A História da Infraestrutura no Brasil e o papel da mulher no setor

por The Winners
Marcia Ferrari, Cofundadora do Infra Women Brazil, Diretora Certificação da ABRAFAC e membro do conselho do IREE Infraestrutura. Com mais de 20 anos de carreira em conglomerados globais como RICS e Hilti Group. Arquiteta e urbanista, FAUUSP; pós-graduada em marketing, ESPM; MBA pela BSP e atualmente cursando mestrado na Sorbonne Business School

Para falar sobre a história da infraestrutura, é fundamental falarmos de políticas de governo uma vez que não existe infraestrutura sem governo. Sendo assim, convido você a mergulhar comigo neste breve histórico sobre o Brasil. Importante ter em mente alguns fatores intrínsecos a esta classe de ativos onde temos:

  • Capital intensivo
  • Longo prazo
  • Riscos políticos, regulatórios e fiscais Esta barreira de entrada é também um “convite” ao monopólio natural, e podem, portanto, oferecer retornos constantes aos investidores.

Politicamente a infraestrutura também “rende frutos” uma vez que emprega um grande número de pessoas e é fator fundamental para o bem-estar social e para o sucesso econômico, como por exemplo facilitar o escoamento da produção possibilitando ganho de competitividade internacional. Tendo estes fatores em mente, iniciemos nossa jornada começando pela década de 70 vivemos o fim do “milagre econômico” (entre 1968 – 1973) época em que o PIB chegou a 11% de crescimento. Nesta época o governo tinha como objetivo nacionalizar a produção industrial e para isso energia e logística são essenciais. Obras estruturantes como a usina de Itaipu e a ponte Rio-Niterói foram projetadas neste período e projetos de mineração como Carajás e Trombetas também foram realizados no período. As crises do Petróleo, em 73 e 79 foram impactantes no mundo todo e como o Brasil importava cerca de 70% do petróleo consumido a economia desacelerou e assim, iniciamos os anos 80 endividado e com inflação galopante. Anos 80 foi a “década perdida” total estagnação, alta inflação, aumento da dívida externa e baixo crescimento do PIB. Sem crescimento econômico, e sem um planejamento sistêmico e com visão de médio-longo prazo a tão esperada universalização dos serviços de infraestrutura não acontecem o que contribuiu para perda de competitividade do país. No início dos anos 90 o ambiente econômico continua inapropriado para retomada dos investimentos em infraestrutura. Com Fernando Collor de Mello na presidência o país deu início a venda de estatais de siderurgia e petroquímica e com Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real priorizou-se a estabilidade econômica, tivemos um câmbio valorizado e juros altos. O plano nacional de desestatização (PND) não foi capaz de reverter os baixos investimentos no segmento. Sem fôlego e sem foco no orçamento para investimento em infraestrutura, sem estabelecer marcos regulatórios estáveis e fortalecimento das agências, poucos avanços aconteceram neste setor nesta época. Alto risco para o investidor, longo prazo, volume alto também requer estabilidade política, segurança jurídica, credibilidade nas instituições para atrair o setor privado.

As próximas décadas, ou seja, anos 2000 e anos 2010, vimos o lançamento do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) se anunciou como um grande projeto, porém o resultado ficou muito aquém do esperado, concretizou-se mais como voluntarismo para atingir determinados interesses políticos e empresariais do que retorno real para a sociedade. Como efeito colateral tivemos ainda a implosão das empresas que atuavam no setor de infraestrutura, envolvidas com escândalos da Lava Jato e a credibilidade do país foi ao fundo do poço, afugentando potenciais investidores afinal, cenário de alto risco, capital intensivo e instabilidade; não combinam. Um orçamento, que passa pelo congresso, altamente comprometido com pagamento de despesas e fraco crescimento econômico leva a um baixo nível de investimento para priorizar planejamento sistêmico voltado a obras estruturantes.

O governo atual acertou ao delegar a pasta de infraestrutura a um corpo ministerial técnico e experiente. Podemos dizer que com investimentos em torno de 2% do PIB, o Programa de Parcerias de Investimento PPI conseguiu importantes vitórias e que merecem nossa total consideração. Seguem alguns números:

  • 108 obras entregues em 2021
  • 49 pedidos para construção de novas ferrovias pelo Brasil
  • 12,9 mil km de novos trilhos
  • R$ 165,8 bi de investimentos projetados
  • R$ 462 milhões investidos em aviação regional
  • 22 aeroportos concedidos
  • Aumento de 5,5% na movimentação portuária
  • Mais de 2.000 km de novas pistas e revitalizações
  • 81 entregas ferroviárias
  • 39 leilões de ativos de infraestrutura
  • Cerca de 540 mil empregos gerados

Para se ter uma ideia dos níveis de investimento necessários, tendo por referência a experiência de países desenvolvidos e/ou economias emergentes, uma relação entre % do Produto Interno Bruto (PIB) e resultado a ser atingido temos:

