Cada vez mais hermanos

por The Winners
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Roberto Luiz Troster, economista

Há exatos 210 anos, em Buenos Aires, cidadãos inconformados expulsaram o vice-rei colonizador e se emanciparam da Espanha. Foi o primeiro embrião da América do Sul independente. Províncias Unidas del Río de la Plata foi o nome adotado substituindo o Vicereino do Río de la Plata. No Rio de Janeiro, Dom João VI era o príncipe regente de Portugal, do principado do Brasil, desde 1808. Em 16 de dezembro de 1815, eleva a colônia à condição de reino unido.

A denominação foi Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e abrangia todas as colônias do Ultramar Português. Com a derrota de Napoleão, a América do Sul portuguesa e espanhola tiveram rumos diferentes. O Brasil permaneceu parte do reino até 1822, quando Dom Pedro I, declarou a independência.

Durante o Império, todos os movimentos separatistas foram contidos e o país manteve e expandiu o seu território. As colônias hispânicas perceberam que deveriam expulsar os colonizadores de todo o território para uma consolidação da independência. Os primeiros passos para a construção de uma América Latina integrada foram dados pelos libertadores, José de San Martin da Argentina, que partiu de Buenos Aires para o Chile e depois ao Peru e Simon Bolívar da Venezuela, que desceu em direção ao sul.

Suas tropas expulsaram os colonizadores do continente; compartiam o mesmo ideal, mas tinham visões opostas sobre o processo. A visão sanmartiniana era de um bloco continental através de um marco institucional comum norteando a integração. Debatia-se o sonho da “Pátria Grande”, da integração latino-americana.

A bolivariana era de uma liderança pessoal forte conduzindo o processo. Foi a que prevaleceu, com uma abundância de caudilhos populistas que transformaram o sonho em pesadelo, retalhando a parte do continente hispânico com lutas fratricidas. Brasil e Argentina ficaram voltados para a Europa, com momentos de aproximação e de distanciamento. A relação de irmandade foi forte em momentos de crise.

Na guerra do Paraguai, Argentina socorreu o Brasil para enfrentar a invasão externa. Pouco mais de um século depois, o Brasil apoiou e ajudou a Argentina na guerra das Malvinas. Na virada do milênio, o MERCOSUL despertou o projeto da Pátria Grande. Argentina e Brasil, com Paraguai e Uruguai, firmaram um acordo que era o embrião de uma América Latina focada em construir uma potência. Os planos iniciais eram audaciosos, incluíam até uma moeda única para o bloco, batizada de “Gaucho”.

O MERCOSUL avançou em várias frentes como educação, cultura, turismo e pesquisa. Entretanto, na economia, a visão sanmartiniana foi mais uma vez derrotada, os egos dos líderes pesaram mais. Registram-se poucos desenvolvimentos na sincronia das políticas macroeconômicas minando as perspectivas do projeto. Os desequilíbrios são cada vez maiores. Agravando o quadro, por motivo torpe, o Paraguai foi afastado temporariamente do bloco e a Venezuela convidada em seu lugar.

Se na costa do Atlântico, o cenário piorou, no outro lado do continente começou a se vislumbrar uma saída. Foi concebida a Aliança do Pacífico em 2011. Peru e Chile, que já haviam travado uma guerra entre si no passado, juntos com Colômbia, Costa Rica e México, puseram em prática o sonho de San Martin. O grupo se auto-intitula a oitava economia do planeta, tem um projeto ambicioso de integração, já anunciou embaixadas comuns e tem dois países observadores. Trabalham a todo vapor no projeto.

Em menos de dez anos construíram mais do que o MERCOSUL em mais de trinta e provaram que o sonho da Pátria Grande pode virar uma realidade. A pandemia mostrou que é hora de mudar. É uma oportunidade para ações e ambições. Há muitos ganhos a usufruir. Novos acordos vão acontecendo em todo o planeta. São ferramentas potentes para crescer, atrair investimentos e abrir mercados.

Em todos os blocos vale o quanto maior e mais integrado melhor. Urge agir momento permite que todo o MERCOSUL ambicione a integração com a Aliança do Pacífico e concretize a Pátria Grande. Faria da América Latina, a terceira economia do mundo. É difícil que aconteça. Lamentavelmente, a colonização ibérica foi substituída pela de dirigentes populistas.

