A educação no Brasil após o coronavírus

por The Winners
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Claudia Costin, ex-ministra da Administração e Reforma

O Brasil foi um dos signatários, em 2015, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável-ODS, entre eles, o ODS 4, referente à Educação que estabelece que iremos assegurar a todos Educação de qualidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, até 2030.

Infelizmente o país, apesar de importantes avanços em acesso à escola no período recente, ainda tem enormes desafios para oferecer um ensino com algum nível de excelência e convive com expressivas desigualdades educacionais., como mostram os resultados do PISA, avaliação aplicada a jovens de 15 anos de 79 economias, organiza-da pela OCDE, em 2018.

De fato, o Brasil vive uma crise de aprendizagem e, isso, num período em que vivemos a chamada 4ª Revolução Industrial, em que a automação acelerada e a Inteligência Artificial substituem trabalho humano que demanda competências intelectuais, e não mais só manuais. Com este processo, que se convencionou chamar de Revolução 4.0, o mundo do trabalho passou a demandar, dos jovens, competências mais sofisticadas para poder garantir empregabilidade ou, alter-nativamente, empreendedorismo.

É neste contexto que surge a COVID 19 que, em pouco tempo, transformou–se numa pandemia e a maior crise sanitária de que o mundo teve notícia. Cerca de 190 países tiveram escolas fechadas, num processo que atingiu cerca de 1,5 bilhão de alunos. O Brasil foi um deles e, desde meados de março, as crianças e adolescentes não vão às aulas.

Trabalho com aconselhamento técnico para secretários de educação na construção de alguma forma de aprendizagem emergencial em casa. Serão meses de aulas perdidas e não podemos correr o risco de aumentar ainda mais as desigualdades educacionais existentes. Com o fechamento de escolas, os avanços da educação em direção ao digital se ampliaram, desenvolvendo nos professores competências para um ensino que demanda não só conhecimentos sobre computadores e aplicativos, como trabalho colaborativo entre pares.

Há hoje, uma multiplicidade de produtos tecnológicos que podem ser utilizados em Educação, como formação continuada de professores usando Edu-cação à distância ou ferramentas para personalização do ensino e avaliação da aprendizagem dos alunos.

Mas não há como olhar para essas inúmeras alternativas tecnológicas sem ser tomado de ceticismo sobre sua utilidade para educar crianças que, no caso brasileiro, não conseguem sequer se alfabetizar ao final do 3º ano.

Não temos, no entanto, como limitar o processo de ensino ao que já deveríamos estar fazendo bem para, só então, preparar os alunos para o século em que vivem. O mundo não irá esperar por nós. A partir do que aprendemos em tempos de Covid19, poderemos avançar, com apoio de tecnologia e de achados científicos, no desenvolvimento das competências do século 21 nos alunos e mestres, para nos assegurar que o país possa promover um desenvolvimento inclusivo.

Essas soluções tecnológicas não vão substituir os professores, segundo estudos prospectivos. Ao contrário, mesmo com a tran-sição demográfica acelerada que vivemos, o que os especialistas têm mostrado é que há ainda escassez de docentes para realizar um trabalho consistente de preparação dos alunos para um mundo incerto e complexo.

Além disso, a tecnologia pode ser útil aos docentes, possibilitando-lhes trabalhar com dados sobre o que aprende cada aluno, de forma a desenvolver estratégias mais efetivas de ensino. Nesse sentido, logramos desenvolver propostas interessantes para a própria educação, como o Centro de Mídias, da Secretaria Estadual do Amazonas, que irradia aulas por satélite, para centenas de agrupamentos escolares na floresta, onde jovens ribeirinhos cursando o Ensino Médio têm a possibilidade de aprender com professores da própria rede, a partir de Manaus, utilizando roteiros de aula baseados em seu currículo e com interação organizada por professores generalistas em cada sala de aula.

Esta prática, considerada pelo Brookings Institution uma das 14 melhores do mundo para garantir aprendizado em escala, pôde também beneficiar o estado e sua capital na pandemia, para assegurar aprendizagem remota.Apesar de exemplos isolados de boas práticas, ainda temos um longo caminho a trilhar para contarmos com uma educação que, de fato, prepare as novas gerações para o século em que vivem.

Precisaremos para isso de atrair, formar e reter bons professores, e construir, a partir do que aprendemos na crise, essa nova escola que possa nos trazer um futuro menos desigual.

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