A secretária de estado do Turismo de Portugal, Ana Mendes Godinho, explica o sucesso de um dos melhores destinos turístico do mundo

por The Winners
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A secretária de estado do Turismo de Portugal, Ana Mendes Godinho, recebeu a The Winners, no clube Hebraica, em São Paulo, para falar sobre os resultados de um grande trabalho de prospecção realizado pelo governo português com vistas a conhecer os mercados mundiais de turismo por meio da elaboração de diversos programas de incentivo que culminam em amplo reconhecimento internacional.

O país acumulou o ano passado, 4.200 prêmios internacionais por sua capacidade de resiliência e crescimento econômico. Somado a isto, Portugal recebe anualmente 25 milhões de turistas, tem como principal visitante o turista inglês e abriu nos últimos três anos, 600 novas rotas aéreas para ligar o país aos destinos que, até então, não tinham acessos diretos.

Os brasileiros ocupam a quinta posição no ranking em visitação a Portugal e participam de um mercado de 12 milhões de pessoas ao redor do mundo que falam a língua portuguesa. Além disso, “há cada vez mais investimentos cruzados entre investidores brasileiros e portugueses, aliás, neste momento, há vários grupos econômicos de investimentos que estão a se entreolhar, reconhecendo que o turismo também é um agente fortalecedor nos dois países também neste sentido”.

Ana Mendes Godinho, Secretária de Estado do Turismo de Portugal

Felix Ventura – Faça uma explanação sobre a atualidade do setor do turismo em Portugal, comparando o cenário atual ao de anos passados.

Ana Mendes Godinho – Portugal, nos últimos anos, tem se afirmado internacionalmente como um dos principais destinos turísticos. Nós recebemos [atualmente] 25 milhões de turistas no país e se compararmos, por exemplo, com 2015, Portugal cresceu 45% em termos de procura turística, o que tem acontecido e que às vezes eu digo brincando que os portugueses descobriram o mundo pelos mares e neste momento estamos a ser descobertos pelo mundo e pelos ares.

Temos trabalhado muito, tanto no setor público quando no privado para garantir que o país tenha uma boa conectividade aérea e nos últimos três anos nós conseguimos cerca de 600 novas rotas aéreas, ligando Portugal aos destinos que quase não conheciam o país. Dou-lhe um exemplo concreto, os Estados Unidos.

O mercado americano duplicou sua presença em território português e já temos mais de um milhão de americanos a descobrirem Portugal e também os mercados canadense e brasileiro, este último, já conhecia o país, mas está cada vez mais presente e surpreendido pela nação portuguesa.

Portugal é hoje um país muito autêntico, muito genuíno, mas que soube se reinventar. Muito sofisticado, com muitos chefs Michelin, por exemplo, sendo que o melhor chef do mundo o ano passado, foi um chef português, José Avillez, que aliás irá participar do Master Chef Brasil.

Na verdade, houve sim um grande investimento no sentido de termos uma oferta hoteleira espetacular, nós hoje também temos hotéis boutique por todo o país com ótimo nível de personalização, ou seja, Portugal atualmente é um país muito inclusivo, porque temos nos posicionado de forma aberta, adotando novos regimes para a atribuição de vistos às pessoas que querem estar ligadas ao país.

E por outro lado, somos exclusivos, inclusivos porque somos um país aberto e hospitaleiro, mas exclusivos porque temos apostado muito em nos posicionarmos como um destino sofisticado e não um destino de massas, justo por termos grandes opções para o turismo de luxo em locais com menos trânsito de pessoas. Ao mesmo tempo também desenvolvemos uma política para o uso do turismo como um instrumento de posicionamento do país, chamada soft power.

Portugal tem uma larga história de presença no mundo, aliás, o país resulta desta mistura de povos ao longo dos séculos e procuramos também transformar esta história, este passado em ativo diferenciador. Quem visita o país, atualmente, descobre uma riqueza de patrimônio, cultural e de gastronomia que reflete esta mistura entre culturas de todo o mundo, basta ver a influência que a gastronomia brasileira, indiana ou africana tem na portuguesa. Por isso, somos esse melting pot [caldeirão de raças] e de culturas. Acredito que esses fatores façam parte de um conjunto de instrumentos para a promoção de Portugal e de posicionamento, não só para atrair novos visitantes, mas também novos investidores, residentes e estudantes.

