“A educação não é mais uma escolha, mas uma imposição da nova riqueza das nações”

por The Winners
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No contexto da nova economia, marcada pela hegemonia da ciência e propriedade intelectual, a afirmação feita pelo fundador e diretor presidente do Liceu Jardim, Prof. Daniel Contro, esclarece que “a nova riqueza dos povos se chama neurônios”. A migração do caráter agropastoril, base econômica de outros tempos, para a era do registro de patentes e inovação, suscita questões entre as diferentes sociedades em espectro mundial. Diante da realidade brasileira, Contro observa um abismo entre a educação brasileira e a qualidade de ensino dos países desenvolvidos nas esferas pública e privada.

Entre outros assuntos, o professor concedeu generosamente à The Winners , uma entrevista que explana os vários ângulos das questões educacionais. Acompanhe:

Felix Ventura – Em linhas gerais, faça um resumo sobre a história do Liceu Jardim e, em especial, sobre o período de sua gestão, explorando as principais diretrizes implementadas.

Daniel Belucci Contro – O Liceu Jardim é uma escola privada, de ensino infantil, fundamental e médio, que atende mais de 2000 famílias da Classe A da região metropolitana de São Paulo, principalmente da região do ABCD. Após estudos de viabilidade econômica, a escola foi implantada na cidade de Santo André, sob a liderança de um grupo de professores com experiência em grandes escolas paulistanas, objetivando trazer para a região o padrão de ensino das melhores escolas do país. Inicialmente, operou como escola premium , do sistema Pueri Domos. Quando essa rede foi incorporada por outro grupo educacional, em 2011, o Liceu seguiu seu próprio caminho. Desde então, o que tem nos movido é a determinação de oferecer condições ideais para que cada um de nossos alunos possa desenvolver o máximo de seu potencial e inserir-se com naturalidade, competência e responsabilidade no cenário global. 

FV – Quais são os princípios basilares da instituição?

DBC – Nosso ideário tem quatro eixos norteadores: a) colocar alunos nas melhores universidades do país e do exterior; b) oferecer currículo com grande diversidade de disciplinas eletivas, incluindo o ensino de oratória; c) oferecer múltiplos espaços de aprendizagem, facilitando a adoção de novas metodologias de ensino; e d) empregar recursos tecnológicos de última geração, a serviço da aprendizagem. Como expressão desse foco, oferecemos um programa bilíngue em que, sem comprometer em nada o elevado padrão acadêmico, os alunos podem ter total imersão no idioma inglês, inclusive participando de intercâmbio em algumas das melhores escolas do mundo, no Canadá, Polônia e Finlândia. Creio que estamos no caminho certo uma vez que, nas últimas três edições do ENEM, o Liceu Jardim destaca-se entre as 20 melhores escolas país. No último ranking, somos a terceira melhor escola do Estado de São Paulo.

FV – Em sua percepção, trace um panorama sobre a atualidade da educação no Brasil para os setores privado e público.

DBC – No contexto da nova economia, marcada pela hegemonia da ciência e propriedade intelectual, a educação não é mais uma escolha, mas uma imposição da nova riqueza das nações. Ou seja, a nova riqueza dos povos se chama neurônios. Migrou das espigas formosas e rebanhos malhados para o registro de patentes e inovação. Há um abismo entre a educação brasileira e a qualidade de ensino dos países desenvolvidos, seja na esfera pública, seja na privada. Em todos os ranqueamentos internacionais, nossos alunos ocupam posições vexatórias. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), por exemplo, que avalia estudantes de 15 anos, em leitura, ciências e matemática, reunindo as 70 nações mais desenvolvidas do planeta, temos ocupado as últimas posições desde que passamos a fazer o exame, há cerca de duas décadas. A tragédia é evidente também nos rankings do Banco Mundial e da Unesco. 

 

FV – Quando pensamos em regiões mundiais que podem ser citadas como referência em instituições de educação, o que pode ser dito?

DBC – Enquanto países como os escandinavos e um grupo de asiáticos encabeçam a lista dos melhores, colocando mais de 50% dos seus estudantes na faixa alta dos exames internacionais, menos de 2% dos brasileiros situam-se nesta mesma faixa. São nossas as mais ineficientes salas de aula do planeta.