A boa notícia é que já começaram a ser expulsos do outro lado da cordilheira dos Andes libertando-os do atraso. Melhor, só se isso acontecer do lado de cá das montanhas. Poderia ser alcançado com uma integração maior entre Brasil e Argentina. Apesar do que diz Ariel Palácios que os brasileiros amam odiar a Argentina e os argentinos odeiam amar o Brasil. A integração dos dois países já registra alguns avanços notáveis.

Há um catalisador da parceria que é o SML (Sistema de Moedas Locais). É um sistema destinado a operações comerciais, que permite aos importadores e ex-portadores brasileiros e argentinos a realização de pagamentos e recebimentos em suas respectivas moedas.

Sua utilização é voluntária, mas permite que as transações feitas por meio do SML se integrem no sistema bancário dos dois países. O mercado de divisas brasileiro tem qualidades como uma câmara de ativos futuros sofisticada com uma dimensão considerável e um sistema bancário moderno e sólido. Num mundo em turbulência cambial, eliminam-se as incertezas associadas às cotações do dólar.

Há outras qualidades, como uma taxa de câmbio mais competitiva, dependendo apenas da dinâmica das duas economias, sem a influência direta do que acontece com o mercado do dólar, custos de transações mais baixos, mais estabilidade na taxa de conversão entre as duas moedas, menor uso de reservas internacionais e vulnerabilidade cambial mais fraca.

A agenda de integração dos dois países é mais extensa, mas este passo importante já foi dado. Outra medida adotada em 2017 foi no setor automotivo, facilitando a produção para os dois. Quanto mais estreito for o laço, maiores serão as sinergias e ganhos para ambos.

Os dois países vivem momentos de angústia pela pandemia. A incerteza sobre os rumos da economia mundial é grande. As dinâmicas econômicas dos dois países já apresentavam sintomas de enfraquecimento. É certo que haverá uma deterioração nos termos de trocas e uma diminuição nos fluxos financeiros para os dois países.

É algo que por si obriga a uma reflexão. A situação demanda ações para reduzir a dependência do preço das commodities e do financiamento externo dos déficits de ambos países, o que pode ser a construção da Pátria Grande pelos dois países. O Brasil Grande incluiria a Argentina e a Argentina Grande incluiria o Brasil.

Argentinos e brasileiros têm de criar duas agendas. Uma é a de integração, com medidas para facilitar os trâmites alfandegários e a mobilidade de trabalhadores. Outra é a de expansão, que é a criação de uma pauta de ações externas comuns para a inserção externa mais conveniente, como a padronização de produtos e a promoção dos dois países.

Um poderia ser a promoção conjunta do turismo: ”Do Oiapoque à Lapataia, visite a América do Sul, onde o sol brilha mais”. Outro poderia ser a exportação de vinhos de ambos: “Beba o vinho de onde há mais sol”. Brasil e Argentina integrados representariam a 5ª economia do mundo, atrás apenas da China, dos EUA, da Índia e do Japão e à frente da Alemanha, Inglaterra e outros 185 países.Os argentinos, chamados no Brasil de “los hermanos”, têm um carinho fraterno pelos brasileiros.

A padroeira da Argentina, do Uruguai e do Paraguai é Nuestra Señora de Luján. Foi feita em São Paulo e levada para lá em 1630. Um dos letristas de tango mais famoso, que compôs “Mi Buenos Aires querido”, foi Alfredo Le Pera, paulistano. Na guerra das Malvinas, o Brasil ficou incondicionalmente do lado argentino com apoio diplomático e militar. Alugaram aos “hermanos” aviões de patrulha naval Embraer P-95 e jatos Xavante.

Na hora da briga, ficaram juntos como irmãos. Por outro lado, no futebol, eles têm uma rivalidade fratricida. Os argentinos têm mais olimpíadas, mundiais interclubes, libertadores e Copa América; os brasileiros, mais vitórias na copa do mundo. É uma guerra sem fim. Maradona, na véspera de um jogo contra o Brasil, disse: ”Há quem pense que um jogo entre os dois países é uma questão de vida ou morte. Estão enganados! É mais do que isso”.

Ele está certo. É isso.

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