Com esta promoção em várias dimensões, estamos aqui a convite do clube Hebraica de São Paulo, com esta proposta muito interessante de mostrar a herança judaica em Portugal que se confunde completamente com a história do país. Basta pensar que Pedro Álvares Cabral era um cristão novo, um judeu e que foi quem chegou aqui ao Brasil, então, percebemos a importância que a comunidade judaica teve em Portugal e hoje em dia temos uma rede estruturada destes testemunhos da presença dos judeus em terras portuguesas em 33 localidades do país.

Por exemplo, podemos ver na cidade portuguesa de Tomar uma sinagoga única, porém muito bonita, ou mesmo, em Castelo de Vide, um bairro com um museu judeu e uma sinagoga onde, neste momento, ainda está depositada uma chave do século XV que uma cidadã israelita resolveu levar de volta a Portugal em virtude de sua família ter deixado há cinco séculos as terras portuguesas.

Porém, esta reconexão com a história é que faz do país, eu diria, um destino imperdível com a captação de novos públicos não só em termos turísticos, mas também para novos negócios que estão sendo desenvolvidos.

Grandes empresas de tecnologia elegeram Portugal para estabelecer suas sedes muito em razão de termos um clima ameno durante todo ano, além de sermos o terceiro país mais pacífico e mais seguro, estes são ativos que as pessoas cada vez mais procuram no mundo, além de podermos receber de forma muito hospitaleira os turistas justo por grande parte da população falar a língua inglesa.

Portugal foi considerado pelas comunidades estrangeiras como melhor destino para expatriados viverem, por isso é muito interessante perceber esta dinâmica de reinvenção do país. O ano passado, Portugal recebeu mais de 4.200 prêmios internacionais de reconhecimento por termos atravessado uma crise econômica e hoje, é um dos países que mais crescem na Europa. Conseguimos ter o déficit mais baixo em toda a nossa democracia histórica e isso mostra que estamos a conseguir controlar as nossas finanças públicas e termos uma grande capacidade de crescimento.

O turismo, em 2018, cresceu cerca de 10% e se olharmos para o mercado brasileiro, passamos de 500 mil hóspedes em 2015 para mais de um milhão em 2018, e este ano já observamos um aumento de 13% no fluxo turístico. Com isso, Portugal se consolida com um bom país para visitar, investir, trabalhar e estudar, sendo que cada vez mais temos estudantes estrangeiros a escolher o país para estudar e viver, além da diversidade de experiências muito sofisticada.

Os novos hotéis que surgiram em Portugal, hotéis que apareceram em castelos, em conventos e em palácios, dão às pessoas experiências únicas. Sem falar em nossa gastronomia, desde mariscos até os nossos vinhos. Por exemplo, o vinho do Douro aos vinhos do Alentejo que têm sido premiados internacionalmente e que neste momento, estão no top das preferências mundiais.

Tudo isso contribuiu para que fôssemos eleitos três vezes o melhor destino turístico do mundo.

FV – Gostaria que a senhora falasse sobre a sua carreira, destacando as experiências mais significativas em sua trajetória.

AMG – Tive uma carreira muito diversificada ao longo da minha vida. Sou formada em direito e exerci a advocacia, mas também trabalhei muito na área do turismo, desde sempre, na área pública do turismo, mas também no setor privado, trabalhando em uma sociedade de fundos de investimentos e capital de risco.

Isso me permitiu o contato com empresários e com os desafios propostos por eles para o desenvolvimento de seus negócios acumular experiências para o âmbito das funções públicas que agora desempenho.

Sou secretária de Estado do Turismo de Portugal desde novembro de 2015 e, diria eu, essa mistura de experiência no setor público e no privado permitiram que hoje eu tenha esta grande abertura para trabalhar e criar as condições de modo a conseguir atrair investimentos e, portanto, simplificar e desburocratizar.

Por outro lado, utilizar o turismo como instrumento de coesão social e de dinamização econômica de Portugal. Tenho assumido esta grande preocupação que o turismo seja um fator de crescimento econômico em todas as regiões do país, abrindo assim o nosso mapa e essa experiência no setor público e privado tem me ajudado muito para que isso aconteça.

FV – De que nacionalidade é o turista que mais visita Portugal?

AMG – O turista que mais vista o nosso país é o inglês. Há cerca de cinco anos, 60% dos nossos turistas vinham de quatro principais mercados, neste momento, conseguimos diversificar os nossos mercados e, atualmente, 40% é quem vem destes mesmos mercados que são Reino Unido, Espanha, França e Alemanha. Hoje, o Brasil ocupa a quinta posição e o mercado americano, claramente também está a descobrir Portugal.