FV – Em relação aos nossos educadores, como se pode estabelecer um comparativo entre a nossa realidade com as questões globais?

DBC – Nossos professores, em sua grande maioria, têm formação deficitária. Não atraímos jovens talentosos para o magistério: 85% dos atuais estudantes de licenciatura e pedagogia se graduam por EAD.

Há uma forte resistência ideológica a programas de mérito. Desresponsabilizamos nossos estudantes. Como resultado, eles saem semianalfabetos em mais de 70% do ciclo básico, num cenário desolador e sombrio.

Universalizamos o acesso à escola, mas imolamos a qualidade. Nem mesmo a grande maioria das escolas particulares, embora onipresentes no país, são garantia de qualidade.

Temos mais de 40 milhões de estudantes no ensino básico. Dispendemos uma montanha de recursos.

Proporcionalmente ao PIB, investimos mais que o Canadá e Alemanha. Mas, a continuar como estamos, seremos uma país sem perspectivas de futuro.

FV – Comente a fala do ex-secretário de educação do Estado de São Paulo, José Renato Nalini: “A sociedade aprendeu a reivindicar o que é saudável, mas faltou à aula dos deveres, das obrigações e das responsabilidades”.

DBC – Nos últimos anos, criou-se em todas as camadas da população brasileira a apologia dos direitos. As pessoas foram levadas a acreditar que sempre há alguém a lhes dever alguma coisa.

Os pobres, os descamisados, os sem-terra, os sem-teto, são símbolos da ideologia de direitos, sem a correspondência de deveres. Ter sucesso, no Brasil, é feio, é crime. Patrão é sinônimo de escravocrata, explorador, ladrão.

Nos EUA, por exemplo, os alunos estudam e aprendem a admirar os grandes empreendedores que alavancaram a riqueza da nação. Aqui, eles são execrados. Trabalhar ganhou conotação de castigo e punição.

“Não podemos estudar porque os livros são caros”, tergiversam os mesmos jovens que deixam os morumbis sempre prenhes, em jogos que adentram as madrugadas.

Chegamos à insensatez de culpar o sucesso de uns, independente do seu mérito, pelo fracasso de muitos, independente de seus deméritos. Quase todos culpam o sistema ou o governo.

É insustentável uma sociedade que acredita que é dever do outro a responsabilidade que é sua. O estado brasileiro assina mais de 60 milhões de cheques/benefício a cada mês. Não por acaso, precisamos de cinco brasileiros para a mesma produção de um canadense.

Ah! Canada não vale? São três brasileiros para um argentino.

FV – Como o senhor a valia a dinâmica das famílias na formação da geração atual de estudantes?

DBC – A grande maioria dos pais que constituem a assim chamada Classe A é formada por profissionais liberais e empreendedores de diferentes setores.

Culturalmente, são pais que, em sua maioria, guiam-se pelas mesmas crenças da atual geração. Apregoam uma educação com poucas regras, voltada para garantir a felicidade e bem-estar dos filhos.

Não apoiam uma linha pedagógica de maior rigor e tendem a deixar que os filhos escolham onde preferem estudar.

Geralmente, delegam a disciplina, não exercem a autoridade, por medo de perder o amor dos filhos. É uma geração para qual o amor dos filhos não lhes parece natural.

Precisa ser conquistado, sentimento que os deixa inseguros para exercer autoridade na dinâmica familiar.

Muitos pais se tornam amigos, mas não pais de seus filhos. Esse quadro é trágico. Crianças que crescem em ambiente sem regra, se tornam adultos inseguros e inaptos para o convívio social.

Equivocam-se ao querer poupar os filhos de todo e qualquer esforço ou experiência frustrante, ignorando que foi justamente esse o caminho que os levou a se postarem, com êxito, no mundo.

Infelizmente, a quase totalidade das famílias cogita enviar os filhos ao exterior, não apenas para estudar, mas para fazer carreira, diante da desesperança que se abateu sobre o país, nos últimos anos.

