As relações entre Brasil e Canadá, nas palavras de Stéphane Larue, Cônsul-geral do Canadá em São Paulo

por The Winners
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Uma conversa agradável, consistente e reveladora. Deste modo, Stéphane Larue, cônsul-geral do Canadá em São Paulo, recebeu a revista The Winners para falar das relações entre Brasil e Canadá considerando os mais diversos aspectos.

Em relação às parcerias comerciais, Larue nos contou que o Brasil é o terceiro maior parceiro comercial do Canadá nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e México. As cifras deste comércio bilateral representaram a soma de US$ 7,7 bilhões em 2018, expressando um aumento de 19,6% ante a 2017.

Outro dado de grande relevância: o número de turistas brasileiros que visitaram o país. No ano passado, 200 mil brasileiros visitaram o Canadá, o que representa um crescimento de 30% em relação a 2017 e um aumento de mais de 70%, comparado com 2016. Um detalhe: grande parte dos visitantes são formados por estudantes.

Para além destas pautas, questões ambientais, culturais e perspectivas futuras também foram comentadas. Pelas palavras de Larue: “Estou extremamente orgulhoso do que conquistamos com nossos parceiros brasileiros ao longo dos anos. Estou muito otimista e, também, entusiasmado com as oportunidades que o futuro vai trazer”.

FV – Como o senhor vê o relacionamento econômico entre Brasil e Canadá? Destaque os pontos de interesse mútuos.

SL – A relação econômica entre o Brasil e o Canadá é dinâmica e crescente. O Brasil é o terceiro maior parceiro comercial do Canadá nas Américas, depois dos Estados Unidos e do México. Em 2018, o comércio bilateral alcançou 7,7 bilhões de dólares canadenses (aproximadamente R$ 22,2 bilhões), o que representa um aumento de 19,6% em relação a 2017 e 37,5%, comparado a 2014. Além disso, o Brasil é o 11º maior investidor no Canadá, com 14,6 bilhões de dólares canadenses (aproximadamente R$ 42,1 bilhões) em investimentos em 2018; enquanto o Canadá é o 14º maior investidor no Brasil, com 14,1 bilhões de dólares canadenses (aproximadamente R$ 40,1 bilhões) em investimentos no mesmo período.

O Canadá está determinado a fortalecer esse relacionamento ainda mais. É por isso que temos uma grande equipe de gerentes comerciais em nossos seis escritórios diplomáticos e comerciais no Brasil para ajudar empresas canadenses a encontrar oportunidades de negócios aqui com parceiros brasileiros. Isso inclui setores-chave, como tecnologias da informação e comunicação, tecnologias limpas, setores de energia e extrativo, aeroespacial e defesa, saúde e ciências da vida, bem como educação.

Um aspecto importante a destacar é que o Canadá não se engaja nas relações comerciais visando apenas o crescimento econômico. Promovemos uma abordagem inclusiva ao comércio que busca garantir que os benefícios e as oportunidades decorrentes do comércio sejam mais amplamente compartilhados, especialmente com grupos sub-representados, como mulheres, pequenas e médias empresas (PMEs) e povos indígenas.

Stéphane Larue, cônsul-geral do Canadá em São Paulo

FV – O que se pode dizer sobre a representatividade do turismo para ambas as nações?

SL – Estamos vendo um número recorde de brasileiros indo ao Canadá nos últimos anos para turismo, educação e negócios. No ano passado, 200 mil brasileiros visitaram o Canadá, o que representa um crescimento de 30% em relação a 2017 e um aumento de mais de 70%, comparado com 2016. E esperamos ver esse número crescer ainda mais.

Uma grande parte desses visitantes são estudantes que vão ao Canadá para cursos de idiomas de curta duração, programas de intercâmbio de ensino médio ou estudos de graduação e pós-graduação. De fato, pelo 14º ano consecutivo, o Canadá é o destino preferido de estudo dos brasileiros! Só no ano passado, quase 55.000 brasileiros se matricularam em uma das instituições de ensino no Canadá. Também esperamos ver um número maior de canadenses visitando o Brasil agora que o governo brasileiro isentou o visto para turistas canadenses.

 

FV – Em sua experiência diplomática, o que o senhor pode nos contar sobre fatos que marcaram sua trajetória?

SL – Passei boa parte da minha carreira trabalhando em questões de refúgio e migração. Esta experiência foi fundamental para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. No nível pessoal, essa experiência me permitiu conhecer pessoas incríveis que se dedicavam a ajudar outros indivíduos em situações desesperadoras, ou, mesmo os próprios refugiados, que estavam dispostos a arriscar tudo para proporcionar à sua família um futuro melhor.

O que aprendi rapidamente é que a grande maioria dessas pessoas é vítima de circunstâncias fora de seu controle e mostram grande resiliência, em condições que muito poucos, no conforto de suas casas, conhecem.

Juntamente com a mudança climática, o grande movimento migratório para a Europa e, em menor escala, para os Estados Unidos, é um grande desafio que a comunidade mundial está enfrentando. Basta olhar para o impacto que a migração teve no recente referendo do Brexit e nas recentes eleições em vários países europeus, para ver como o desafio afetou o mapa político do mundo. Além disso, a crise climática que está diretamente afetando certas partes do mundo está agravando o problema.

Eu acredito que este desafio global merece uma resposta global e, embora longe de ser perfeito, o Pacto Global sobre migração foi um bom ponto de partida para resolver essa questão.

Em última análise, acredito que a solução reside em melhorar as circunstâncias econômicas, juntamente com a situação dos direitos humanos, nos países de origem. Estou particularmente orgulhoso de ter representado um país que concentrou seus esforços diplomáticos nesses assuntos ao redor do mundo.

