhor naquele momento?

CD – Sou funcionário do governo belga a serviço de todos os meus compatriotas, independentemente de suas opiniões filosóficas ou religiosas. Minhas crenças não importam para eles.

Mas para responder a sua pergunta, estive em Aparecida no dia 12 de outubro de 2016 a convite do prefeito do Cruzeiro. Fiquei feliz em descobrir nesta ocasião o santuário nacional dos brasileiros e entender melhor o lugar que Nossa Senhora Aparecida ocupa em suas vidas mesmo quando não são católicos.

Só é preciso ver na linguagem comum dos brasileiros o quanto eles invocam Nossa Senhora Aparecida quando são surpreendidos, exasperados e contentes.

TW – Loucos por chocolate, esse evento teve seu apoio, qual o propósito?

CD – O festival do chocolate foi uma iniciativa do meu antecessor, realizada no primeiro semestre de 2015, antes da minha chegada a São Paulo. O objetivo era promover o know-how dos confeiteiros belgas com o apoio de duas importantes empresas belgas do setor presentes no Brasil.

Esta iniciativa parece ter excedido todas as expectativas em termos de participação e impacto, em grande parte porque, como os belgas, os brasileiros são loucos por chocolate. Durante a minha estadia em São Paulo, muitas vezes eu vi isso com uma satisfação ímpar.

TW – Depois de visitar inúmeros municípios conversando com prefeitos, afirmando ser importante estabelecer relações com municípios brasileiros para fomentar um intercâmbio, quais os resultados desse relacionamento?

CD – É sempre importante para um diplomata não se trancar na capital onde reside e ver a realidade em outras localidades. Eu, por exemplo, sempre tive muito interesse pelos gestores municipais porque eles praticam uma democracia de proximidade.

Dos meus contatos com os prefeitos municipais brasileiros, mantenho sempre laços de amizade. Em geral, não podemos ter muitas expectativas com as parcerias entre municípios belgas e brasileiros visto que em ambos os casos existem poucos recursos que possam ser alocados às relações internacionais.

Felizmente, existem exceções: a cidade de Mogi das Cruzes estabeleceu uma parceria muito ativa com sua parceira belga, a cidade de Tournai e isso me deixa muito satisfeito.

TW – Conhecer mais as cidades brasileiras e se colocar à disposição para futuras parcerias, sempre foi uma de suas atividades. Quais são as memórias mais significativas dessas inúmeras visitas?

CD – Guardo muitas lembranças de minhas viagens a outras localidades, mas uma delas me emocionou particularmente: foi quando estive em a Cruzeiro agradecer aos alunos de uma escola primária pelas mensagens de solidariedade e compaixão que eles haviam enviado ao Consulado Geral da Bélgica em São Paulo, após os ataques terroristas em Bruxelas em março de 2016.

Fiquei muito tocado pelo ato cidadão dessas crianças e de seus professores.

TW – O Brasil vive um momento econômico e político diferente do que vivemos anteriormente, com perspectivas de uma nova política de relações exteriores. Como o senhor avalia esse novo rumo?

CD – Existe atualmente um debate no Brasil entre os defensores de uma nova política externa, ideologicamente mais afirmativa, e apoiadores de uma política mais tradicional de defesa pragmática dos interesses nacionais. Até onde posso ver, este debate está longe de estar concluído.

Bilateralmente, nos últimos anos, a Bélgica e o Brasil têm sido frequentemente parceiros na defesa do meio ambiente e dos direitos humanos. Eu espero que isso continue. Dito isso, acho que é mais a longo prazo que você precisa apreciar um relacionamento bilateral.

A Bélgica mantém relações diplomáticas com o Brasil desde 1832 e essas relações sempre foram densas e amigáveis. O ano de 2020 será um importante ponto de encontro em nossas relações bilaterais, porque vamos comemorar o centenário da visita ao Brasil de sua majestade o Rei Alberto I e a Rainha Elizabeth.

Esta foi a primeira visita de chefe de Estado estrangeiro ao solo brasileiro desde a independência do país em 1822 e deixou uma marca profunda, especialmente no ensino superior.

TW – Brexit – um sonho ou utopia?

CD – Nem um nem o outro. O Brexit é um exercício infeliz em que só há perdedores, mas resulta de uma decisão democrática dos britânicos que nós, europeus, devemos respeitar.

Espero sinceramente que tenhamos uma saída ordenada do Reino Unido para fora da União Europeia, o que limitará o dano tanto quanto possível para o benefício de todos.

A Bélgica estaria particularmente exposta no caso de uma saída desordenada: na verdade, o Reino Unido é o seu quarto parceiro comercial.

Mas, além dessas considerações mercantis, espero que possamos manter um forte vínculo com este país amigo após sua saída da União Europeia: os belgas nunca esquecerão os grandes sacrifícios feitos pelos britânicos para garantir e manter a independência belga, especialmente durante as duas guerras mundiais.

TW – Se o senhor escolhesse um lugar para viver no Brasil, onde seria?

CD – Em São Paulo, sem qualquer dúvida. Meus amigos paulistanos não entenderiam uma outra escolha!

TW – Que mensagem gostaria de deixar aos mais de 200 milhões de brasileiros nessa quadra importante da nossa história?

CD – As pesquisas de opinião dos últimos meses mostraram uma forte perda de confiança entre os brasileiros em relação a suas instituições, compatriotas e até mesmo sobre seu próprio futuro.

Mas em nenhum país podemos construir um futuro sem otimismo e sem considerar os recursos disponíveis. No caso do Brasil, esses recursos, tanto humanos quanto naturais, são incrivelmente ricos.

Minha mensagem aos brasileiros é, portanto: “Tenham confiança e tudo ficará melhor!”.

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