Prof. Daniel Belucci Contro – Fundador e Diretor Presidente do Liceu Jardim

FV – Como o Liceu Jardim trabalha as questões de sustentabilidade e tratamento de lixo com seus alunos?

DBC – Atuamos em três frentes. Primeiro, esses temas integram o conteúdo das disciplinas obrigatórias, como Ciências da Natureza e Geografia.

Segundo, nossa rotina escolar, com ativa participação de professores e alunos, inclui a coleta seletiva de lixo, o cultivo de hortas orgânicas, compostagem, captação de água pluvial e captação de energia por meio de painéis solares.

A escola instalou 1300 painéis fotovoltaicos e, desde de 2016, conquistou autossuficiência energética.

É o maior telhado fotovoltaico urbano da ENEL, a antiga Eletropaulo. Terceiro, desenvolvemos regularmente projetos especiais, como feiras de ciências, guiadas pela agenda de desenvolvimento sustentável da ONU, e cursos de compostagem na fazendinha do colégio, onde os restos de folhas e também fezes de minhoca são utilizados para geração de adubo orgânico, aproveitado em nossa horta.

FV – Qual é a relação entre tecnologia e sala de aula empregada no Liceu Jardim? Quais os elementos utilizados em consonância com as principais instituições mundiais?

DBC – No Liceu Jardim, a tecnologia está a serviço da aprendizagem em diversas áreas do conhecimento: letramento digital, que envolve habilidades fundamentais para o século XXI, como pesquisa, curadoria de informação, criação e compartilhamento de conteúdos digitais, segurança na internet, cidadania digital e comunicação.

Para atingir esses objetivos, em consonância com as principais instituições mundiais e países de destaque na educação, adotamos uma metodologia multiplataforma que garante o contato dos alunos com ferramentas de produtividade digital, jogos e ambiente virtual de aprendizagem fornecidos pela Google for Education, atividades avaliativas online com relatórios diagnósticos de desempenho, plataformas gamificadas voltadas para o desenvolvimento da inteligência lógico-matemática e habilidades de leitura.

Há também projetos integrados ao currículo que permitem o ganho de conhecimento por meio de solução de problemas através de kits Lego Educação, como ocorre em nossa Educação Infantil, por exemplo.

FV – Ainda sobre tecnologia, há alguma aplicação onde a inteligência artificial seja explorada para os métodos educacionais na instituição?

DBC – Sim. Algumas das plataformas digitais adotadas pelo Liceu Jardim possuem sistema de inteligência artificial capaz de reconhecer padrões nos erros e acertos dos alunos durante a realização de games educacionais e avaliações online.

Por meio desses padrões, são traçados relatórios detalhados sobre o desempenho dos alunos para que os professores possam idealizar planos de ação mais assertivos.

Em uma das plataformas, que se volta para o ensino de Matemática, o sistema de inteligência artificial conduz alunos com diferentes desempenhos para caminhos distintos em uma trilha de exercícios digitais, permitindo o tratamento do erro e personalizando a experiência de aprendizagem.

FV – A instituição faculta aos alunos cursos extracurriculares em complementação ao conteúdo programático regular?

DBC – A escola ainda oferece cursos extraclasse de tecnologia e cultura maker, promovendo ações especiais como o projeto Seja Incrível na Internet (Google e Safernet), destinado à segurança digital; o curso experimental de programação BBC Micro:Bit, iniciativa de grande sucesso no Reino Unido que já alcança mais de 1,5 milhão de estudantes; e a Engenhoteca, que funciona como uma espécie de escola das invenções, buscando despertar e incentivar a inovação e empreendedorismo já no ensino básico.

Jorge Fabbro integra a equipe de coordenação do Liceu Jardim, onde também ensina algumas disciplinas eletivas, como Direito, Oratória e Arqueologia. É doutor em Arqueologia pela USP, Master of Arts pela Andrews University (USA), Bacharel em Direito pela UNISA, Presidente da ABAMO Associação Brasileira de Arqueologia do Mediterrâneo Oriental e Pesquisador Associado do LABECA Laboratório de Estudos da Cidade Antiga do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

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