Acredito que essa diversificação nos permite ter uma atividade turística cada vez mais sustentável ao longo do ano, porque neste mercado de viagens existe a questão da variação por período do ano, mas isso nos garante a visitação e ocupação hoteleira o tempo todo.

FV – O que podemos dizer sobre o potencial turístico entre Brasil e Portugal? Qual é a relevância para ambos nesta questão?

AMG – De início, possuímos um ativo em comum que é a língua. Se nós pensarmos que há mais de 12 milhões de pessoas ao redor do mundo que falam a língua portuguesa e se transformarmos este ativo em fator econômico, isto tem um potencial brutal de articulação entre os dois países.

Existe um programa muito interessante que se chama Portugal Stopover, em que o país de assume como uma ponte de entrada para a Europa para pessoas que venham de qualquer parte do mundo e temos um programa, aliás, combinado com a companhia aérea TAP e acho que o Brasil tem tudo para fazer o equivalente aqui na América. Além disso, temos cada vez mais investimentos cruzados entre investidores brasileiros e portugueses, aliás, neste momento, a conceituada livraria brasileira Travessa vai inaugurar sua primeira loja em Portugal.

Há vários grupos econômicos de investimentos que estão a se entreolhar, reconhecendo que o turismo também é um agente fortalecedor nos dois países também neste sentido.

Já estive hoje reunida com o secretário estadual do Turismo de São Paulo, Vinicius Lummertz, com quem estive a trabalhar para desenvolvermos em conjunto, um programa que começamos em Portugal que se chama Revive que é programa de valorização ao patrimônio [histórico] e transformá-lo em ativo econômico e turístico.

Estamos a pensar em exportar esse programa que iniciamos em Portugal para revitalizar os patrimônios aos países lusófonos, sendo o Brasil um parceiro essencial para isso.

FV – Sobre investimentos, quais são as estratégias do governo português na aplicação de recursos para o fomento do turismo?

AMG – Alocamos cerca de 200 milhões de euros por ano para a área do turismo em várias dimensões. Por um lado, em instrumentos de atração de investimentos através de instrumentos financeiros que criamos todos os anos para atrair esses investimentos, desde fundos de capital de risco, investimento imobiliário, linhas de financiamento de projetos turísticos, temos uma área dedicada à captação de investimentos e uma que se destina à simplificação de processos para começar novos negócios.

Não sei se é de conhecimento, mas em Portugal se consegue criar uma empresa em um dia, em uma hora. É um dos nossos grandes programas chamado Simplex, para que o contexto em que se desenvolvem os negócios seja simples.

Grande parte do nosso orçamento também é dedicado à inovação, onde criamos o programa Turismo 4.0 e que apostamos em formas de aperfeiçoamento através da inovação e os jovens para dentro das estratégias do setor. Identificamos vários pontos sensíveis a serem trabalhados em conjunto com o setor privado para alcançar essas metas.

Desenvolvemos também programa com startups para que os jovens nos ajudem a encontrar soluções para os desafios que temos em vários setores e através deste programa, ao longo de dois anos já temos 600 startups a desenvolverem novos negócios no turismo.

Uma outra área que alocamos nosso orçamento é a de recursos humanos e uma área de muita importância dedicada à promoção, aplicamos grande parte do nosso orçamento na promoção digital, apostamos muito nesta forma de trabalho e temos colhido ótimo resultados atingindo cerca de 200 milhões de pessoas pelo mundo.

FV – Para as questões de sustentabilidade, como o setor do turismo português trabalha para ampliar a sua base de atuação?

AMG – Demoramos cerca de um ano para construir uma estratégica juntos aos atores locais e regionais de Portugal, mas também junto aos mercados. Eu estive no Brasil em 2016, como parte desta construção através de workshops com operadores do turismo brasileiros, com as companhias aéreas, com os jornalistas, com blogueiros, tudo isso para aumentar a nossa percepção para que o turismo pudesse se firmar cada vez mais e para, daqui há dez anos, garantir que o turismo continuasse a ser um dos pilares essenciais para a economia portuguesa.

Atualmente, o turismo representa 18% das exportações em Portugal. As metas que priorizamos estão relacionadas com a mobilidade suave, sustentável, consumo de água, produção e consumo de energia elétrica e à produção de resíduos.

Nós queremos que 90% das empresas turísticas tenham implementado sistemas de eficiência energética e de produção de resíduos e para isso, desenhamos todo um conjunto de medidas que estamos a colocar em prática, não somente medidas financeiras, mas também de capacitação para a indústria do turismo.