  • 3,0% = apenas para manter o estoque de capital
  • 4%-6% a ser investido ao longo de 20 anos = alcançar os níveis observados atualmente na Coréia do Sul e em outros países industrializados do Leste da Ásia, ou mesmo acompanhar o processo de modernização da infraestrutura da China.
  • 5%-7% = impulsionar o crescimento econômico e se aproximar dos padrões desses países

Independente do capital privado e retomando o que foi falado no início deste artigo, não existe infraestrutura sem governo e portanto, a correta definição de diretrizes e prioridades, trazer transparência aos processos garantindo a credibilidade das instituições, manter a estabilidade política e econômica, garantir segurança jurídica e marcos regulatórios estáveis são fundamentais nesta equação. Nesta curta “viagem no tempo” pudemos ver que ainda há muito a se fazer e, portanto, o Brasil é sim um lugar cheio de oportunidades para investidores em infraestrutura. Desta forma, vamos juntos construir um país melhor e mais competitivo.

 

Importância da Mulher na Infraestrutura

A importância da participação da mulher na sociedade de forma ampla e irrestrita é fundamental para alavancar a economia e para equilibrar diferentes perspectivas e construir um mundo melhor. E antes de começar nosso bate-papo que tal dar uma olhada no último “Relatório Global de Gap de Gênero” do World Economic Fórum e conhecer melhor quais índices precisam ser mais bem trabalhados? 4 elementos fundamentais compõem essa análise sendo, participação na economia e oportunidade, educação, saúde e sobrevivência e poder político. Através da análise de dados de 156 países o índice geral de gap está em 68% e para fechar esta discrepância em todos os 4 itens no mundo serão necessários 135,6 anos. O fator com pior desempenho é relativo a poder político (22%). O segundo com menor alinhamento é o econômico e oportunidades (58%) seguido de educação (95%) e saúde (96%). Nestes 2 últimos itens, a pandemia criou rupturas nos avanços e, portanto, é hora de correr atrás do prejuízo. Estudos da McKinsey “Women in the Workplace” de 2021 também apontam o alto nível de stress (burnout) das mulheres com para equilibrar família, trabalho em pleno lockdown. Logicamente esses índices impactam de maneira diferente as regiões do mundo e os diferentes subgrupos, mas dá para se ter uma boa ideia da situação geral.

Equipe da NASA em 1969 na sala de controle de decolagem do Apollo 11. JoAnn Morgan (amarelo), única engenheira da sala e Katherine Johnson (vermelho), única matemática da sala. Clique no link e conheça o projeto “Ela é Astronauta” da Fundação She Is: – https://she-is.org/ home/

E na Infraestrutura onde é que estamos?

Em meio ao avanço industrial as mulheres foram conquistando espaços no mercado de trabalho. Mas a engenharia parte fundamental da infraestrutura, por muitos e muitos anos foi vista como uma atividade de “construção” logo “braçal” e logo masculina. Apesar da discrepância inerente a esta associação de gênero histórica, a presença de mulheres nesta profissão não para de crescer e a discrepância em salas de aula é cada vez menor. Dados do CREA-PR (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná), demonstram um aumento de 78% no número de mulheres registradas no Conselho nos últimos 9 anos, estando mais da metade atuando na Engenharia Civil. Além disso, estudos do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) indicam que o número de engenheiras registradas por ano no sistema teve um crescimento de 42% entre 2016 e 2018. Com objetivo de mudar os modelos e criar novos parâmetros para acelerar a diminuição do gap de gênero nasceu o Infra Women Brazil. Nossos 4 pilares são:

  • Promover, defender, incentivar, dar visibilida[1]de e fortalecer a presença de mulheres no setor de infraestrutura;
  • Promover o contato entre seus membros e entidades governamentais e/ou setoriais privadas envolvidas em atividades relacionadas à infraestrutura;
  • Disseminar conhecimento técnico e de mercado através da produção de conteúdo, organização e participação em iniciativas e eventos que discutam o setor de infraestrutura, entre ouros; ed. Promover a troca de experiências, capacitação e mentoria entre seus membros;
  • Organizar e participar de feiras, convenções, seminários e eventos que discutam o futuro do setor de infraestrutura, disseminando os impactos positivos da presença das mulheres no setor

Iniciamos em 5 mulheres e hoje somos mais de 770. Nesta caminhada aprendemos e ensinamos, damos risada e lamentamos quando algo inusitado, como o vídeo montagem do Metro de São Paulo acontecem. Superamos e buscamos a inclusão sempre. Nesta caminhada, muitos são os homens que nos apoiam e demonstram ao mundo novos modelos de parceria e mudança. Acredito que estamos em um momento de feliz encontro, onde ideias e ideais se misturam para construir um mundo melhor mais plural e divertido. Vamos juntos nessa…

You may also like

Deixe um Comentário