 

FV – O Canadá é um país bastante articulado para as questões ambientais. De que maneira o país está investindo em preservação em seu território? Há investimentos canadenses dirigidos ao Brasil neste setor?

SL – Realmente, o governo do Canadá está muito engajado na questão ambiental e está fomentando novos modelos de negócios para ajudar reduzir as mudanças climáticas, encorajar parcerias entre cidades e o setor privado para acelerar investimento em infraestrutura verde, e incentivar a população a adotar a produção e o consumo sustentáveis. Um exemplo disso, é o compromisso do Canadá em banir a utilização de plástico descartável até 2021, como foi anunciado pelo governo do Canadá em junho de 2019.

Além disso, o Canadá é um país inovador, e suas empresas são grandes desenvolvedoras de tecnologias limpas e soluções para combater as mudanças climáticas e estão prontas para atender as demandas mundiais. E elas fazem isso com parceiros ao redor do mundo, incluindo o Brasil. Como exemplo, seis destas empresas vieram a São Paulo para participar do evento Conexão Carbono Zero em junho de 2019 para conversar sobre esses temas, compartilhar boas práticas, descobrir novas tecnologias e se encontrar com potenciais parceiros brasileiros, que também querem melhorar a situação do nosso planeta para as futuras gerações.

O Canadá também apoiou um projeto da ONG brasileira Ecosurf no ano passado para tratar da poluição plástica nas áreas litorâneas do Brasil.

Isso incluiu uma série de iniciativas locais como workshops sobre educação ambiental, um exercício de limpeza de praias da comunidade de Barra do Una e uma companha de conscientização nacional sobre o impacto do plástico nos mares.

FV – Gostaria que o senhor nos contasse mais sobre o sistema de saúde canadense.

SL – O sistema de saúde no Canadá é universal e financiado pelo governo, através dos recursos públicos. Em termos gerais, significa que os serviços médicos necessários são fornecidos à população com base na necessidade, ao invés da capacidade financeira. Isso é uma grande vantagem, pois as famílias canadenses não têm a preocupação, por exemplo, de ficar em uma situação financeira precária caso um filho ou parente adoeça e não tenha um plano de saúde privado.

Creio que os valores básicos de justiça e equidade, que são demonstrados pela disposição da sociedade canadense em compartilhar recursos e responsabilidade, são refletidos no sistema de saúde do Canadá.

É importante notar que o sistema, embora público, é bastante dinâmico e passa por reformas constantes em resposta às mudanças dentro da medicina e em toda a sociedade.

O sistema é controlado e fiscalizado e contamos com uma agência especializada, que verifica a performance, qualidade e segurança dos hospitais do país, mas também, ao redor do mundo. Esta agência está presente no Brasil e eu já tive a oportunidade de participar de eventos de entrega de acreditação de vários hospitais brasileiros, públicos e privados.

 

FV – Sobre o cinema canadense, quais são as contribuições e atividades que este setor desenvolve?

SL – Primeiramente, é importante destacar que desde 2017, o Canadá tem uma nova visão e abordagem das indústrias criativas que guia as políticas públicas sobre a cultura e as indústrias criativas com enfoque no crescimento desse setor. E a área cinematográfica é um setor muito importante desta nova abordagem.

Para ter uma ideia, o orçamento total de produção de filmes e programas de TV no Canadá, atingiu um recorde no ano passado chegando a quase nove bilhões de dólares canadenses (aproximadamente R$27 bilhões), com a maior parte desta receita vindo de fora do país. Isso demostra como o Canadá tem se estabelecido como um dos polos centrais da produção cinematográfica do mundo. Além disso, o Canadá é um forte parceiro de co-produção de vários países do mundo, inclusive o Brasil.

Através do acordo de co-produção na área audiovisual entre nossos países, é possível acessar os mecanismos canadenses e brasileiros de financiamento.

O Canada Media Fund (CMF), por exemplo, é uma agência criada para promover, desenvolver e financiar a produção de conteúdo canadense para todas as plataformas de mídias digitais e audiovisuais. E, por dois anos seguidos, foram assinados acordos de co-desenvolvimento entre o CMF e a SPcine, onde mais de 14 empresas brasileiras e canadenses puderam acessar fundos para projetos voltados para plataformas interativas, incluindo mídias digitais.

Tenho certeza que temos muitas oportunidades para expandir nossa cooperação na área audiovisual ainda mais.

FV – Quais são as perspectivas canadenses sobre o futuro das relações com o Brasil?

SL – Estou extremamente orgulhoso do que conquistamos com nossos parceiros brasileiros ao longo dos anos. O Brasil e o Canadá continuam a construir um futuro juntos através de nossa amizade de longa data. Estou muito otimista e, também, entusiasmado com as oportunidades que o futuro vai trazer.

Nos seis anos que estou aqui em São Paulo como Cônsul-Geral, tenho visto grandes avanços no número de conexões entre nossos povos nas áreas de negócios, educação, turismo e cultura.

Na área de negócios, esperamos ter um novo acordo de livre comércio entre o Canadá e o Mercosul que certamente favorecerá o comércio bilateral e as oportunidades das empresas de ambos os países.

Na área de educação e turismo, vemos um número recorde de brasileiros estudando e visitando o Canadá. E estão fazendo amizades e criando pontes duradouras entre ambos nossos países.

Estou certo de que estes laços interpessoais – o contato entre nossos povos, entre os canadenses e os brasileiros, – serão a chave para fortalecer nossa amizade com o Brasil e que farão nossa relação florescer.

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