Desejamos, da mesma maneira, expandir o turismo ao longo de todo o território e por todo o ano para que a atividade seja economicamente sustentável com a geração efetiva de empregos e que ofereça bons salários.

Criamos também um programa especial para alargar a ocupação turística no país chamado Valorizar, onde temos recursos financeiros para explorar o desenvolvimento e o crescimento dos produtos turísticos. Produtos associados ao bem-estar, aos vinhos, ao aeroturismo, à literatura, entre outros.

Há também um programa onde as pessoas descobrem Portugal andando a pé, de bicicleta ou a cavalo. Temos a valorização a herança religiosa onde trabalhamos em quatro dimensões: os caminhos de Fátima; o caminho português de Santiago, um caminho espetacular que poucas pessoas conhecem que vai desde o Alentejo até Santiago; os altares marianos, portanto, as várias presenças desses altares em Portugal e; a herança judaica que nos permite trabalhar os 33 sítios existentes no país.

Nos colocamos numa posição de país que liga diferentes continentes, culturas, religiões, que constrói pontes e elimina barreiras entre os povos.

FV – Quais são as suas sugestões de roteiros turísticos em Portugal?

AMG – Geralmente as pessoas conhecem mais Lisboa, Algarve e Porto, mas eu sugiro, além desses destinos que são fantásticos, por exemplo, a Foz do Rio Douro, no Porto, juntamente com Lisboa e eu diria, Lisboa e Porto são duas cidades imperdíveis, que, aliás, são nossas portas de entrada onde temos os nossos aeroportos.

Minha sugestão de roteiro começa pelas Ilhas dos Açoures, conhecidas como a nova Islândia da Europa e ficam entre o Brasil e Portugal continental. São ilhas vulcânicas onde se pode mergulhar como num vulcão extinto com a vantagem das águas aquecidas, realmente, é uma experiência divinal.

E depois, temos a Ilha da Madeira, muito conhecida por seus vinhos, porém, de início sugiro uma caminha pela floresta Laurissilva que é classificada como uma floresta especial pelas levadas d’água que atravessam a ilha desde norte a sul e as pessoas vão, através das levadas d’água, descobrindo os caminhos da Madeira.

Já em Portugal continental, mais ao norte, o Rio Douro é muito bonito e é um patrimônio da Unesco que é onde são produzidas as uvas do vinho do Porto. Também sugiro que visitem o Museu do Foz Côa, um museu com gravuras rupestres a céu aberto das mais antigas do mundo. Em seguida, a parada obrigatória é em Coimbra e sua universidade.

Neste local temos um museu único onde se encontram animais embalsamados que vieram dos territórios que foram possessões portuguesas há cinco séculos, com animais que vieram no século XV do Brasil e da África, inclusive algumas espécies já estão extintas atualmente.

Outro elemento muito interessante são as aldeias. Nós temos em Portugal pequenas aldeias históricas cheias de patrimônio, cultura e gastronomia e, por exemplo, se pode fazer workshops de cestaria para se aprender a fazer cestas portuguesas. E temos a cidade de Évora, onde fica um templo romano, o Templo de Diana e, além disso, é uma cidade da Unesco de patrimônio classificado que foi toda ela desenvolvida dentro de muralhas.

Logo depois, a visita deve ser estendida a Monsaraz, que está à beira do maior lago artificial da Europa, o Alqueva, onde se é obrigatório fazer uma vindima, experimentar e pisar uvas. Finalmente, acabaria este roteiro no Algarve fazendo um passeio de bicicleta ao longo de toda a costa que permite avistar o oceano Atlântico em belas paisagens.

FV – De acordo com a sua percepção, como a senhora vê o futuro do turismo em seu país em um prazo de dez anos?

AMG – Nós fizemos este exercício quando construímos as nossas estratégias para o turismo e nossa ambição foi: Portugal tem que ser o destino mais sustentável do mundo e para isso, é preciso agir agora e garantir que temos capacidade de valorizar aqueles que são os recursos únicos do país, desde a gastronomia, os vinhos, o artesanato e transformá-los cada vez mais em ativos que levam as pessoas a voltarem à Portugal, não só para visitar, mas para investir e morar.

Nosso país já foi reconhecido este ano como destino mais sustentável da Europa, reconhecendo esta estratégia que estamos a desenvolver.

Neste momento, observamos o crescimento português e estamos conseguindo modificar a estrutura do turismo, onde deixamos de ter visitações sazonais para sermos visitados o ano todo e o papel do turismo também se presta a atrair novos residentes num país cada vez mais cosmopolita, sendo uma plataforma de ligação entre continentes.

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