A energia no Brasil e no mundo e seu papel no curso do progresso

por The Winners
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Artigo escrito por Wilson Ferreira Junior, Presidente da Eletrobras

A energia está no cerne do progresso humano e das mega tendências que delineiam seu futuro. Portanto, não há como falar em desenvolvimento e progresso e não falar em energia. A história evidencia isso. Cada grande salto está associado à capacidade de produzir e armazenar energia.

É o ponto de convergência entre os esforços para promover um desenvolvimento econômico mais sustentável e inclusivo e as mega tendências econômicas e comerciais. As mega tendências são forças globais que impactam negócios, economia, sociedade e cultura.

Isoladamente, ou sobrepondo-se, têm o poder de remodelar cenários econômicos gerando desafios e oportunidades: deslocamento do poder econômico global, mudanças demográficas e sociais, urbanização acelerada, avanços tecnológicos e mudanças climáticas e escassez de recursos.

As implicações dessas mega tendências no setor energético são importantes. O crescimento demográfico e a ascensão social de milhões de pessoas implicam maior consumo energético per capita.

As mudanças climáticas tornam improtelável a expansão da geração de eletricidade por meio de fontes limpas. Avanços tecnológicos e redução de custos de armazenamento acelerarão a adoção da mobilidade elétrica. A produção e a comercialização de energia seguirão sendo um fator preponderante no deslocamento do poder econômico global.

Lidar com recursos escassos demandará significativos ganhos de eficiência na produção e no consumo de energia.

As preocupações a respeito dessas grandes mudanças não são recentes. Já em 1987 o relatório “Nosso Futuro Comum”, definiu o termo “desenvolvimento sustentável”.

Posteriormente, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92), os países concordaram com a promoção do desenvolvimento sustentável. As discussões avançaram e, na Rio+20, o foco das discussões era, principalmente, a economia verde.

Como produto dessa série de cúpulas multilaterais emergiram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), focados principalmente na redução da extrema pobreza e divididos em oito objetivos. Foram adotados pela ONU em 2000 e impulsionaram os países a enfrentar os principais desafios sociais no início do século XXI.

O acesso à energia era subjacente a todos os objetivos, mas não era citado explicitamente.

Em continuidade aos esforços, em 2015, 193 Estados-membros da ONU se reuniram em Nova York e adotaram a Agenda 2030, plano de ação composto por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os ODS são integrados e indivisíveis, mesclando as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental.

Neste momento a convergência dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e os objetivos econômicos e financeiros dos países e das grandes corporações fica evidente, sobretudo em relação à energia.

O objetivo 7, especificamente, trata de assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a um preço acessível à energia para todos.

Contudo, é necessário atender às necessidades da economia e proteger o meio ambiente.

O objetivo desdobra-se em cinco metas, todas focadas na transição energética para fontes renováveis limpas: assegurar acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis; aumentar a participação de energias renováveis na matriz energética global; dobrar a taxa global de melhoria da eficiência energética; reforçar a cooperação internacional para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de energia limpa; e expandir e modernizar a infraestrutura para o fornecimento de serviços de energia.

Para não restar dúvidas de que a energia é o ponto de convergência das preocupações socioambientais e econômico-financeiras, destaca-se o novo “Manifesto de Davos”. O Fórum Econômico Mundial (WEF, sigla em inglês), em seu 50º aniversário, apresentou um conjunto de princípios éticos para orientar as empresas na era da Quarta Revolução Industrial.

Fez-se um chamamento claro à sustentabilidade afirmando que uma empresa responsável “atua como um administrador do universo ambiental e material para as gerações futuras. Protege conscientemente nossa biosfera e defende uma economia circular, compartilhada e regenerativa”.

O manifesto afirma ainda que o desempenho de uma empresa deve ser medido “não apenas no retorno aos acionistas, mas também em como ele atinge seus objetivos ambientais, sociais e de boa governança”.

Logo, a Eletrobras, que é a maior empresa de energia elétrica da América Latina e uma das maiores do mundo, está inerentemente vinculada a qualquer alternativa de desenvolvimento econômico e progresso social. É uma companhia que contribui simultaneamente para a transição energética, a sustentabilidade e o respeito aos direitos humanos.

Com base na nesse compromisso, a Diretoria Executiva da Eletrobras propôs cinco ODS como meta para 2030. A proposta foi aprovada pelo Conselho de Administração, e contempla o seguinte: geração de energia acessível e limpa; emprego digno e crescimento econômico; e foco em inovação e combate à alteração climática, este último contemplado pela mudança do portfólio da companhia.

A Eletrobras se desfez de todas as térmicas poluentes movidas a óleo combustível e diesel e duas das suas três térmicas a carvão. Para a Eletrobras, investir em sustentabilidade da operação não é mais uma opção; é uma questão econômica. A Eletrobras tornou-se signatária, logo em 2016, do Pacto Global da ONU, que definiu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Porém, uma descarbonização profunda da indústria demandará investimentos substanciais e grandes mudanças no sistema energético. Avanços tecnológicos, preços mais baixos de energia, mudanças nas preferências do consumidor ou novas regulamentações serão essenciais para alcançar esse objetivo.

O setor elétrico brasileiro e todos os seus atores devem estar preparados para um crescente uso de dados vastos para aprimorar estratégias de preços, controlar ativos da concessão etc. A combinação de medidores inteligentes, blockchain e a internet das coisas gerará muitos novos dados e permitirá estratégias de preços e equilíbrio de oferta.

O cliente digital e experiente de hoje, armado com um smartphone, exige a disponibilidade de todas as informações a qualquer momento e de qualquer lugar. O avanço dos prosumers também já é um desafio. Qual o papel que as empresas de serviços públicos terão no futuro em que os clientes gerem sua própria energia e até possam monitorar e regular isso através de seus celulares?

Diante de todos esses desafios, a Eletrobras tem um em particular: como viabilizar os investimentos necessários para, no mínimo, manter sua participação de mercado? Pela lógica de participação de mercado, nos próximos 10 anos, deveríamos investir uma média de R$ 14 bilhões por ano.

Só que o nosso plano plurianual está apontando para investimentos da ordem de R$ 18 bilhões em cinco anos, ou seja, inferior a R$ 4 bilhões por ano. Temos um gap , teoricamente, de R$ 10 bilhões anuais só para manter nossa participação no mercado.

Este é o gargalo: nossa capacidade de investimento.

Hoje a companhia tem uma situação melhor — a relação de dívida liquida sobre EBITDA caiu significativamente, e voltamos a captar recursos no exterior a taxas bastante competitivas, mas o gargalo persiste.

A proposta de capitalização, em análise no Congresso Nacional, permitiria descotizar as usinas hidroelétricas e apropriar melhor o risco hidrológico, que hoje penaliza vez por outra o consumidor. Com a capitalização, podemos triplicar os investimentos da empresa.

O Brasil, sob o ponto de vista regulatório, é um sucesso nos leilões. A companhia está se preparando para ser competitiva e participar dos próximos leilões. O apetite dessa participação depende da capacidade financeira dela.

Vai depender de realmente concluirmos a descotização e termos capacidade financeira. Isso vai determinar ser ela será mais ou menos competitiva.

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